O envelhecimento está ligado à inflamação. Mas apenas no mundo industrializado.

Pessoas de comunidades indígenas não industrializadas, não apresentam a ligação entre inflamação crônica e doenças relacionadas à idade, observada em sociedades industrializadas, segundo um estudo que analisou quase 3.000 adultos em quatro países.

 

A inflamação é uma parte importante da resposta do sistema imunológico à infecção, mas a inflamação a longo prazo, pode causar danos. As descobertas mais recentes, mostram que a inflamação crônica, que há muito tempo é considerada uma marca registrada do envelhecimento, pode ser uma característica do estilo de vida industrializado.

 

Pesquisadores analisaram proteínas ligadas à inflamação em amostras de sangue, de pessoas que vivem na Itália e em Cingapura, juntamente com aquelas de participantes indígenas, que vivem em comunidades não industrializadas ou semi industrializadas na Bolívia e na Malásia. Eles descobriram que os níveis de inflamação aumentaram com a idade e estavam associados a doenças como doença renal crônica nos grupos italiano e cingapuriano. Mas, nos dois grupos indígenas, a inflamação não aumentou com a idade nem levou a problemas de saúde.

 

Isso sugere que “nossa suposição de que a inflamação é uma parte inexorável e inevitável do envelhecimento não é verdadeira”, afirma Thomas McDade, antropólogo e biológo da Universidade Northwestern em Evanston, Illinois. “Não devemos presumir que as ligações entre inflamação e envelhecimento sejam universais.”

 

“Estamos em um ponto em que estamos repensando toda a natureza da inflamação”, afirma o coautor do estudo, Alan Cohen, que pesquisa o envelhecimento na Universidade Columbia, em Nova York. “As coisas que consideramos universais com base em muitos estudos em populações industrializadas ocidentais provavelmente são específicas do nosso ambiente.”

 

Desafiando suposições

Grande parte do que os pesquisadores sabem sobre os processos biológicos subjacentes ao envelhecimento, se baseia em pesquisas em países ricos, que sugerem que a inflamação aumenta com a idade, e pode contribuir para problemas de saúde como Alzheimer, diabetes e problemas cardíacos. Mas essas condições são raras em populações não industrializadas.

 

Para explorar como a inflamação pode afetar o envelhecimento em diferentes ambientes, Cohen e seus colegas analisaram amostras de sangue de 1.041 participantes na Itália, 941 de Singapura, 536 da etnia Tsimane, na Amazônia boliviana, e 358 indivíduos Orang Asli, na Malásia Peninsular. Mais de 50% das pessoas em cada grupo eram mulheres.

 

Os pesquisadores mediram como os níveis de oito proteínas chamadas citocinas, moléculas liberadas por células imunes envolvidas em vários tipos de sinalização celular, incluindo inflamação, mudavam com a idade em cada grupo. Eles também examinaram se altos níveis dessas citocinas, estavam associados a problemas de saúde relacionados à idade.

 

Participantes do estudo da Itália e de Cingapura apresentaram um aumento constante na concentração desses marcadores no sangue, à medida que envelheciam, e isso foi associado a uma série de doenças, principalmente doença renal crônica e diabetes. Essas observações estão em linha com estudos anteriores e são “o que todos esperavam”, diz Cohen.

 

No entanto, participantes de ambas as comunidades indígenas, apresentaram altos níveis de citocinas em todas as idades, e esses níveis permaneceram estáveis ​​à medida que envelheciam. A presença de citocinas não foi associada a nenhuma doença relacionada ao envelhecimento. Os níveis elevados de citocinas ao longo da vida dessas pessoas, podem ser uma resposta a infecções frequentes por parasitas, bactérias ou vírus, afirmam os autores.

 

A descoberta sugere que, proteínas inflamatórias nem sempre são um sinal de dano, e que a inflamação desempenha papéis diferentes em diferentes ambientes. “Você pode ter altos níveis desses marcadores inflamatórios ao longo de toda a sua vida e não ter as doenças”, diz Cohen.

 

Regulação imunológica

Embora ainda não esteja claro, porque exista uma diferença tão acentuada entre as comunidades, McDade sugere que fatores como dieta, frequência de atividade física e estresse em sociedades industrializadas, podem afetar negativamente a capacidade do corpo de regular a inflamação. Isso faz com que ela se torne crônica, o que pode levar a doenças relacionadas à idade. Em comunidades não industrializadas, o sistema imunológico parece ser “muito mais regulado. Ele se ativa quando necessário e se desliga”, diz McDade.

 

“Há oportunidades muito promissoras para pesquisas futuras, que agora investiguem essa questão com mais detalhes e precisão, para descobrir por que essas diferenças ocorrem”, acrescenta.

 

Referente ao artigo publicado em Nature

 

 

Créditos da imagem: Freepik

Marcado:

Revista Digital Rio

ACESSO EXCLUSIVO

Cadastre-se gratuito para receber a edição de estreia do Jornal do Médico® Rio de Janeiro em PDF e acompanhe nossas atualizações.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Revista gratuita Ceará