No dia 8 de agosto de 1908, o arqueólogo austro-húngaro Josef Szombathy (1853–1943) entrou para a história da arte quando um trabalhador de sua equipe, Johann Veram, desenterrou uma estatueta de aproximadamente 24 mil anos a.C., esculpida em calcário oolítico.
Foi no silêncio profundo do Vale do Danúbio, em Willendorf, na Áustria – onde o vento ainda parece carregar memórias de eras remotas – que emergiu a pequena figura que atravessou milênios para reencontrar o olhar humano: a Vênus de Willendorf, uma mulher de pedra, uma mãe antiga, guardiã silenciosa de desejos e temores primordiais. Szombathy e sua equipe talvez não imaginassem que, ao remover a terra que a abraçava, despertavam uma presença adormecida desde o Paleolítico Superior.
Modelada em calcário oolítico, cabe na palma de uma mão. Suas curvas – mamas plenas, ventre exuberante, quadris generosos – parecem pulsar com a força ancestral da vida. Os braços mínimos repousam sobre o peito, como quem protege um segredo insondável. A cabeça, envolta em espirais que lembram tranças ou um toucado ritual, oculta o rosto e, ao mesmo tempo, amplia o mistério. Pigmentos vermelhos, ainda visíveis em pequenas frestas, sugerem que um dia foi marcada pela cor do sangue, da fertilidade, do fogo – talvez um amuleto, talvez uma prece esculpida.
Para o olhar médico, sua forma revela mais do que simbolismo: obesidade pronunciada, gigantomastia e possíveis sinais de deformidades ou insuficiências estruturais – marcas que transformam a estatueta em um diálogo entre corpo, história e sobrevivência.
Para o olhar artístico, porém, ela é celebração da abundância, exaltação do feminino como fonte de toda criação.
A Vênus de Willendorf conquistou fama mundial, gerou debates e foi interpretada como deusa da fertilidade, representação da Mãe-Terra, ou, ainda, simples amuleto.

Autora: Dra. Ana Margarida Arruda Rosemberg
Conselheira do Jornal do Médico, Membro Titular da Academia Cearense de Medicina, Médica e Historiadora
Imagem: reprodução internet






