Brasil cria a maior fábrica de mosquitos contra a dengue

Quando o biólogo Antônio Brandão conta às pessoas, que trabalha em uma fábrica de mosquitos, elas costumam ficar perplexas. “Por que vocês fariam mais mosquitos?”, ele se lembra de ouvir as pessoas perguntando. “Já temos o suficiente deles.” Mas, quando ele explica que os insetos criados em laboratório, podem ajudar a conter a disseminação da dengue, que atinge centenas de milhares de pessoas no Brasil todos os anos com febre, dor de cabeça e dores nos ossos, elas se convencem da sua importância.

 

Brandão é o gerente de produção, não de uma fábrica qualquer de mosquitos, mas da maior fábrica do mundo, localizada em Curitiba, no sul do Brasil. Inaugurada em julho de 2025, a unidade deve produzir 100 milhões de ovos por semana do mosquito Aedes aegypti. No entanto, diferentemente do A. aegypti selvagem, principal transmissor do vírus da dengue, os produzidos pela fábrica, contêm uma bactéria inofensiva, a Wolbachia, que inibe a capacidade dos insetos de disseminar vírus como dengue e zika. A ideia é liberar os mosquitos modificados, que os pesquisadores chamam de wolbitos, em cidades brasileiras, onde eles se acasalarão com seus homólogos selvagens, e as fêmeas transmitirão a bactéria para seus descendentes, convertendo gradualmente a população local.

 

A estratégia wolbito, liderada pela organização sem fins lucrativos World Mosquito Program (WMP), já demonstrou sucesso na Colômbia, Indonésia e no Brasil: na cidade brasileira de Niterói, no sudeste do país, os casos de dengue caíram 69%, em áreas onde os mosquitos transmissores da Wolbachia foram liberados, em comparação com áreas aonde não foram. O governo federal brasileiro adotou a abordagem para combater as infecções por dengue, que atingiram um recorde de 6,5 milhões de casos confirmados no país no ano passado, juntamente com outras medidas preventivas, como vacinas.

 

No entanto, pesquisadores da fábrica descobriram que, criar milhões de mosquitos é surpreendentemente complicado, especialmente porque os insetos são exigentes com a temperatura e outros fatores. A Nature visitou as instalações da Wolbito do Brasil, administradas por uma empresa formada pelo WMP, o Instituto de Biologia Molecular do Paraná e a Fiocruz, instituto de pesquisa vinculado ao Ministério da Saúde do Brasil, para ouvir em primeira mão, as lições aprendidas pelos funcionários, antes de liberarem os primeiros mosquitos da fábrica no final de agosto.

 

O conhecimento adquirido com muito esforço, servirá de base para outros esforços para controlar doenças transmitidas por mosquitos em todo o mundo, afirma Gabriela Paz-Bailey, epidemiologista dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, sediada em San Juan, Porto Rico. “Haverá muitas lições aprendidas com o envolvimento do governo brasileiro nessa estratégia.”

 

 

Uma fábrica fervilhante de atividade

As fêmeas do mosquito A. aegypti precisam apenas de uma pequena quantidade de água, uma poça d’água dentro de um pneu ou tampa de garrafa abandonados, por exemplo, para depositar seus ovos. Isso dificulta a prevenção da reprodução de mosquitos em áreas urbanas, mas também pode ser usado em benefício da fábrica. A unidade projetou pequenas cápsulas solúveis, semelhantes às usadas para armazenar medicamentos, para armazenar cerca de 500 ovos de mosquito cada. Estes podem ser enviados para locais onde são necessários e, em seguida, facilmente dissolvidos em pequenas quantidades de água para a eclosão. As cápsulas contêm ração para peixes para nutrir as larvas.

 

Para produzir um número tão grande de ovos, a fábrica depende de milhões de mosquitos adultos, acasalando e botando ovos 24 horas por dia. Os pesquisadores garantem que os insetos sejam portadores de uma cepa de Wolbachia, que pode ser transmitida das fêmeas para seus filhotes.

 

Em uma das salas mais impressionantes da instalação, 66 gaiolas de tela, grandes o suficiente para uma pessoa ficar em pé, abrigam cerca de 10 milhões de mosquitos no total. As fêmeas depositam seus ovos em tiras de papel, colocadas no fundo de cada gaiola. Os minúsculos ovos pretos, do tamanho de um grão de areia, são coletados e colocados em cápsulas ou mantidos para eclosão na instalação, a fim de repor os insetos nas gaiolas.

 

No entanto, fazer com que os mosquitos eclodam dos ovos, e se desenvolvam dentro da instalação controlada, tem sido um desafio. Em cada estágio do seu ciclo de vida, o A. aegypti tem requisitos específicos de temperatura e umidade. Os pesquisadores armazenam os ovos em um ambiente fresco, porém úmido, para evitar que sequem. As larvas, no entanto, requerem condições mais quentes, o que significa que a instalação precisa transferir os insetos para outras áreas com clima controlado, à medida que se desenvolvem. “Eles são muito delicados. Se você variar alguns parâmetros de umidade e temperatura, isso os afeta e impacta sua produtividade”, diz Marlene Salazar, bióloga da instalação.

 

Demanda por sangue

 

Até mesmo alimentar os mosquitos, se mostrou mais complicado, do que os pesquisadores esperavam. O sangue é uma parte essencial da dieta do A. aegypti: as fêmeas precisam dele para produzir ovos. Mas, enquanto mosquitos selvagens em cidades populosas podem contar com um suprimento ilimitado de sangue humano fresco, seus equivalentes criados em fábricas não podem. Fábricas menores de mosquitos, que foram estabelecidas no Brasil e em outros países, para fornecer mosquitos para pesquisas, geralmente dependem de bancos de sangue, que doam amostras perto da data de validade. Mas, quando operando em plena capacidade, a fábrica de wolbito precisará de 70 litros de sangue por semana, um volume maior do que o de uma lixeira alta de cozinha. Isso torna a dependência de sangue humano insustentável.

 

Como resultado, a fábrica encontrou outro fornecedor: uma fazenda de cavalos local, onde os animais têm seu sangue coletado regularmente para produzir antídoto. Cada cavalo pode fornecer até oito litros por vez, sem ser ferido. Os insetos ainda estão se adaptando ao novo cardápio, diz Luciano Moreira, pesquisador de mosquitos e diretor executivo da fábrica. “Pode levar algumas gerações para que nossa colônia se adapte ao sangue animal”, que está sendo misturado com um pouco de sangue humano, para ajudar os insetos a se adaptarem, diz ele.

 

Pesquisadores da fábrica também descobriram que, para que seus wolbitos tenham sucesso na natureza, eles precisam ser “reforçados”. Em muitas cidades brasileiras, os mosquitos selvagens desenvolveram resistência a inseticidas, comumente usados ​​por moradores e prefeituras. Isso os torna mais aptos à sobrevivência, do que os wolbitos. Para corresponder a essa resiliência, a fábrica traz mosquitos selvagens de cidades-alvo e os reproduz em laboratório, com fêmeas portadoras de Wolbachia. “Não adianta soltar uma colônia suscetível a inseticidas”, diz Brandão. “Eles simplesmente matarão nossos mosquitos, e os locais sobreviverão.”

 

A equipe usa armadilhas para coletar e testar continuamente os ovos do mosquito em cada área de soltura, para garantir que os wolbitos estejam se reproduzindo com sucesso com seus homólogos selvagens. Essa vigilância de longo prazo, também será fundamental para rastrear se os vírus da dengue evoluem ou desenvolvem resistência à Wolbachia, diz Paz-Bailey.

 

Superando a resistência local

 

Mas os wolbitos não são a única espécie com a qual a fábrica teve que lidar. Desde a inauguração oficial da instalação em julho, circulam fake news online de que, apesar de inúmeros estudos em contrário, os insetos que ela cria estão disseminando doenças em vez de contê-las. “Temos muitos apoiadores no país, mas também temos pessoas que nos odeiam”, diz Moreira. Recentemente, um crítico apareceu na fábrica, filmou o exterior e postou o vídeo online. Alguns comentaristas sugeriram incendiar a instalação. “Tivemos que registrar um boletim de ocorrência”, diz Moreira.

 

Gabriel Sylvestre Ribeiro, gerente de implementação da fábrica, diz que parte de seu trabalho agora é combater a desinformação sobre a fábrica. Antes de liberar mosquitos em um local específico, uma equipe de engajamento comunitário organiza reuniões, workshops e atividades, para explicar o método aos moradores locais, e também realiza pesquisas para verificar, se as pessoas entendem e concordam com a liberação. “Temos visto consistentemente taxas de aceitação muito altas, acima de 90%”, diz Sylvestre.

 

A fábrica liberou seus primeiros mosquitos em 27 de agosto, no estado de Santa Catarina. Em seguida, os wolbitos voarão sobre Brasília, a capital do país.

 

 

Referente ao artigo publicado em Nature

 

 

Designed by Freepik

Marcado:

Revista Digital Rio

ACESSO EXCLUSIVO

Cadastre-se gratuito para receber a edição de estreia do Jornal do Médico® Rio de Janeiro em PDF e acompanhe nossas atualizações.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Revista gratuita Ceará