A Medicina por Trás das Letras com a SOBRAMES São Paulo: Por que a Escrita Aprimora a Prática Clínica?

Para a Dra. Marcia Etelli Coelho, presidente da SOBRAMES-SP, o estetoscópio e a caneta compartilham a mesma finalidade: compreender a alma humana. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal do Médico, a renomada médica e escritora revela como o exercício da literatura aprimora o raciocínio clínico, transforma a escuta no consultório e oferece aos profissionais de saúde um refúgio terapêutico contra o estresse da prática cotidiana.

Jornal do Médico – A SOBRAMES nasceu da união de médicos que se dedicam à escrita não científica, destacando que a medicina e as humanidades são inseparáveis. Como o exercício regular da escrita literária (seja ficção, poesia ou crônica) afeta concretamente a maneira como o médico escuta, observa e se relaciona com seus pacientes no dia a dia?

Dra. Márcia Etelli – A prática da Medicina requer conhecimento técnico e atualizações constantes, porém, torna-se cada vez mais importante a relação humanística entre médico e paciente. Escrever é uma forma de comunicação. À medida que exercito a minha escrita, consigo expressar melhor minhas ideias e sentimentos, o que se reflete diretamente no momento em que converso com meus pacientes. Posso escolher melhor as palavras, oferecendo orientações mais claras e de mais fácil compreensão. Além disso, todo escritor é um bom observador; essa atenção aos detalhes ao redor ajuda no relacionamento clínico, permitindo perceber o que, muitas vezes, escapa a uma visão automatizada ou superficial.

Jornal do Médico – O diagnóstico muitas vezes se assemelha à descoberta de uma trama. Na sua experiência, as ferramentas da narrativa (como a construção de personagens, conflito e desfecho) oferecem um modelo útil para organizar o raciocínio clínico e compreender a história da doença de um paciente?

Dra. Márcia Etelli – Sem dúvida! O médico se assemelha a um detetive. O paciente relata os sintomas e, a partir deles, faz-se a interpretação dos exames, elabora-se o diagnóstico e o consequente tratamento. Essa etapa da consulta é lógica e depende do conhecimento e da experiência de cada profissional. Quando um escritor vai construir uma história, precisa utilizar não só a criatividade, mas também o raciocínio, para que a trama tenha coerência e prenda a atenção do leitor com situações verossímeis. O médico que desenvolve o raciocínio da escrita pode aplicar essa mesma habilidade estrutural em suas consultas.

Membros da Sobrames SP durante o lançamento da Antologia Paulista 2025

Jornal do Médico – A escrita e a arte também podem ser vistas como um espaço de refúgio e reflexão. Você poderia compartilhar como o ato de escrever sobre vivências profissionais desafiadoras atua como um mecanismo de processamento emocional e resiliência para o médico?

Dra. Márcia Etelli – Esse é um dos maiores benefícios para quem escreve. A escrita é terapêutica para todas as pessoas e, fundamentalmente, para nós, médicos. O contato com o sofrimento e com a finitude gera uma carga tensional muito grande que pode ser aliviada ao escrever. Mesmo em uma história ficcional, eu posso elaborar minhas emoções, extravasar a ansiedade e encontrar soluções para os problemas de um personagem que, no fundo, podem servir para a minha vida cotidiana. Além disso, escrever amplia a visão de mundo e desenvolve a empatia, a compreensão e a tolerância — atributos que aplico tanto na relação com pacientes quanto nos meus relacionamentos sociais e afetivos.

Jornal do Médico – Por fim, um recado para o médico que deseja usar a escrita como forma de autocuidado e ressignificação da prática, mas não sabe por onde começar: qual seria o primeiro passo concreto que a SOBRAMES São Paulo recomendaria?

Dra. Márcia Etelli – O médico possui uma vasta experiência de vida que é fonte inesgotável de inspiração. O problema é que costumamos ser muito exigentes conosco. O primeiro passo, então, é se permitir escrever sem a obrigação do perfeccionismo. É preciso criar o hábito e, gradualmente, compartilhar esses textos. A SOBRAMES-SP, por exemplo, edita o jornal “O Bandeirante”, a Antologia Paulista e realiza mensalmente a nossa “Pizza Literária”, onde cada participante apresenta um poema ou prosa de sua autoria. A Medicina é arte e ciência; cada um de nós pode exercer essas duas vertentes com benefícios para os pacientes e para nós mesmos. É só começar.

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