A frase “Eu te amo, mas cada um que pague a sua conta” ecoa como um sintoma do amor em tempos de sociedade de consumo, onde o individualismo parece ter se tornado a tônica das relações. Observamos um cenário em que a dimensão genuína do amor é questionada, dando lugar a dinâmicas que muitas vezes camuflam o desamor sob o manto de um sentimento que se pretende grandioso, mas que se revela egocêntrico e frágil.
O Narcisismo e a cegueira do Ego.
A dificuldade em lidar com o “não” é uma marca do indivíduo narcísico, que não consegue amar porque seu ego, aprisionado em suas identificações, não suporta a frustração. O amor, nesse contexto, torna-se uma projeção de si mesmo, uma busca incessante por um reflexo que confirme suas próprias idealizações, sem espaço para a alteridade. Quando o outro não corresponde exatamente às expectativas, ou ousa expressar sua individualidade, o castelo de cartas desmorona, e a culpa é prontamente atribuída ao parceiro, perpetuando um ciclo de insatisfação e desilusão.
Amor Genuíno: Uma Construção para Além do Egoísmo
O verdadeiro amor, contudo, é uma construção. Ele exige um empenho constante, uma dedicação que transcende as barreiras do egoísmo e permite a genuína abertura para o outro. Amar não é apenas querer bem ou sentir atração; é um compromisso contínuo de enxergar o outro em sua totalidade, aceitando suas qualidades e imperfeições. Essa jornada implica em reconhecer que o amor e o ódio, embora pareçam opostos, nascem da mesma fonte. A distinção entre eles reside na forma como cultivamos essas energias, transformando-as em conexão ou em distanciamento.
A Responsabilidade Individual e a Maturidade Afetiva
Muitos relacionamentos que se intitulam amorosos são, na verdade, tentativas veladas de reproduzir sentimentos de uma experiência de si mesmo, em um “eu” que se recusa a se autoanalisar. Essa cegueira interna gera um caos que é projetado no parceiro, atribuindo-lhe a responsabilidade por fracassos que são, em essência, frutos de um processo interno não resolvido.
Para amar de verdade, é fundamental a autoaceitação e o reconhecimento das próprias falhas. Somente quando conseguimos enxergar e aceitar nossas próprias forças e fraquezas, podemos nos abrir para um relacionamento mais saudável e equitativo. A frase “cada um que pague a sua conta” não precisa ser sinônimo de um amor frio e distante. Pelo contrário, ela pode sinalizar uma maturidade afetiva em que cada um assume a responsabilidade por sua própria vida e suas próprias emoções, contribuindo para uma relação mais equilibrada e menos dependente, onde o amor genuíno pode florescer.
Você acredita que a ideia de “pagar a própria conta” pode, paradoxalmente, fortalecer uma relação, ou ela sempre indicará uma tendência ao individualismo excessivo?
Rossana Köpf – psicanalista
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