Por mais avançada que seja a medicina, por mais modernos que sejam os hospitais, ainda convivemos com um desafio que toca diretamente a confiança entre pacientes, profissionais de saúde e instituições: a segurança do paciente. Dentro do ambiente hospitalar — onde buscamos cura, alívio e cuidado — o erro, infelizmente, pode estar à espreita.
Em 2000, o Institute of Medicine dos Estados Unidos publicou um relatório histórico intitulado “To Err is Human”. O documento estimava que mais de 98 mil mortes por ano ocorriam em hospitais americanos por eventos adversos evitáveis, a maioria deles decorrente de falhas nos processos assistenciais e não de imperícia individual. O título do estudo não poderia ser mais claro: errar é humano, mas tolerar o erro sistematicamente em um ambiente que lida com vidas humanas é algo que precisa ser enfrentado com responsabilidade, organização e empatia.
Passadas mais de duas décadas desde a publicação do estudo, muito se avançou em termos de protocolos, tecnologia e capacitação. Mas os desafios continuam. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada 10 pacientes internados em países de média e alta renda sofre algum dano durante o atendimento, sendo que até 50% desses eventos seriam evitáveis. No Brasil, o panorama não é muito diferente. Dados da ANVISA mostram que eventos adversos relacionados à assistência à saúde — como erros de medicação, infecções hospitalares e quedas — ainda ocorrem com frequência preocupante.
Mas o que exatamente significa “segurança do paciente”? Trata-se de um conjunto de práticas voltadas à prevenção de danos desnecessários durante o cuidado à saúde. Isso inclui desde ações simples, como higienização correta das mãos, até processos complexos de checagem de medicamentos, identificação de pacientes e comunicação entre equipes.
No entanto, segurança do paciente não é apenas um tema técnico. É uma questão ética e humana. Envolve reconhecer que cada paciente é único, que cada pessoa internada traz consigo angústias, medos e esperanças. Um erro que passa despercebido no prontuário pode ter consequências devastadoras para quem está na cama do hospital e para sua família.
Como médico pneumologista, atendo pacientes em situações de grande vulnerabilidade: dificuldades respiratórias, infecções pulmonares graves, internações prolongadas em UTI. São nesses momentos que a confiança entre equipe e paciente deve ser inabalável. É por isso que segurança do paciente não pode ser um conceito abstrato — ela precisa estar presente em cada gesto, em cada protocolo seguido, em cada reunião clínica.
Importante destacar que o caminho da segurança passa também pela cultura do não julgamento. Profissionais que cometem erros — quando não por negligência, mas por sobrecarga, falhas de comunicação ou processos mal estruturados — devem ser ouvidos, não punidos. Precisamos abandonar a lógica da culpa individual e abraçar a cultura do aprendizado contínuo. Um ambiente onde enfermeiros, médicos, técnicos e gestores possam relatar falhas sem medo de retaliação é um ambiente que aprende, que evolui, que protege.
A mídia tem cumprido um papel importante ao trazer à tona casos emblemáticos de falhas assistenciais. Mas mais do que denunciar, é fundamental que também se valorize as iniciativas bem-sucedidas. Hospitais que reduziram infecções relacionadas a cateteres, instituições que incorporaram tecnologias para evitar erros de medicação, equipes multiprofissionais que adotaram rotinas de checklists inspiradas na aviação civil — tudo isso mostra que é possível mudar.
A segurança do paciente deve ser entendida como um direito de quem busca cuidado e um dever de quem oferece assistência. É uma responsabilidade compartilhada que começa na formação dos profissionais, se fortalece na gestão hospitalar e se concretiza no leito, no cuidado cotidiano, na escuta atenta e no olhar humano.
Que o erro continue sendo humano, mas que a omissão frente ao que pode ser prevenido jamais se torne aceitável. Que possamos construir juntos ambientes de cuidado onde o paciente seja, de fato, o centro das decisões — com segurança, dignidade e confiança.

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