Uma única injeção de um medicamento contra a gripe, pode ter um desempenho superior ao das vacinas

As vacinas contra a gripe podem em breve encontrar uma forte concorrência, ou até mesmo uma medicação de apoio. Um novo ensaio clínico mostra, que uma única dose de um medicamento contra a gripe de longa duração, pode proteger as pessoas por uma temporada inteira, e pode ser mais eficaz do que as vacinas.

 

Em um estudo que incluiu 5.000 adultos saudáveis ​​antes do início da temporada de gripe, e os acompanhou até o seu término, a dose mais alta do medicamento proporcionou 76,1% de proteção contra a doença, em comparação com uma dose de placebo, informou sua desenvolvedora, a Cidara Therapeutics.

 

“Este é um dos avanços recentes mais empolgantes para a prevenção da gripe”, disse Kathleen Neuzil, pesquisadora veterana de vacinas contra a gripe, recentemente forçada a deixar seu cargo como chefe do Centro Internacional Fogarty nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), pelo governo do presidente Donald Trump. A promessa do medicamento ecoa a do medicamento anti-HIV lenacapavir, que protege as pessoas da infecção por 6 meses e, na semana passada, recebeu aprovação da Food and Drug Administration, como um chamado profilático pré-exposição.

 

Chamada de CD388, a vacina contra a gripe contém uma versão reformulada do zanamivir, um medicamento contra a gripe também conhecido como Relenza, que a GSK lançou no mercado em 1999, e é aprovado tanto para tratar, quanto para prevenir a doença. O zanamivir, que deve ser inalado diariamente, tem como alvo a neuraminidase, uma enzima produzida pelo vírus, que libera vírions recém-formados da superfície das células infectadas. Para criar uma versão mais duradoura, a Cidara desenvolveu uma variante química do medicamento, e anexou várias cópias dele a um fragmento de anticorpo chamado fragmento Fc, que é projetado para resistir à degradação pelo corpo humano.

 

O estudo, realizado nos Estados Unidos e no Reino Unido, recrutou adultos que não haviam recebido a vacina contra a gripe. Eles receberam uma de três doses diferentes de CD388 ou uma injeção subcutânea de placebo, entre setembro e dezembro de 2024. Nas 24 semanas seguintes, os pesquisadores contabilizaram o número de participantes que apresentavam sintomas respiratórios, como tosse e febre, e um teste confirmado para o vírus da gripe.

 

Todas as três doses proporcionaram o que a diretora médica da Cidara, Nicole Davarpanah, descreveu como “proteção altamente estatisticamente significativa”, embora a dose mais baixa tenha apresentado apenas 57,7% de eficácia e a dose intermediária, 61,3%. Não ocorreram efeitos colaterais graves em nenhuma das doses.

 

As vacinas contra a gripe sazonal, administradas por injeção ou spray nasal, são projetadas para proteger contra pelo menos três das cepas sazonais, que circulam a cada inverno. Sua eficácia na prevenção de doenças depende muito de sua compatibilidade com as cepas de gripe circulantes na população humana, mas a média é de apenas 40%, pois mutações nos vírus da gripe, frequentemente permitem que eles driblem as respostas imunológicas.

 

Em contraste, o CD388 é eficaz contra uma ampla variedade de cepas, mostra um estudo em camundongos publicado por pesquisadores da Cidara, na edição de 17 de março da Nature Microbiology. O medicamento ataca uma região da neuraminidase, que não pode mudar facilmente sem comprometer a aptidão viral. Mas Neuzil alerta que, embora a resistência aos inibidores da neuraminidase seja rara em vírus da gripe, ela ocorre, e o comunicado de imprensa de Cidara, não abordou a questão. “Seria importante acompanhar isso”, diz ela.

 

O epidemiologista Arnold Monto, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan, afirma ter antecipado os resultados positivos de Cidara, com base em um estudo que ajudou a conduzir há mais de 25 anos. Inalar zanamivir todos os dias durante a temporada de gripe ofereceu 84% de proteção, relatou o Dr. Monto no JAMA em 1999. Essas descobertas não levaram a nada porque a maioria das pessoas não quer tomar um medicamento diário para prevenir a gripe, diz Monto. Mas uma única injeção pode atrair um grande mercado. “Essa estratégia é muito atraente em muitos aspectos”, diz ele.

 

Monto acrescenta que muito dependerá do preço futuro do medicamento, que a empresa não quis discutir. “As vacinas contra gripe são muito baratas”, observa. E vários grupos de pesquisa estão trabalhando para desenvolver vacinas “universais” contra a gripe, que funcionem contra praticamente todas as cepas, e tenham um efeito mais potente do que as existentes.

 

Outros medicamentos para prevenir a gripe também estão em desenvolvimento, incluindo um fabricado pela Cerberus Therapeutics, que administra zanamivir por meio de “nanocorpos”, minúsculos anticorpos derivados de camelos que são relativamente fáceis de produzir em grandes quantidades, afirma o imunologista e cofundador da Cerberus, Hidde Ploegh. Embora considere o CD388 uma “abordagem valiosa” e os novos dados “convincentes”, Ploegh acredita que a Cerberus terá uma vantagem, porque seu medicamento é injetado no nariz. “Se você pensar em facilidade de distribuição, adesão e aceitação, então acho que qualquer abordagem que evite agulhas é preferível”, diz ele. Por outro lado, a Cerberus ainda não chegou aos estudos em humanos.

 

 

A Cidara planeja lançar ensaios clínicos de eficácia em larga escala do CD388 durante a temporada de gripe no Hemisfério Sul, que começa no início de 2026. Esses estudos permitirão que os participantes também sejam vacinados contra a gripe, se desejarem; as duas intervenções combinadas podem oferecer proteção ainda maior. O ensaio clínico se concentrará em pessoas com sistema imunológico comprometido ou condições crônicas, que as tornam particularmente vulneráveis ​​à gripe grave. “Se o inibidor puder ser fabricado em larga escala a um preço razoável, poderá ser muito útil como profilaxia para pessoas de alto risco”, afirma o pesquisador de gripe Adolfo García-Sastre, da Faculdade de Medicina Icahn do Monte Sinai. “É uma tecnologia muito interessante.”

 

Referente ao artigo publicado em Science

 

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