Reportagem: Argollo de Menezes
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Com mais de meio século de dedicação à medicina, a Dra. Deise de Boni é um pilar da Nefrologia no Brasil. De uma época em que as mulheres ocupavam apenas 10% das cadeiras nas faculdades até a consolidação como Membro da Academia Nacional de Medicina, sua trajetória é marcada pela resiliência e pelo pioneirismo técnico. Nesta entrevista para o Summit Mulheres na Saúde, edição Rio de Janeiro, ela relembra os desafios de iniciar o programa de transplantes, a importância do trabalho em equipe e a satisfação de ver a ascensão feminina na saúde.
Jornal do Médico® — Dra. Deise, sua trajetória soma mais de meio século dedicados à medicina. Voltando ao início: o que a levou a escolher essa profissão em uma época em que as mulheres eram raras nas faculdades e o que a atraiu na Nefrologia?
Dra. Deise De Boni — Desde muito cedo comecei a estudar piano, formando-me aos 15 anos. Naquele momento, percebi que, apesar de gostar muito de música, executá-la profissionalmente não era minha intenção. Inclinei-me para a Medicina após conhecer uma médica recém-formada muito entusiasmada. Ingressei na USP em uma época em que éramos apenas 10% de mulheres. Enfrentávamos muitos comentários jocosos, mas éramos pioneiras e fortes. No internato, interessei-me pelo “rim artificial”, modelo criado na Segunda Guerra Mundial que salvou muitas vidas, e dali nasceu meu interesse vitalício pela Nefrologia.
Jornal do Médico® — Como foi ser uma mulher pioneira no ambiente acadêmico e hospitalar e como foi vivenciar o nascimento do programa de transplantes no Rio de Janeiro?
Dra. Deise De Boni — Iniciei no HC da USP e, como mulher, sempre encontrei barreiras, o que nos tornava mais fortes e estudiosas. Mudei-me para o Rio de Janeiro após casar com o também nefrologista Sérgio Monteiro de Carvalho e cheguei absolutamente desempregada. Trabalhei voluntariamente por oito meses até ser admitida no Hospital Geral de Bonsucesso (HGB). Naquela época, o HGB não tinha sequer hemodiálise. Com muita luta, iniciamos a unidade e levamos praticamente dez anos convencendo a direção sobre a necessidade do transplante renal. Valeu a pena, pois o serviço tornou-se o que mais realizava transplantes no Rio.
Jornal do Médico® — Como formadora de mestres e doutores, o que a senhora busca transmitir para seus alunos que não está nos livros de nefrologia?
Dra. Deise De Boni — O ensinamento de lutar sempre pelos ideais. Jamais fazer diferenças sociais ou raciais e, principalmente, estimular a melhoria do tratamento dos pacientes pelo SUS, que considero o melhor plano de saúde deste país.
Jornal do Médico® — Como Membro da Academia Nacional de Medicina (ANM), qual legado a senhora faz questão de deixar registrado para as futuras gerações de médicas?
Dra. Deise De Boni — Procuro poder colaborar para a melhora da saúde no nosso país como um todo, sendo o meu foco a “saúde renal”. É um espaço para pensar a ciência em prol da sociedade.
Jornal do Médico® — De onde vem o entusiasmo inesgotável para seguir na ativa aos 85 anos e como mantém a humanização viva em tempos de transformações digitais?
Dra. Deise De Boni — Só consigo manter minha atividade aos 85 anos porque tenho uma equipe fantástica, com médicos que trabalham comigo há mais de 40 anos. Formamos uma corrente que torna tudo mais fácil. Sem uma equipe harmônica, dedicada e competente, nada se faz. Eles, inclusive, me ajudam e me impulsionam nas transformações da informática atual.
Jornal do Médico® — Hoje a medicina é majoritariamente feminina em sua base. Como a senhora avalia esse movimento e a ascensão das mulheres aos cargos de liderança?
Dra. Deise De Boni — Fico muito feliz. Acredito que a sensibilidade e a ternura que as mulheres trazem tendem a melhorar o ambiente médico. As mulheres estão “acontecendo” com grande vigor. Tenho uma neta que já é médica residente de cirurgia, o que é um motivo de imenso orgulho para mim.
Jornal do Médico® — Que mensagem a senhora deixa para a jovem médica que sonha em ocupar espaços de liderança e excelência acadêmica?
Dra. Deise De Boni — Meninas, a carreira não é fácil. Mas com garra e persistência, dá para levar com tranquilidade. Para ser uma boa profissional, ser mãe e esposa, o segredo é gostar muito do que faz e, principalmente, trabalhar em equipe.
“Com muita luta, iniciamos a unidade e levamos praticamente dez anos convencendo a direção sobre a necessidade do transplante renal. Valeu a pena, pois o serviço tornou-se o que mais realizava transplantes no Rio. Ver a recuperação desses pacientes é extremamente gratificante.”