O Preço da Paz – Por Que Eu Concordo, Mesmo Discordando?

Existe uma peculiaridade fascinante na interação humana, uma dinâmica sutil que muitas vezes nos leva a caminhos inesperados. Você já se viu em uma situação onde, para evitar a fadiga, o embate ou a simples continuidade de uma discussão infrutífera, você acena com a cabeça, murmura um “sim” ou um “entendi”, mesmo quando cada fibra do seu ser grita o oposto? Eu me vejo. E, embora possa parecer uma forma de covardia intelectual ou falta de convicção, eu chamo de o preço da paz.

Não se trata de concordar por concordar, mas de reconhecer que algumas batalhas não valem a energia. Há pessoas para quem a discordância é um catalisador. Ela as impulsiona, as energiza, as faz mergulhar ainda mais fundo em suas próprias convicções, não para encontrar um ponto comum, mas para reafirmar suas posições com ainda mais veemência. E é aí que entra o realismo cruel: discordar as faz continuar falando.

Imagine a cena: alguém apresenta um argumento que, para você, é falho, ilógico, ou simplesmente desconectado da realidade. A primeira inclinação é a de contra-argumentar, de apresentar fatos, de tentar desconstruir a falácia. Mas, então, você se lembra de interações passadas. Lembra-se daquela vez em que você, pacientemente, tentou explicar os nuances, apenas para ver a outra pessoa se entrincheirar ainda mais, elevando o tom de voz, repetindo os mesmos pontos com mais intensidade, até que o cansaço vencesse você. É exaustivo. É um dreno de energia vital que poderia ser direcionada para coisas mais produtivas, mais enriquecedoras. A vida é curta demais para se perder em infindáveis labirintos de debates sem saída. E é por essa dura realidade que, muitas vezes, eu opto pelo caminho da aparente concordância. Não é que eu mude de ideia. É que eu escolho não alimentar a chama.

Porque, veja bem, para certas pessoas, a sua discordância é o oxigênio que mantém o monólogo vivo. É o combustível que as faz insistir, repetir, e até mesmo buscar mais argumentos – muitas vezes circulares – apenas para provar seu ponto. Se você não oferece resistência, se não se engaja na dança da argumentação, a conversa tende a murchar por falta de reciprocidade. É como tentar aplaudir com uma mão só: não gera som.

E talvez seja um ato de autopreservação. Proteger a própria sanidade mental de discussões que não levam a lugar nenhum. Honrar o próprio tempo e energia, direcionando-os para pessoas e situações que realmente valem a pena o investimento. Porque, no fundo, a verdadeira vitória não está em provar que você está certo, mas em escolher suas batalhas com sabedoria.

 

Rossana Köpf – psicanalista

 

Créditos da imagem: Freepik

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