Do Rio ao Sertão: A Trajetória Pioneira e Humanizada da Dra. Rosely Mesquita em Sobral

Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde, Edição Ceará 2026
Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

Carioca radicada em solo cearense, a Dra. Rosely Mesquita da Silva (CRM/CE 5842) é uma figura histórica da medicina na Região Norte. Formada pela Universidade de Nova Iguaçu em 1992, ela aceitou o desafio de trocar o Rio de Janeiro pelo interior do Ceará, tornando-se peça fundamental na implantação do serviço de pronto-socorro do Hospital Unimed Sobral. Cooperada desde 1995 e agraciada com a Medalha Mérito do Cooperativismo, a Dra. Rosely compartilha nesta entrevista para o projeto Summit Mulheres na Saúde 2026 sua paixão pela Clínica Médica e sua visão sobre a medicina que “escolhe” o profissional através da vocação pelo cuidar.

Jornal do Médico® — Dra. Rosely, para começarmos, o que lhe influenciou a seguir a carreira médica e como se deu a escolha pela Clínica Médica?

Dra. Rosely — Costumo dizer que não fui eu quem escolheu a medicina; foi a medicina que me escolheu. Desde muito cedo, sempre me senti profundamente tocada pelo cuidado com o outro, pela escuta atenta e pela possibilidade de aliviar a dor e oferecer esperança. A medicina me permitiu exercer esse chamado diário de cuidar daquilo que as pessoas têm de mais precioso: a vida. A escolha pela Clínica Médica veio naturalmente, porque ela me permite enxergar o paciente como um todo, e não apenas a doença. Gosto de compreender a história, o contexto, as emoções e as particularidades de cada pessoa. A Clínica Médica exige empatia, raciocínio amplo e proximidade humana — valores com os quais me identifico profundamente. É nessa relação de confiança, escuta e cuidado integral que encontro sentido no que faço e reafirmo, todos os dias, minha paixão pela Medicina.

“Costumo dizer que não fui eu quem escolheu a medicina; foi a medicina que me escolheu.”

Jornal do Médico® — A senhora nasceu no Rio de Janeiro e se formou por lá em 1992. O que a motivou a cruzar o país e estabelecer raízes no interior do Ceará?

Dra. Rosely — Nascida no Rio de Janeiro, em 1966, iniciei minha graduação em Medicina em 1986, concluindo-a em 1992. No ano seguinte, em 1993, recebi um convite para trabalhar no interior do Ceará, em Reriutaba — terra natal da minha mãe Elza, e onde estão minhas raízes familiares. Apesar do forte vínculo e do amor pela minha cidade de origem, a decisão de mudar não foi simples. Ainda assim, aceitei o desafio movida pelo propósito de cuidar de pessoas que enfrentavam grandes dificuldades de acesso à assistência médica. Inicialmente, atuei em Reriutaba e em outras cidades da região. Em 1995, trabalhei por três meses em três distritos de Sobral, experiência que marcou profundamente minha trajetória. Finalmente, em janeiro de 1998, iniciei meus atendimentos no Hospital Unimed de Sobral, consolidando minha chegada definitiva à cidade que viria a se tornar meu novo lar.

“Aceitei o desafio movida pelo propósito de cuidar de pessoas que enfrentavam grandes dificuldades de acesso à assistência médica.”

Jornal do Médico® — Antes de se dedicar integralmente à Unimed Sobral, por quais outras realidades e municípios a senhora passou para conhecer a saúde da região?

Dra. Rosely — Formei-me em Medicina em 1992 e inicialmente, atuei em clínicas na zona oeste do Rio de Janeiro. Era um período de muitos desafios: eu ainda não tinha carro e percorria longas distâncias diariamente de transporte público, o que exigia esforço e determinação desde o início da carreira. Foi nesse contexto que surgiu o convite para vir para o Ceará, decisão que marcaria profundamente minha trajetória profissional. Passei a atuar em serviços de pronto atendimento de hospitais municipais em Reriutaba, Cariré, São Benedito, Varjota e Martinópole, além do Hospital e Maternidade Dr. Francisco Araújo, em Ipú, e da Maternidade Rita do Vale Rêgo, em Reriutaba. Também trabalhei em Postos de Saúde nos distritos de Aracatiaçu, Jaibaras e Taperuaba, em Sobral, e em Inhuçú, no município de São Benedito, experiências que ampliaram minha visão sobre a Medicina assistencial e a realidade da população do interior.

Jornal do Médico® — A senhora viveu o início de um novo serviço no Hospital Unimed Sobral de uma forma muito intensa, chegando a ser a única plantonista médica. Como descreve sua relação com essa instituição?

Dra. Rosely — Em 1998, iniciei minha atuação no pronto atendimento do Hospital Unimed Sobral onde permaneci por 22 anos. Desde 2020, sigo contribuindo no ambulatório. Tenho um vínculo afetivo muito forte com o hospital — costumo dizer que o sinto como um filho: acompanhei seu nascimento, crescimento e amadurecimento, até se tornar uma instituição de credibilidade e referência para Sobral e toda região circunvizinha. Participar da fundação do atendimento de pronto-socorro adulto foi, sem dúvida, um dos maiores desafios e também uma das experiências mais marcantes da minha vida profissional. Naquele início, vivíamos uma realidade muito diferente da atual, com estrutura limitada e uma demanda crescente. Houve momentos em que fui a única médica plantonista, o que exigia não apenas conhecimento técnico, mas também muita responsabilidade, resiliência e equilíbrio emocional. Cada plantão era um exercício de entrega e compromisso com a vida, e ao mesmo tempo um aprendizado constante. Ver, ao longo dos anos, a evolução do pronto-socorro — em estrutura, equipe multiprofissional, protocolos e qualidade assistencial — é motivo de profundo orgulho. Sinto que ajudei a construir bases sólidas para um serviço que hoje atende a população com segurança e excelência.

“Houve momentos em que fui a única médica plantonista, o que exigia não apenas conhecimento técnico, mas também muita responsabilidade, resiliência e equilíbrio emocional.”

Jornal do Médico® — Sendo reconhecida como a “anfitriã” do hospital, existe algum caso clínico ou humano que simbolize para a senhora essa essência do cuidar?

Dra. Rosely — Nunca esqueci um encontro em um domingo à noite, quando substituí um colega no plantão. Naquela noite, atendi uma senhora que disse que queria morrer e que havia pensado em tirar a própria vida na rodovia. Por alguns segundos, permaneci em silêncio, impactada pela profundidade da dor que vi em seu olhar. Ao retomar a conversa, disse a ela que, no fundo, não desejava morrer, pois estava ali pedindo ajuda. Foram cerca de duas horas de atendimento, em que ouvi atentamente o relato de uma vida marcada por grandes sofrimentos. Não se tratava de dor física, mas de uma dor profunda da alma, que a fazia enxergar a morte como única saída. Conversamos longamente. Escutei, falei, acolhi e procurei ajudá-la a perceber que, apesar de todas as dificuldades, sua vida ainda tinha valor e sentido. Ao final, emocionada, ela me disse: “Doutora, a senhora salvou a minha vida. Vou lhe dar uma imagem de Nossa Senhora das Graças que carrego comigo. Foi ela quem me trouxe até aqui. Agora não quero mais morrer. O dia de partir é Deus quem vai decidir.” Naquela noite, tive a certeza de que aliviar a dor da alma — muitas vezes invisível, mas profundamente sofrida — é também parte essencial do cuidar. Ali confirmei, com ainda mais convicção, que estava no caminho certo da Medicina.

“Aliviar a dor da alma — muitas vezes invisível, mas profundamente sofrida — é também parte essencial do cuidar.”

Jornal do Médico® — Diante de tamanha dedicação, a senhora foi agraciada com a Medalha Mérito do Cooperativismo Dr. Darival Bringel de Olinda em 2019. Qual a importância desse modelo para a sua prática diária?

Dra. Rosely — Receber a Medalha Mérito do Cooperativismo Dr. Darival Bringel de Olinda foi uma honra que carrego com profunda gratidão e senso de responsabilidade. Sou cooperada da Unimed Sobral desde 1995. O cooperativismo médico, para mim, vai muito além de um modelo organizacional — ele é uma filosofia de trabalho baseada na união, na ética, na valorização do médico e, sobretudo, no cuidado integral com o paciente. Na prática diária, o cooperativismo se traduz em decisões mais humanas, em respeito à autonomia profissional e na construção coletiva de soluções que priorizam a qualidade da assistência. Trabalhar em cooperação fortalece o médico, amplia o alcance do cuidado e permite que o paciente seja visto de forma integral, e não apenas como um caso clínico. Esse espírito cooperativista é essencial para sustentar uma medicina mais justa, sustentável e verdadeiramente comprometida com a vida.

“O cooperativismo médico é uma filosofia de trabalho baseada na união, na ética, na valorização do médico e, sobretudo, no cuidado integral com o paciente.”

Jornal do Médico® — Para encerrarmos, qual mensagem a senhora deixa para as novas gerações de médicas que buscam seguir esse caminho de humanização?

Dra. Rosely — A mulher trouxe para a medicina contemporânea um olhar mais atento ao cuidado, à escuta e à integralidade do ser humano. Ser indicada ao Summit Jornal do Médico Mulheres na Saúde é um reconhecimento que representa muitas mulheres que constroem a medicina diariamente com competência, sensibilidade e resiliência. A mulher médica ainda enfrenta desafios importantes, como a sobrecarga de múltiplos papéis, a desigualdade em espaços de liderança e a necessidade constante de provar sua capacidade. No entanto, também vivemos conquistas significativas: hoje ocupamos mais espaços, lideramos, inovamos e imprimimos uma visão mais humanizada e empática à prática médica. À jovem mulher que deseja ser médica, deixo uma mensagem de encorajamento: estude, persista, acredite em si mesma e jamais abra mão da sensibilidade. A técnica é essencial, mas é a empatia que torna a medicina inesquecível. Cuidar do outro com competência e humanidade é um ato de coragem, e é isso que verdadeiramente transforma vidas — inclusive a nossa.

“A técnica é essencial, mas é a empatia que torna a medicina inesquecível.”

Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde

Inspire-se com trajetórias de excelência de grandes mulheres em breve na Revista Especial e exclusiva do Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde, Edição Ceará 2026.

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