Comentário publicado na Nature em 09/02/2026,onde um jornalista e escritor americano revela que, acordos corruptos e a exploração humana, estão por trás da corrida global por metais estratégicos.
Você provavelmente não pensa na República Democrática do Congo, quando está navegando no seu celular. Nem nos milhões de pessoas ao redor do mundo, cujo trabalho é extrair e vender grandes quantidades de metais críticos como cobalto, cobre ou tungstênio. Mas deveria. Dispositivos eletrônicos transformaram os metais usados em baterias em recursos estratégicos; tecnologias verdes, como veículos elétricos, e aceleraram a corrida por eles. Nações ricas em metais, do Chile à Indonésia, foram arrastadas para uma disputa entre governos, corporações multinacionais e grupos armados.
Em “Os Elementos do Poder”, o jornalista Nicolas Niarchos, se recusa a ignorar as realidades da cadeia de suprimentos de minerais estratégicos. Ele entrelaça diversos temas aparentemente díspares, desde a história colonial do Congo, até o crescimento da indústria de extração mineral em vários países, passando pelo desenvolvimento de baterias em laboratórios de ponta ao redor do mundo. Ele expõe claramente o surgimento do nacionalismo de recursos, e a competição entre superpotências para garantir quantidades confiáveis de suprimentos. Em vez de um relato enfadonho de negócios, Niarchos compartilha uma história vívida, de como a ganância de um punhado de indivíduos de alto escalão, prejudicou milhões de pessoas.
Os humanos por trás da tecnologia

Niarchos, cujo trabalho foi citado em audiências realizadas em Washington, sobre os efeitos da mineração de metais para baterias na República Democrática do Congo, viu de perto os danos, que a corrida pela extração está causando. Ele descreve crianças se esforçando para extrair minerais na província de Lualaba, por exemplo, apesar dos riscos de desenvolverem doenças respiratórias, por inalação de poeira contaminada.
A culpa, escreve ele, recai em parte sobre o comportamento das nações ricas, e seu desejo insaciável por tecnologias mais rápidas, ágeis e sofisticadas. Mas a reportagem de Niarchos é imparcial. Ele aponta a moralidade questionável dos representantes de empresas de energia, que viajam de avião para a República Democrática do Congo, para assinar acordos com os novos líderes após golpes militares. Ele questiona os líderes de nações ricas em recursos naturais, que assinaram contratos de exploração mineral, e renegaram esses acordos quando surgiu uma proposta mais alta, ou quando foi preciso comprar o silêncio de uma contraparte insatisfeita. As únicas pessoas que Niarchos não consegue responsabilizar, são as populações em geral dessas nações, cujas vidas são viradas de cabeça para baixo pela extração de recursos.
Verificação da realidade

Niarchos conta essa história através de suas experiências pessoais com as vidas das pessoas com quem conversa e as imagens, sons e cheiros, que encontra. Num momento memorável, um caminhoneiro colide com o carro alugado de Niarchos na “rodovia do cobalto” na República Democrática do Congo, por onde passam 70% do cobalto mundial a caminho da exportação. Quando Niarchos recobra os sentidos após o acidente, o caminhoneiro sai cambaleando da cabine. “Com a voz arrastada, ele perguntou se eu queria fumar um baseado”, lembra Niarchos.
Sua reportagem é abrangente, baseada em suas próprias investigações em campo, e profundamente enraizada em arquivos históricos. O livro pode ser uma leitura desconfortável para os poderosos e senhores da guerra, que atuam na República Democrática do Congo. De fato, durante sua reportagem, Niarchos acabou sendo preso em um bar de hotel em Lubumbashi, a segunda maior cidade do Congo. Ele relata os bilhetes escritos às pressas, pedindo às pessoas que informassem a embaixada dos EUA sobre sua detenção, que ele entregou aos outros passageiros em seu voo para a capital, Kinshasa. Lá, ele foi detido, interrogado e, por fim, deportado do país.
O argumento apresentado por Niarchos no livro é convincente, e ele transmite sua mensagem com clareza. Veículos elétricos podem parecer uma alternativa mais limpa e ecológica aos motores de combustão interna, e o desenvolvimento de uma bateria segura, eficiente e de longa duração, é uma façanha incrível da engenharia. Mas isso tem um custo, muitas vezes invisível, em níveis mais altos da cadeia de suprimentos.
O livro não é uma leitura reconfortante. Niarchos se mostra pessimista em relação ao futuro. Não há indícios de que a dinâmica do poder global vá melhorar em breve, ou que a vida daqueles envolvidos na cadeia de suprimentos desses minerais críticos, vá melhorar. Os Estados Unidos, nas palavras de Niarchos, abdicaram de seu interesse em obter os minerais essenciais para a tecnologia de baterias, durante as décadas de 1990 e início de 2000, chegando a vender a maior parte de suas reservas de cobalto e lítio. Niarchos afirma que esse “vácuo” deu ao governo e às empresas chinesas, a margem de manobra para se infiltrarem na África, na América do Sul e no Sudeste Asiático, onde se encontram grande parte dos recursos minerais brutos exploráveis do mundo. Os Estados Unidos venderam mais de 20.000 toneladas de reservas estratégicas de cobalto entre 1993 e 2000, além de um estoque de 36 milhões de quilos de lítio, após o colapso da União Soviética. Aproveitando-se desse vácuo e da apatia da Europa na indústria de baterias, a China produziu 78,5% do cobalto refinado mundial em 2023.
Niarchos chega a uma conclusão dramática sobre a nação que cobriu durante quatro anos, enquanto tentava desesperadamente convencer seus carcereiros de que era, de fato, um jornalista e não um espião. “As pessoas foram manipuladas, enganadas e reprimidas por tanto tempo, que sua percepção da realidade foi irremediavelmente distorcida”, escreve ele. Com “Os Elementos do Poder”, Niarchos tenta registrar a realidade, e fazer com que nós, que deslizamos confortavelmente pela vida com nossos dedos rolando uma tela digital, reflitamos um pouco mais, sobre como conseguimos fazer isso.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-00385-3
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