Dra. Fátima Carneiro: ciência, extensão e o compromisso de salvar vidas além dos consultórios

Por: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE
Com três décadas de atuação na UFRJ, a Dra. Fátima Carneiro é um exemplo de como a medicina pode transcender as paredes dos hospitais. Anestesiologista de alma e intensivista por formação, ela divide sua rotina entre o rigor do Centro de Ensino e Treinamento (CET) e o impacto social da Extensão Universitária. Nesta entrevista exclusiva para o Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde, Edição Rio de Janeiro, Dra. Fátima detalha sua paixão pelos procedimentos invasivos, os desafios de nivelar o conhecimento na graduação e a importância de devolver à sociedade — através de projetos como o “Salvando Vidas” — o investimento feito na universidade pública.

Jornal do Médico® – Dra. Fátima, sua trajetória é marcada por uma dedicação admirável ao serviço público e acadêmico. O que a levou a escolher a anestesiologia e como essa vasta experiência prática moldou a professora e pesquisadora que a senhora é hoje?

Dra. Fátima Carneiro: Bem, Argollo, a anestesiologia foi a especialidade que reuniu de forma bem brilhante os meus interesses. Meu interesse ainda na graduação pela fisiologia e pela farmacologia eram as áreas que mais me atraíam. À medida que o curso foi avançando, comecei a me aproximar de uma medicina com resultados imediatos, mais intervencionista, em unidades fechadas. E isso eu conseguiria através da medicina intensiva e da anestesiologia, duas especialidades que confluem. Fui intensivista durante seis anos e, parte desse período, eu estava fazendo a residência em anestesiologia. Fui aluna da UFRJ, fiz mestrado, doutorado e o concurso para docência, de forma que há 30 anos estou na UFRJ como docente, mas frequento aquele lugar desde os 17 anos de idade.

O que mais me atraiu foi a anestesiologia me abrir muitos horizontes, como atuar em todas as faixas etárias, do prematuro ao idoso, e em todas as especialidades cirúrgicas. Me dá a possibilidade de trabalhar com procedimentos invasivos, que é uma característica do intensivista/anestesiologista — essa paixão pelos procedimentos invasivos. Enfim, a anestesiologia me deu tudo isso.
HUCFF: Hospital do Fundão | Foto: SGCOM/UFRJ Fernando Souza
HUCFF: Hospital do Fundão | Foto: SGCOM/UFRJ Fernando Souza.

Jornal do Médico® — Dentro desse vasto leque da especialidade, como a senhora encontrou o seu foco na obstetrícia e o desejo de compartilhar esse conhecimento na graduação?

Dra. Fátima: Eu me aproximei muito do grupo obstétrico, onde trabalho há mais de 28 anos e procuro ser uma referência. Essa experiência prática de todo esse tempo me fez enxergar que eu precisava compartilhar tudo isso com a graduação. A gente está vendo problemas cada vez mais importantes e eu faço um esforço hercúleo para que a gente compartilhe conteúdos de interesse do médico generalista. Desenvolvemos muitas aulas práticas e teóricas importantes para a formação desse generalista, o que moldou de forma intensa a minha conduta como professora dentro da universidade.

Jornal do Médico® – Como Diretora Adjunta de Extensão da Faculdade de Medicina da UFRJ, a senhora liderar projetos inovadores como o “Salvando Vidas”. Qual a importância dessas ações para aproximar a medicina da sociedade?

Dra. Fátima: A extensão teve uma força de encanto sobre mim bastante grande; vejo como uma construção de cidadania do próprio médico. É levar o conhecimento produzido na universidade de volta à sociedade. Afinal de contas, nas universidades públicas, tudo que o aluno recebe é a sociedade quem financia. Nada mais justo do que retornar tudo isso.

A extensão tem a capacidade de detectar as demandas e levar respostas. Continuo coordenando o “Salvando Vidas”, que atua na quadra da Portela e num colégio em Ramos, o CIEP Yuri Gagarin. Atuamos onde as pessoas estão, levando o conhecimento para fora dos muros da universidade.

Jornal do Médico® – Na prática, como funciona o projeto “Salvando Vidas” e qual tem sido a receptividade nessas comunidades e escolas atendidas?

Dra. Fátima: O Salvando Vidas é um curso de capacitação da população para atendimento pré-hospitalar. Ensinamos o que fazer em situações do dia a dia onde a atuação é fundamental para o desfecho final. É um curso muito bem-vindo: o projeto na Portela já tem 8 anos e 16 edições, e na escola tem 10 anos. Capacitamos desde alunos até funcionários dos serviços gerais e direção. Temos feedbacks de pessoas que realmente salvaram vidas após o curso. É algo vibrante, intenso e de uma grandiosidade ímpar.

Jornal do Médico® – A senhora coordena o internato na UFRJ e atua no CET. Qual é o maior desafio — e a maior satisfação — em formar novas gerações de anestesiologistas?

Dra. Fátima: A coordenação do internato é um trabalho contínuo e pesado, que exige planejamento constante em casa e nos finais de semana. No CET, o foco é a capacitação de especialistas. O maior desafio é constatar lacunas de aprendizado cada vez mais frequentes. Recebemos uma turma muito heterogênea, com graus de formação muito diferentes vindos de todo o país. Precisamos suprir essas lacunas para poder progredir; esse é o maior desafio: nivelar para poder progredir.

Jornal do Médico® – Diante dessa necessidade de nivelar alunos com formações tão heterogêneas, como a senhora avalia o papel das novas tecnologias e da inteligência artificial no ensino médico atual?

Dra. Fátima: Hoje temos, paradoxalmente, uma fonte de informações gigantesca — as telas e a inteligência artificial. É uma ferramenta poderosa, mas que precisa ser manejada com muito cuidado para que não tire o foco do aluno em relação à aprendizagem. A maior satisfação é ver nossos alunos alcançando bons resultados em concursos e encontrá-los nos hospitais e congressos palestrando. É uma satisfação que nada no mundo pode ser comparada.

Jornal do Médico® – Como a senhora avalia a evolução da presença feminina na liderança acadêmica e na pesquisa científica hoje?

Dra. Fátima: Vejo ainda muito a avançar. A presença feminina na medicina hoje é uma predominância, e as mulheres ganharam espaço pela sua capacidade de organizar e liderar. Na pesquisa, o espaço ainda é um pouco menor. Precisamos avançar no sentido da respeitabilidade e da equidade, de estarmos nos mesmos ambientes com os mesmos direitos. Existem áreas com muitas barreiras à atuação feminina por uma preponderância masculina, mas acredito ser uma questão de tempo para que essas barreiras sejam vencidas.

Jornal do Médico® – Que conselho a senhora daria para as médicas que desejam equilibrar a assistência hospitalar com a carreira acadêmica e a extensão universitária?

Dra. Fátima: Bom, equilíbrio é tudo. Eu confesso que dediquei grande parte da minha vida à universidade, mas nunca deixaria a assistência, pois amo a prática da anestesia. O conselho é tentar equilibrar o tempo com maturidade e disciplina. É uma matemática difícil, mas o segredo é ser rigoroso e disciplinado na distribuição das cargas horárias entre a vida acadêmica, a assistência, a extensão e a vida pessoal.
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