Dra. Andrea Cristina, 1ª mulher presidente da Coopanest Rio, debate a humanização da medicina e liderança feminina

Jornal do Médico®
Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

Primeira mulher a presidir a Coopanest Rio, a Dra. Andrea Cristina une o legado familiar do pai, o neurocirurgião Dr. Aluisio Sérgio de Melo, a uma visão estratégica moderna. Em entrevista exclusiva ao Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde, edição Rio de Janeiro, ela analisa os desafios da anestesiologia atual, os riscos da medicina focada apenas em custos e como o olhar feminino está transformando a gestão cooperativista.

Jornal do Médico®: Dra. Andrea, o que a levou a escolher a anestesiologia? Houve algum momento específico na sua formação em que percebeu que essa seria a sua missão?

Dra. Andrea Cristina: Sou filha de médico, meu pai é neurocirurgião, e a escolha da medicina esteve sempre presente na minha vida desde muito cedo. Acompanhando meu pai, percebi claramente que essa era uma profissão onde se conseguia ajudar as pessoas de uma forma bem prática e direta. A anestesiologia foi a especialidade escolhida, primeiro por poder estar perto do meu pai e trabalhar com ele, mas também onde mais me realizo, por sentir que no momento de uma cirurgia, o anestesista pode mudar completamente a experiência do paciente, ao ser atencioso, ouvinte e pronto a esclarecer todas as inquietudes do paciente.

“No momento de uma cirurgia, o anestesista pode mudar completamente a experiência do paciente ao ser atencioso e ouvinte.”

Jornal do Médico®: Em que momento a senhora sentiu que sua contribuição para a medicina deveria ir além do centro cirúrgico e entrar no campo da gestão cooperativista?

Dra. Andrea Cristina: Quando entrei para a cooperativa como médica anestesista cooperada, logo entendi que a maior necessidade era de entender como melhorar o processo de faturamento e repasse dos honorários, trazendo mais transparência e automação. Era preciso ajudar, e assim tentei entender as maiores dificuldades, e oferecer ajuda. As glosas são o maior gargalo de todo faturamento e estudar isso e trazer soluções profissionais é muito importante.

“Era preciso ajudar, e assim tentei entender as maiores dificuldades, e oferecer ajuda.”

Jornal do Médico®: Ser a primeira mulher a presidir a Coopanest Rio é um marco para a saúde fluminense. Qual o peso e o significado desse título para a sua carreira?

Dra. Andrea Cristina: É uma honra e uma responsabilidade muito grande ser a primeira mulher presidente da Coopanest Rio. Na fundação da cooperativa, há 38 anos, havia 20 cooperados e, dentre eles, apenas duas mulheres. Hoje, a Coopanest tem quase 1.800 cooperados e cerca de metade são médicas anestesistas. Trazer a mulher para este lugar de liderança, gestão e governança me traz muito prazer e alegria; sou muito orgulhosa disso. Sinto que a mulher pode contribuir muito. Existe um sentido aguçado, uma feminilidade e uma doçura que podem ser aplicadas na gestão e trazem muito resultado, principalmente na gestão de pessoas. Uma empresa, seja ela de mercado ou uma cooperativa, precisa de pessoas, e o sucesso de uma organização é o sucesso das pessoas que a compõem. Gerir pessoas é algo que a mulher pode fazer muito bem.
Dra. Andrea Cristina durante o Anest In Rio 2025
Dra. Andrea Cristina durante o Anest In Rio 2025

“Existe um sentido aguçado, uma feminilidade e uma doçura que podem ser aplicadas na gestão e trazem muito resultado.”

Jornal do Médico®: Quais foram os principais obstáculos encontrados ao assumir a liderança da cooperativa e como a sua visão estratégica ajudou a superá-los?

Dra. Andrea Cristina: Como mulher, nunca tive obstáculos; na verdade, sempre fui muito apoiada. Hoje tenho como mentor o presidente que me antecedeu, o Dr. Carlos Alberto Dias, que me orientou muito; sou sucessora dele com muito orgulho. O que vejo hoje como maior obstáculo é a busca incessante por redução de custos na medicina a despeito de qualquer valor, principalmente a despeito da humanidade. Uma medicina que busca rapidez, imediatismo e automatização extrema acaba afastando as pessoas; afasta o médico do paciente e, consequentemente, afasta o cuidado. O cuidado está se tornando frio, sem o toque, sem o olhar atencioso e sem a escuta. Esse tem sido o maior desafio enfrentado na medicina como um todo, tanto na suplementar quanto na pública. A busca exclusiva por resultados não enxerga o médico como um parceiro, mas como um produto ou um elemento de uma esteira de produção. Precisamos produzir uma medicina melhor, centrada no paciente, na sua dor e na empatia. Estamos perdendo isso a passos largos.

“O maior obstáculo é a busca incessante por redução de custos na medicina a despeito da humanidade.”

Jornal do Médico®: No seu dia a dia como presidente, quais características da liderança feminina a senhora acredita serem mais vitais para o fortalecimento da categoria?

Dra. Andrea Cristina: Acredito que todas as líderes mulheres compartilhem do sentimento sobre a capacidade de exercer vários papéis. Temos facilidade em ter um olhar mais múltiplo. Olhamos para a vida como um todo, mas cuidando de várias “caixinhas”: sou mulher, anestesista, presidente da cooperativa, filha, dona de casa, esposa e membro de uma comunidade. Com o passar dos anos, treinamos esse olhar múltiplo e passamos a cuidar de diversos aspectos dentro da cooperativa. Como mulher, acabo olhando tanto para detalhes do microcosmo, como para toda operação macro. Olho para as pessoas mas também para os processos. Tudo isso é exercido de maneira múltipla e diversificada no cotidiano.

“Como mulher, acabo olhando tanto para detalhes do microcosmo quanto para toda operação macro.”

Jornal do Médico®: O projeto Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde busca valorizar trajetórias como a sua. Que conselho a senhora daria para as médicas que aspiram a cargos de liderança e gestão?

Dra. Andrea Cristina: Existe uma frase que diz: “Se você não vive para servir, não serve para viver.” Isso se aplica perfeitamente aos cargos de liderança. Se você assume um cargo de destaque esperando ser servido, já perdeu a briga. A liderança de sucesso é aquela que serve, que está disposta a construir junto com os demais, com transparência, honestidade, caráter e humildade. É o desejo constante de ser melhor amanhã do que fui hoje. Se você tiver espírito de serviço e de coletividade, sua liderança tem tudo para ser bem-sucedida, independentemente do nível de conhecimento técnico inicial, que se adquire com o tempo. Isso é o que me move: questionar se estou sendo uma pedra de tropeço ou uma mão ajudadora para quem trabalha comigo. O líder precisa aprender a construir com os outros, pois quem vai sozinho, não vai com ninguém.

“O líder precisa aprender a construir com os outros, pois quem vai sozinho, não vai com ninguém.”

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