Quatro Décadas de Devoção à Vida: A Trajetória de Izabela Parente e a Força da Liderança Feminina

Jornal do Médico®
Reportagem: Thamires Assunção, Jornalista
Coordenação: Argollo de Menezes CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

Com uma trajetória que, neste ano, completa quatro décadas dedicadas à pediatria e à neonatologia, a Dra. Izabela Parente simboliza a crescente presença feminina em posições de liderança na medicina brasileira. Neste diálogo exclusivo para o projeto Summit Mulheres na Saúde 2026 – Edição Ceará, a gestora compartilha como a sensibilidade desenvolvida na prática assistencial contribuiu para aprimorar sua visão estratégica na condução de instituições complexas, conciliando sustentabilidade financeira, qualidade do cuidado e humanização. Referência em gestão sistêmica e colaborativa, a Dra. Izabela também reflete sobre os desafios de ocupar espaços de decisão na área da saúde e destaca a importância de inspirar novas gerações de médicas a assumirem um papel protagonista na transformação e expansão do sistema de saúde no país.

Jornal do Médico® – A medicina ainda carrega desafios importantes para mulheres em posições de liderança. Como foi a sua trajetória até consolidar seu espaço como médica e gestora? Houve momentos decisivos que marcaram essa caminhada?

Dra. Izabela Parente: Podemos dizer que já tivemos avanços importantes na participação feminina em cargos de gestão na saúde. No entanto, mesmo com esses progressos, ainda existe uma sub-representação de mulheres nos cargos executivos mais altos. Muitas vezes os julgamentos sobre postura e liderança são mais rígidos quando se trata de mulheres, e há uma necessidade constante de comprovar nossa competência. Na minha trajetória pessoal, ao longo desses 40 anos de carreira, a gestão surgiu quase por acaso. Eu já havia participado de dois conselhos fiscais na COPED e, em 1999, recebi o convite para assumir a presidência da cooperativa dos pediatras. Para mim foi uma grande honra, mas também um enorme desafio. Refleti bastante antes de aceitar, mas pensei que, se aquele convite havia surgido, eu precisava abraçar a oportunidade, me dedicar e buscar qualificação. Foi exatamente o que fiz.

Jornal do Médico® – Esse período na cooperativa foi determinante para a senhora?

Dra. Izabela Parente: Eu sempre digo que esse período foi um verdadeiro divisor de águas na minha carreira. Foi ali que descobri habilidades na gestão que até então eu não sabia que possuía. Ao mesmo tempo, todo esse aprendizado teve um impacto muito positivo também na minha vida pessoal, porque essas dimensões acabam se influenciando mutuamente. Após os quatro anos na COPED, tive a certeza de que desejava continuar atuando na gestão, sem nunca abandonar o meu lado assistencial. Até hoje sigo ligada à prática médica. Sou aposentada do Estado e da Prefeitura, mas continuo fazendo plantões na neonatologia, algo que considero fundamental para manter essa conexão direta com o cuidado.

Jornal do Médico® – E como foi o processo de especialização para essa nova área executiva?

Dra. Izabela Parente: Considero que a busca por qualificação foi um passo muito importante nessa transição. Tive a oportunidade de realizar um MBA em Gestão e Assistência Sanitária em Madrid, em 2013, e posteriormente também fiz um MBA em Gestão de Serviços de Saúde pela FGV. Depois desse primeiro grande momento em que me descobri na gestão, os convites começaram a surgir naturalmente. Tive a oportunidade de atuar tanto em operadoras de saúde quanto no serviço público. Participei da implantação de hospitais nos setores público e privado e também da criação e implantação de uma fundação vinculada à Prefeitura de Fortaleza. Todas essas experiências foram muito enriquecedoras e ampliaram minha visão sobre o sistema de saúde.

Jornal do Médico: Olhando para trás, qual o sentimento sobre essa construção?

Dra. Izabela Parente: Que tudo isso forma um legado que vamos construindo ao longo da vida. Acho muito importante compartilhar essa trajetória, porque ela pode inspirar outras mulheres a também ocuparem esses espaços de liderança. Hoje me sinto realizada, mas sempre me considero uma eterna aprendiz, sempre em busca de novos conhecimentos. O olhar da gestão faz parte de mim, mesmo em férias ou no cotidiano, ele está sempre presente. A gestão em saúde tem características muito próprias, porque a saúde é um universo singular, que exige sensibilidade e responsabilidade. Ao longo dessas décadas fico muito feliz em perceber que cada vez mais profissionais buscam qualificação e que a presença feminina vem contribuindo de forma significativa para a evolução da área.

Jornal do Médico® – A pediatria e a neonatologia exigem sensibilidade, precisão e tomada de decisão rápida. O que a motivou a escolher essa área e o que mais a realiza dentro dessa especialidade?

Dra. Izabela Parente: Durante a formação médica passamos por diversas especialidades e, nesse processo, acontece algo muito natural: algumas áreas simplesmente não despertam identificação, enquanto outras criam uma conexão imediata. Com a pediatria foi exatamente assim. Houve uma sintonia desde o início. Sempre valorizei muito a dimensão humana da medicina, o cuidado e o acolhimento das pessoas, e a pediatria permite exercer isso de forma muito intensa.

Jornal do Médico® – E como é o exercício do diagnóstico nessa fase da vida?

Dra. Izabela Parente: Acredito que a pediatria tem uma característica muito peculiar: muitas vezes a criança não consegue verbalizar o que está sentindo. Isso já torna o trabalho desafiador desde o início. Costumo dizer que o pediatra precisa agir como um verdadeiro detetive. Vamos reunindo sinais, informações e observações até chegar ao diagnóstico. Quando se trata de crianças pequenas ou recém-nascidos, essa sensibilidade precisa ser ainda maior, porque o médico se baseia tanto no relato da família quanto na observação clínica para compreender o quadro.

Jornal do Médico® – O que torna essa especialidade tão especial para a senhora?

Dra. Izabela Parente: A pediatria foi, para mim, um verdadeiro amor à primeira vista. Sempre fui apaixonada por crianças e acredito que essa fase da vida é fundamental, porque representa o futuro. Ao mesmo tempo, quando atendemos uma criança também estamos acolhendo uma família. Muitas vezes é uma mãe de primeira viagem, cheia de dúvidas, angústias e responsabilidades. O médico precisa estar preparado para ouvir, orientar, diagnosticar e conduzir esse processo com sensibilidade. É um cuidado que envolve todo um núcleo familiar.

Jornal do Médico® – E no caso específico da neonatologia?

Dra. Izabela Parente: Na neonatologia isso se torna ainda mais delicado. Muitas vezes o recém-nascido precisa permanecer internado por alguma condição, como nos casos de prematuridade. Imagine todo o contexto emocional dessa família. Esse momento exige das equipes médicas não apenas competência técnica, mas também muita segurança, serenidade e empatia. Sempre digo que de nada adianta um grande domínio técnico se ele não estiver acompanhado de sensibilidade, humanidade e acolhimento.

Jornal do Médico® – Esse acolhimento é o que define o sucesso do tratamento?

Dra. Izabela Parente: Ao longo da minha trajetória tive a oportunidade de acompanhar muitas famílias de prematuros ou de recém-nascidos internados em UTI neonatal. Nesses momentos, percebemos o quanto o cuidado vai além da medicina. É fundamental fortalecer emocionalmente essa família, ajudando a minimizar o sofrimento e a insegurança daquele período. A pediatria e a neonatologia são áreas muito especiais na minha vida e eu as vejo como uma verdadeira missão. Além disso, o fato de eu atuar tanto na assistência quanto na gestão amplia muito minha perspectiva. Quem está na ponta entende melhor os desafios reais do sistema. Isso ajuda a tomar decisões mais conscientes e a construir políticas que realmente impactem a vida das pessoas.

Jornal do Médico® – Como você enxerga o papel da mulher na gestão em saúde hoje? Que contribuições femininas você acredita que fazem diferença na condução de equipes e serviços?

Dra. Izabela Parente: Historicamente, a presença feminina na saúde esteve mais concentrada na assistência, especialmente na enfermagem e, mais recentemente, na medicina. No entanto, ocupar espaços de decisão sempre foi um desafio maior. Ao longo dessas últimas décadas testemunhei uma transformação importante. Hoje vemos mulheres assumindo diretorias hospitalares, secretarias de saúde, coordenações técnicas e presidências de entidades médicas. A mulher na gestão deixou de ser apenas uma participante para se tornar protagonista de processos de transformação, inovação e humanização dos serviços. Hoje considero que o papel feminino na gestão em saúde é absolutamente estratégico.

Jornal do Médico® – Quais são os diferenciais que a mulher traz para essa área?

Dra. Izabela Parente: Um dos diferenciais que frequentemente observo na liderança feminina é a visão sistêmica com foco no cuidado integral. Muitas mulheres, por conciliarem múltiplos papéis ao longo da vida, desenvolvem uma capacidade ampliada de enxergar o sistema como um todo. Na gestão em saúde isso se traduz na integração entre assistência e administração, no equilíbrio entre sustentabilidade financeira e qualidade do cuidado e na atenção simultânea ao paciente, à equipe e aos indicadores institucionais. Essa visão é especialmente relevante em ambientes complexos, como o SUS ou grandes redes hospitalares.

Jornal do Médico® – E sobre o modelo de liderança e a gestão de pessoas?

Dra. Izabela Parente: É, sem dúvidas, outro aspecto muito presente na gestão feminina é a liderança empática e colaborativa. A experiência mostra que muitas mulheres adotam um modelo mais horizontal de liderança, baseado na escuta ativa, na construção coletiva de soluções e na valorização do trabalho multiprofissional. Em ambientes de saúde, que são naturalmente pressionados por demandas assistenciais intensas, esse tipo de liderança contribui para reduzir desgastes, melhorar o clima organizacional e impactar diretamente na qualidade do cuidado prestado.

Jornal do Médico® – A capacidade de negociação também se destaca?

Dra. Izabela Parente: Claro, além da capacidade de negociação e de gestão de conflitos. A mulher gestora costuma equilibrar assertividade nas decisões com abertura para o diálogo e sensibilidade para compreender os contextos emocionais envolvidos. Essas habilidades favorecem acordos mais sustentáveis, reduzem polarizações e contribuem para relações institucionais mais saudáveis.

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