Explicados os efeitos colaterais raros e perigosos de algumas vacinas contra a COVID-19

Artigo publicado na Scienceem11/02/2026,onde pesquisadores de diferentes nacionalidades afirmam que um estudo “inovador” revelou por que as injeções à base de adenovírus causaram coágulos sanguíneos e sangramentos com risco de vida em algumas pessoas.

Em fevereiro de 2021, logo após o lançamento das primeiras vacinas contra a COVID-19 na Europa, a hematologista Sabine Eichinger, da Universidade Médica de Viena, deparou-se com um caso perturbador: uma enfermeira de 49 anos, que apresentou coágulos sanguíneos incomuns e sangramento incontrolável após receber a vacina da AstraZeneca. A mulher faleceu, e Eichinger não conseguia esquecer o caso. A vacina parecia ser a única explicação plausível para os sintomas, e Eichinger se preocupava com o que isso poderia significar para o futuro da vacina. “Eu mal conseguia dormir”, conta. Eichinger chegou a acompanhar a autópsia da paciente, na esperança de encontrar alguma outra explicação.

Como isso não aconteceu, ela recorreu ao hematologista Andreas Greinacher, da Universidade de Greifswald, que havia passado décadas estudando um fenômeno raro e surpreendentemente semelhante, em pacientes que receberam o anticoagulante heparina. Essa doença é causada por anticorpos contra o PF4, uma proteína envolvida na coagulação sanguínea. Em poucos dias, o laboratório de Greinacher confirmou, que a paciente de Eichinger também possuía esses anticorpos.

Mais casos de trombocitopenia e trombose imune induzidas por vacina (TTII), como a síndrome ficou conhecida, surgiram na Europa entre os que receberam a vacina da AstraZeneca, e também em pessoas nos Estados Unidos que haviam recebido uma vacina similar contra a COVID-19, produzida pela Johnson & Johnson (J&J). Elas também apresentavam anticorpos PF4. A condição mostrou-se rara, ocorrendo em aproximadamente uma em cada 200.000 pessoas que receberam as vacinas, mas as preocupações de Eichinger se confirmaram. Muitos países europeus restringiram o uso da vacina da AstraZeneca a idosos, que eram os mais vulneráveis ​​à COVID-19, ou a abandonaram completamente. Nos EUA, onde a vacina da AstraZeneca nunca foi aprovada, a vacina da J&J acabou sendo descartada.

Agora, após anos de investigação, a equipe de Greinacher e outros dois grupos, identificaram a causa da TTII. Ambas as vacinas usaram um adenovírus para transportar o gene da proteína spike do vírus da COVID-19 para as células humanas. Em um artigo publicado hoje no The New England Journal of Medicine, os cientistas mostram como uma proteína do adenovírus desencadeia anticorpos “rebeldes”, em pessoas com uma combinação infeliz de predisposição genética, e uma mutação específica em suas células B produtoras de anticorpos. Em vez de atacar uma proteína viral, os anticorpos rebeldes se ligam ao PF4, desencadeando uma cascata perigosa.

“Este é um trabalho belíssimo”, afirma Stanley Plotkin, veterano desenvolvedor de vacinas e professor emérito da Universidade da Pensilvânia. “É algo inovador”, diz Gowthamai Arepally, hematologista da Universidade Duke. E embora as duas vacinas contra a COVID-19 já não estejam mais disponíveis, dando lugar a vacinas baseadas em outras tecnologias, uma vacina contra o Ebola baseada em adenovírus, já está no mercado, e vacinas semelhantes contra muitas outras doenças, estão em desenvolvimento. Os novos dados sugerem que eles também podem causar TTII, mas poderiam ser tornados mais seguros com alterações no adenovírus.

Diversas pistas nos últimos anos, ajudaram os pesquisadores a desvendar o enigma. Uma delas veio dos imunologistas Jing Jing Wang e Tom Gordon, da Universidade Flinders, que em 2022 descobriram que todos os pacientes com TTII apresentavam anticorpos anti-PF4 quase idênticos. Outra pista veio do hematologista Theodore Warkentin, da Universidade McMaster, que com seus colegas encontraram alguns casos em que uma infecção natural por adenovírus, causou sintomas semelhantes aos da TTII. Esses pacientes também apresentavam o anticorpo característico. Isso apontava para algo no adenovírus como o culpado, afirma Greinacher.

Usando espectrometria de massa, os pesquisadores analisaram detalhadamente a sequência de aminoácidos nos anticorpos anti-PF4 de 21 pacientes com trombocitopenia e trombose imune induzidas por vacina. Todos continham uma semelhança fundamental: na posição 31 da chamada cadeia leve do anticorpo, eles apresentavam o aminoácido ácido glutâmico ou ácido aspártico, ambos com carga negativa. Mas a sequência genética em outras células dos pacientes mostrou, que deveria haver uma lisina, que possui carga positiva, nessa posição. Os pesquisadores concluíram que a alteração ocorreu apenas nas células B específicas, que produzem os anticorpos anômalos.

Todos os pacientes com TTII também apresentavam variantes do gene da cadeia leve, que já incluíam um aminoácido com carga negativa na posição 50. Juntamente com a alteração na posição 31, isso levou à formação de anticorpos com uma carga negativa muito forte, que se ligam facilmente à proteína PF4, que possui uma forte carga positiva. O complexo resultante entre múltiplos anticorpos e proteínas, ativa as plaquetas, fragmentos celulares essenciais para a coagulação sanguínea. Elas liberam mais PF4, iniciando uma reação em cadeia, que leva à formação de coágulos perigosos. O processo também consome a reserva de plaquetas do organismo, o que causa sangramentos incontroláveis.

Para confirmar a ligação, os cientistas demonstraram que versões em laboratório dos anticorpos anti-PF4 de dois pacientes, podem causar sintomas semelhantes aos da TTII em camundongos. Para testar se a substituição na posição 31 era realmente crucial para a doença, eles criaram uma versão “corrigida” com lisina, em vez de ácido glutâmico. Os anticorpos resultantes ainda se ligavam ao PF4, mas em uma taxa muito menor, e causavam muito menos coágulos em camundongos.

Os pesquisadores também identificaram o gatilho, para a resposta imune mal direcionada. Eles descobriram que os anticorpos recombinantes da TTII se ligavam a uma proteína do adenovírus, chamada proteína VII (pVII). Estudos posteriores identificaram a parte fundamental da proteína, com 15 aminoácidos, à qual o anticorpo se liga. O segmento forma uma estrutura chamada hélice alfa, semelhante à estrutura do PF4.

Juntando todas as peças, os pesquisadores levantam a hipótese, de que os pacientes que desenvolveram TTII, haviam sido previamente infectados por um adenovírus, o que preparou suas células B para reconhecer a pVII. A vacina, então, colocou essas células em ação, iniciando um processo de geração de mutações, que produz novas variantes dos anticorpos. Em algumas pessoas, esse processo gerou uma variante desfavorável com o aminoácido de carga negativa, e isso, em última análise, levou à TTII.

“Estou convencido”, diz Demin Wang, imunologista do Medical College of Wisconsin. “É um trabalho muito elegante.”

Segundo a Agência Europeia de Medicamentos, cerca de 900 casos de trombocitopenia e trombose imune induzidas por vacina, foram relatados após a imunização com as vacinas da AstraZeneca ou da J&J na Europa, incluindo 200 mortes. Há poucos dados disponíveis sobre o resto do mundo, embora mais de 3 bilhões de doses da vacina da AstraZeneca tenham sido administradas globalmente (estima-se que elas tenham salvado milhões de vidas). Dois casos de TTII foram relatados na Argentina, após a imunização com a Sputnik V, a vacina russa contra a COVID-19, que também contém adenovírus. Nenhum caso foi associado a uma vacina à base de adenovírus produzida pela empresa chinesa CanSino.

Não está claro, se a síndrome é mais rara fora da Europa, ou se alguns casos não foram detectados. Na maior parte do mundo, entre 40% e 60% da população possui a predisposição genética, que torna as pessoas mais suscetíveis à TTII, mas no Leste Asiático a prevalência é de apenas 20%. Outros fatores também podem contribuir para a ocorrência de casos raros.

As novas descobertas podem ajudar a abordar as preocupações sobre o possível risco de TTII (transferência de antígeno viral), em vacinas baseadas em adenovírus para outras doenças. Por exemplo, uma das duas vacinas aprovadas contra o Ebola usa o mesmo adenovírus da vacina contra a COVID-19 da J&J. Vacinas adenovirais, que são baratas de produzir e fáceis de distribuir, porque não precisam ser armazenadas em temperaturas muito baixas, também estão sendo desenvolvidas contra influenza, malária, meningite, tuberculose e doenças emergentes, como o vírus Nipah.

“Os vetores adenovirais têm um papel importante a desempenhar na produção de novas vacinas contra patógenos causadores de surtos, e também para doenças com baixo potencial de lucro com vacinas”, afirma a vacinologista Sarah Gilbert, da Universidade de Oxford, que ajudou a desenvolver a vacina da AstraZeneca. O novo estudo pode ajudar a tornar essas novas vacinas mais seguras, diz ela. É improvável que o pVII possa ser simplesmente removido do vírus, mas os cientistas podem ser capazes de desenvolver versões que não se assemelhem tanto ao PF4, afirma Gilbert. “Ainda há muito trabalho a fazer para verificar a abordagem, mas o caminho a seguir, parece mais claro.”

Link do artigo original: https://www.science.org/content/article/rare-dangerous-side-effects-some-covid-19-vaccines-explained?utm_source=sfmc&utm_medium=email&utm_content=alert&utm_campaign=DailyLatestNews&et_rid=951640241&et_cid=5875495

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Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
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