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Com exclusividade para o Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde – Edição Rio de Janeiro, a presidente da Sociedade de Nefrologia do Estado do Rio de Janeiro (SONERJ) e chefe do serviço no Hospital Federal de Bonsucesso, Dra. Maria Izabel de Holanda, compartilha sua jornada de dedicação à saúde pública e à pesquisa. Na entrevista, ela detalha as estratégias para resgatar o prestígio científico do estado, os desafios da gestão no SUS e reflete sobre as múltiplas jornadas da médica moderna, provando que a maternidade e a excelência profissional caminham juntas.
Jornal do Médico®: O que a motivou a escolher a medicina e, posteriormente, se especializar em nefrologia?
Dra. Maria Izabel de Holanda: A decisão de ser médica vem desde o colégio. Não havia médicos na minha família, mas eu tinha muita vontade de trabalhar com pessoas e gostava bastante de ciências biológicas. Acabei seguindo esse caminho. A nefrologia surgiu na faculdade, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Gostei muito da fisiopatologia renal e tive um professor inspirador, o Dr. Jocemir Lugon — costumo dizer que fiz nefrologia por causa dele. Fui monitora da sua disciplina, ele orientou minha monografia sobre alcalose metabólica e decidi seguir a área. O encanto pelo transplante renal veio durante a residência médica na UERJ. Achava incrível ver um paciente que estava em diálise ser transplantado, voltar a urinar e recuperar sua qualidade de vida. Foi assim que trilhei meus primeiros passos.
Jornal do Médico: Em 2020, a senhora assumiu a chefia do serviço no Hospital Federal de Bonsucesso. Como foi assumir essa responsabilidade e quais são os maiores desafios de liderar no setor público?
Dra. Maria Izabel de Holanda: Confesso que nunca havia pensado em ser chefe. Após fazer um research fellow nos Estados Unidos em 2008, voltei ao Brasil, passei no concurso e me encantei pelo serviço em Bonsucesso, que era chefiado pela Dra. Deise De Boni. Era o maior serviço de nefrologia do Rio de Janeiro, muito bem estruturado, com diálise, transplante e enfermaria. Comecei como plantonista e, com o tempo, fui me dedicando à nefrologia clínica e à preceptoria dos residentes. As coisas aconteceram naturalmente. Quando o serviço ficou sem chefia em 2020, a direção me convidou e eu aceitei por amor ao lugar, para garantir que ele continuasse crescendo.
“O maior desafio, sem dúvida, é lidar com a gestão pública. Manter um serviço desse porte abastecido com materiais e com a escala médica completa é uma tarefa árdua.”

Foto: Matheus Damascena/MS
Jornal do Médico: A senhora mencionou a Dra. Deise De Boni e o fato de o serviço em Bonsucesso ter uma forte presença feminina. Como é a dinâmica dessa equipe hoje?
Dra. Maria Izabel de Holanda: É um serviço predominantemente feminino. As mulheres são extremamente dedicadas e trabalhadoras. O serviço cresce cada vez mais porque todos ali têm muito amor pelo que fazem e, principalmente, respeito pelo legado que a Dra. Deise construiu. Tenho o maior orgulho de perpetuar esse trabalho e tentar trilhar o caminho de excelência que ela sempre idealizou para Bonsucesso.
Jornal do Médico: Falando em liderança, a senhora também assumiu a presidência da Sociedade de Nefrologia do Estado do Rio de Janeiro (SONERJ). Quais foram as suas principais metas ao assumir a entidade?
Dra. Maria Izabel de Holanda: Assumir a presidência da SONERJ é motivo de muito orgulho. Já havia atuado como diretora científica durante a gestão do Pedro Túlio, o que me fez entender a importância de estarmos na sociedade para pleitear melhorias e disseminar informações de qualidade sobre a doença renal crônica. Nossa grande meta era resgatar o protagonismo da nefrologia do Rio de Janeiro no cenário nacional, que estava muito concentrado em São Paulo. O Rio tem uma importância histórica; fomos pioneiros na primeira clínica satélite de diálise no país e formamos grandes referências mundiais. Queríamos tornar a sociedade forte novamente, para que os especialistas tivessem orgulho de pertencer a ela.
Jornal do Médico: E a realização de eventos internacionais tem sido uma estratégia fundamental para esse resgate, correto?
Dra. Maria Izabel de Holanda: Exatamente. Um dos nossos focos foi fortalecer os eventos científicos. Trouxemos, por exemplo, o evento em parceria com a Mayo Clinic, uma das maiores instituições de medicina do mundo. Graças ao contato com nefrologistas renomados internacionalmente, como o Dr. Fernando Fervenza e o Dr. Sanjeev, o projeto deu certo. Vamos para a terceira edição no ano que vem, com mais de 20 palestrantes internacionais. Além disso, lançamos o Chronic Kidney Disease in Rio, fazendo uma alusão ao Rock in Rio, para mostrar que não apenas a cultura e a música são protagonistas no estado, mas a ciência também.

“Hoje, 52% dos nefrologistas do Brasil são mulheres. A mulher é inquieta e dedicada. A medicina precisa valorizar e dar visibilidade aos profissionais de excelência que merecem espaço.”
Jornal do Médico: Em seus eventos, é notória a preocupação com a representatividade. Como a senhora enxerga o atual momento da mulher na pesquisa e na prática nefrológica?
Dra. Maria Izabel de Holanda: Hoje, 52% dos nefrologistas do Brasil são mulheres. A pesquisa clínica na área está em expansão, impulsionada pelas doenças raras e novas drogas, e a grande maioria dos pesquisadores são mulheres. A mulher é inquieta e dedicada. Um grande exemplo é a Dra. Tatiana Sampaio, com seu trabalho sobre a polilaminina na UFRJ. Procuro refletir isso na SONERJ, trazendo um papel social forte e garantindo o protagonismo feminino. Nos eventos, busco sempre dar destaque a mulheres importantes e abordar questões raciais; sou uma grande defensora das cotas nas universidades. A medicina precisa valorizar e dar visibilidade aos profissionais de excelência que merecem espaço.
Jornal do Médico: Para finalizar, que conselho a senhora deixa para as médicas que buscam conciliar a intensidade da profissão, a vida acadêmica e a maternidade?
Dra. Maria Izabel de Holanda: Meu principal conselho é: não encare a família como um empecilho. Vejo muitas pessoas desistindo de mestrados e doutorados por causa dos filhos. Minha mãe, que tem cinco filhos e pós-doutorado no Japão, sempre me disse: “Não pensa, faz. Se você focar nos obstáculos, não vai fazer”. Eu sou muito dedicada à minha família, sempre foco em ter um tempo de qualidade com eles. A mulher não pode ser vista apenas como a pessoa que coordena a casa. Somos multifunções, persistentes e pacientes. Durante o meu doutorado, pensei em desistir, liguei chorando para a minha mãe e ela me disse: “Você já fez quatro anos. Coloca a cabeça no lugar, foca, para de chorar e termina”. É isso. Diante das dificuldades, respire fundo, confie, trabalhe e siga em frente.







