Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico
Exclusivamente para o Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde, edição Rio de Janeiro, a Dra. Anna Tereza compartilha sua trajetória como presidente da SOPERJ e professora da UERJ. Unindo a experiência na assistência e o rigor científico, ela destaca a importância da modernização do ensino e do apoio mútuo entre mulheres para enfrentar o machismo estrutural e garantir a excelência na pediatria.
Jornal do Médico®: Dra. Anna Tereza, vamos começar pela origem. O que a motivou a escolher a Medicina e, especificamente, a Pediatria como missão de vida?
Dra. Anna Tereza: Talvez você fique um pouco frustrado com a origem de tudo. Eu era muito nova quando fiz o vestibular, com 17 anos recém-feitos. Na época, não tinha certeza de muitas coisas na vida, o que é próprio da idade. Fiz Medicina na Cesgranrio — na nossa época era um vestibular unificado — meio que por uma certa influência do meu pai. Para você ter uma ideia, no vestibular da PUC, que era anterior ao da Cesgranrio, eu fiz para História, que é uma coisa completamente diferente. Eu não tinha tanta convicção da minha profissão na época da escolha da graduação.
Jornal do Médico®: E como a Pediatria entrou nesse cenário?
Dra. Anna Tereza: A Pediatria me encantou durante a formação por me parecer ter menor visibilidade ao longo do curso. Tínhamos muita Clínica Médica, muita coisa com adultos, e senti falta de um maior protagonismo da saúde da criança e do adolescente — de adolescente nem se falava na época. Acho que a Pediatria foi um pouco por isso. É claro que depois de formada, fui me encantando cada vez mais pela especialidade.
Jornal do Médico®: A senhora construiu uma carreira acadêmica sólida, mas iniciou na assistência. Como foi esse desafio de sair do plantão para a docência?
Dra. Anna Tereza: Minha trajetória teve uma parte inicial absolutamente dedicada à assistência. Fiz R3 em Terapia Intensiva, era plantonista de UTI tanto na rede pública quanto na privada, e trabalhei muitos anos em UTI pediátrica. Gostava muito, mas acho que a imagem do meu pai pode ter pesado um pouco mais. Eu estava cansada de dar muitos plantões e via que a carreira na Terapia Intensiva ficaria muito restrita a essa prática, pois eram poucos os que conseguiam ir para as rotinas dos serviços.
Jornal do Médico®: Foi nesse momento que a UERJ surgiu no seu caminho?
Dra. Anna Tereza: Em 1996, consegui uma cessão para o Hospital Universitário Pedro Ernesto como médica. Foi ali que a “mosquinha da docência” me mordeu. Encantei-me absolutamente pela prática do ensino. A oportunidade de estar junto com alunos e residentes no dia a dia do ambulatório de Pediatria foi uma experiência que atravessou minha vida profissional de uma maneira muito intensa.
Jornal do Médico®: Com mestrado e doutorado em Saúde Coletiva, como a senhora avalia os desafios da mulher na pesquisa científica hoje?
Dra. Anna Tereza: No mestrado, consegui juntar minha prática com a pesquisa. Já tínhamos no ambulatório um olhar diferenciado para crianças vítimas de violência, mas a coisa não era sistematizada. Pensando nos aspectos invisibilizados da saúde da criança, a abordagem da violência é um dos agravos que ainda permanece nessa invisibilidade. Entrei no Instituto de Medicina Social da UERJ (IMS) e fui orientada pelo professor Michael Reichenheim, a quem devo minha carreira docente.
Jornal do Médico®: A senhora sentiu dificuldades por ser mulher nesse ambiente acadêmico?
Dra. Anna Tereza: Sabemos que o lugar da mulher não é simples de ser assumido, são espaços onde ainda existe predominância do gênero masculino. Mas conseguimos, porque o ambiente no IMS era muito acolhedor e inclusivo, com muitas mulheres cientistas e produção acadêmica expressiva. No entanto, fora dali, ainda vivenciamos muito o machismo estrutural e a misoginia. São falas que vêm veladas de um elogio, mas que beiram uma barreira que não deveria ser ultrapassada.
Jornal do Médico®: Atualmente, a senhora preside a SOPERJ. Quais têm sido os principais desafios em fortalecer a Pediatria fluminense?
Dra. Anna Tereza: A SOPERJ foi uma conquista de um grupo que quis trazer inovação com propósito. Eu sentia que precisava contribuir mais. Minha carreira docente acabou me afastando da prática assistencial, mas sempre fui ligada ao advocacy pela infância. Trabalhar com violência contra a criança tem muito a ver com isso: assegurar proteção e espaços que promovam o desenvolvimento pleno.
Jornal do Médico®: A Pediatria ainda precisa lutar por valorização no Rio de Janeiro?
Dra. Anna Tereza: A defesa profissional ainda é uma bandeira que precisa de maior visibilidade. A Pediatria costuma ficar em um local de menor importância e valor na assistência à saúde, o que é um equívoco absoluto. A saúde do adulto depende da saúde da criança e do adolescente. Uma infância saudável é requisito para um adulto saudável. Traumas, medos, ansiedades e o tempo excessivo de tela hoje impactam a saúde infantil e trarão repercussões na vida adulta.
Jornal do Médico®: Como coordenadora de Desenvolvimento Docente, qual a importância da qualificação contínua dos professores para o futuro da Medicina?
Dra. Anna Tereza: Quando entrei na carreira docente, percebi a necessidade de me capacitar. Estudamos tanto para ser médicos e, às vezes, existe a ideia de que para ser docente não precisa de tanto estudo. Mas precisa, é uma outra profissão. Dediquei-me a entender que a carreira vai muito além da sala de aula; envolve preparação de objetivos acadêmicos e novos instrumentos de avaliação.
Jornal do Médico®: Como foi o pioneirismo desse trabalho na UERJ?
Dra. Anna Tereza: Há mais de 10 anos, na gestão da professora Albanita Viana, organizamos um programa de desenvolvimento docente que ainda não existia na faculdade. É fundamental que os professores se desenvolvam. A inovação e o rigor na educação médica, com avaliações ampliadas, são fundamentais. Gosto de dizer que tudo muda o tempo todo, como uma onda no mar. Alguns dizem: “Na minha época não era assim”, mas a nossa época é agora.
Jornal do Médico® — O projeto Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde, edição Rio de Janeiro, celebra trajetórias completas como a sua. Que conselho a senhora daria para as médicas que desejam equilibrar a assistência, a vida acadêmica e a liderança, e qual o papel da coletividade nessa jornada?
Dra. Anna Tereza — Os conselhos que se dão acabam se perdendo um pouco; acredito que precisamos ter calma, pois cada trajetória é única. As oportunidades aparecem de forma singular para os profissionais que desejam fazer a diferença e exercer seu ofício com ética e transparência. Sozinhos não chegamos a lugar nenhum. Estar em grupos, participar e ter colegas que comungam dos mesmos ideais é fundamental. O pertencimento — seja à SOPERJ, à Faculdade de Ciências Médicas ou, como no meu caso atual, a uma empresa de educação médica — traz um compromisso e uma coerência muito grandes com o que você faz. Não existe um mapa da mina, cada trajetória será individual e singular. O importante é manter a ética, o coleguismo e o compromisso com a qualidade. Devemos nos apoiar mutuamente e, para as mulheres, isso é ainda mais essencial: é dar a mão mesmo.







