Há paixões que iluminam e há paixões que consomem. A hibristofilia, essa atração mórbida e irresistível por criminosos, é uma chama que nasce na sombra — onde o amor se confunde com medo, e o desejo, com autodestruição. No Brasil atual, essa fascinação ganhou espaço. Bandidos se tornam ídolos digitais, mulheres os veneram, e o crime, revestido de charme, parece mais sedutor que o amor real. Por trás dessa loucura há um abismo psicológico, um espelho de dores antigas e uma solidão que grita em silêncio.
O termo, cunhado por John Money em 1986, une as palavras gregas hubrizein (“cometer ultraje”) e philo (“ter afinidade”). O resultado é uma definição clínica para o que é, na essência, um amor nascido da ruína. Money observou que essa tendência se manifesta, em sua maioria, em mulheres. Talvez porque a sociedade tenha ensinado as mulheres a suportar, cuidar e perdoar — mesmo aquilo que as destrói. Amar o criminoso se torna, paradoxalmente, um ato de fé: a crença de que o amor pode curar o mal.
Mas o que move alguém a desejar o perigo? Pesquisas de Slavikova e Panza, da Universidade Estadual da Califórnia, mostram que muitas dessas mulheres não são insanas — são feridas. Carregam infâncias marcadas por abusos, pais violentos, maridos controladores. No preso, elas encontram um homem que, apesar de perigoso, está contido. O cárcere o transforma num amor que não pode fugir nem ferir. Ele é o monstro aprisionado — e ela, sua salvadora.
Há, contudo, um lado sombrio nessa dinâmica: a solidão profunda de quem precisa amar alguém inalcançável. O amor por um criminoso é um amor de cartas, de esperas intermináveis, de sonhos interrompidos por grades. É um amor que nunca caminha pelas ruas, que nunca acorda junto, que nunca constrói um lar. É o amor de quem prefere o impossível, talvez porque o possível já a decepcionou demais.
O psicólogo Mark Griffiths sugere uma raiz biológica — o instinto ancestral que associa força e violência à sobrevivência. Mas há algo mais humano e melancólico nisso: a ilusão de que ser amada por um homem temido pelo mundo torna essa mulher especial, diferente, invencível. O “bad boy” das fantasias modernas é apenas uma versão higienizada do predador que o inconsciente romantiza.
A mídia alimenta o mito. Criminosos são transformados em figuras trágicas, sensuais, carismáticas. O perigo se erotiza, o crime ganha narrativa, e o coração ferido encontra beleza onde deveria haver repulsa. O amor deixa de ser escolha e se torna vício — uma busca cega por intensidade, mesmo que custe a alma.
A hibristofilia, no fundo, é o retrato de uma solidão que quer ser vista. Amar o inatingível é uma forma de evitar o fracasso com o real. É abraçar o abismo, acreditando que ele retribuirá o abraço. E talvez esse seja o ponto mais trágico: quem ama o criminoso, na verdade, tenta salvar a si mesmo — mas, em vez de encontrar redenção, encontra apenas o eco frio de sua própria carência.
Rossana Köpf – psicanalista
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