O Papel do Cirurgião no Processo de Afirmação de Gênero: Da Técnica ao Cuidado Integral

A cirurgia de afirmação de gênero deixou de ser exceção para se tornar parte concreta da prática médica contemporânea. Dados internacionais mostram crescimento exponencial desses procedimentos na última década, acompanhado por maior reconhecimento institucional e ampliação de cobertura assistencial. No Brasil, a consolidação do Processo Transexualizador no SUS representa um avanço inegável, ainda que marcado por acesso desigual e filas prolongadas. Esse cenário impõe à comunidade cirúrgica uma reflexão urgente: qual é, de fato, o papel do cirurgião nesse processo?

Reduzir a cirurgia de afirmação de gênero à execução técnica é um erro conceitual. Embora os avanços em vaginoplastias, faloplastias, metoidioplastias e mastectomias masculinizadoras tenham elevado os resultados funcionais e estéticos, técnica sem critério não é excelência — é risco. A indicação cirúrgica exige avaliação rigorosa, consentimento verdadeiramente esclarecido e compreensão profunda das expectativas do paciente.

A segurança perioperatória merece destaque especial. Uso prolongado de hormonioterapia, maior prevalência de comorbidades psiquiátricas, automedicação e histórico de acesso irregular à saúde são realidades frequentes nessa população. Ignorá-las compromete o princípio básico da boa prática cirúrgica. Protocolos claros de avaliação pré-operatória, manejo hormonal, tromboprofilaxia e integração multidisciplinar não são opcionais, mas obrigação ética.

Outro fenômeno preocupante é o aumento da busca por cirurgias em outros países, muitas vezes motivado por longas filas ou custos elevados. A chamada “cirurgia transfronteiriça”, quando realizada sem seguimento adequado e fora de centros experientes, expõe pacientes a complicações evitáveis e dificulta o cuidado longitudinal. Cabe ao cirurgião responsável alertar, orientar e, sobretudo, não compactuar com atalhos perigosos.

Humanização, nesse contexto, não é retórica. Respeitar nome social, identidade de gênero e história de vida não é ativismo — é medicina baseada em vínculo. Na prática clínica, observa-se que os melhores desfechos não decorrem apenas de boas técnicas, mas de relações terapêuticas sólidas, sustentadas por confiança, continuidade e responsabilidade compartilhada.

No processo de afirmação de gênero, o cirurgião deixa de ser apenas executor de um procedimento. Torna-se guardião de um momento decisivo na vida do paciente. A técnica constrói o resultado; o cuidado integral sustenta a dignidade. E é exatamente aí que reside a verdadeira excelência cirúrgica.

Autor: Dr. Felipe Fakhouri | CRM/MT 13.803 RQE 6638

Urologista e Andrologia
Doutor em Urologia pela FMUSP
Diretor executivo da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS)
Instagram: @drfelipefakhouri

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