Reportagem: Thamires Assunção, Jornalista
Coordenação: Argollo de Menezes CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE |
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De uma infância humilde onde “receitava novalgina e dipirona” para as bonecas até a gestão de sua própria clínica, sendo Professora Universitária e realizando cirurgias vasculares de alta complexidade, a trajetória da Dra. Emilia Bento (CRM 5275102-2) é uma lição de superação. Primeira da família a conquistar o ensino superior, ela enfrentou a escassez de recursos e um ambiente de pouca diversidade para consolidar uma carreira de prestígio. Nesta entrevista exclusiva ao Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde – Edição Rio de Janeiro, ela compartilha como transformou desafios em liderança e por que a presença da mulher negra na medicina é um ato de coragem e representatividade.
Jornal do Médico® — Sua trajetória, da graduação na UFF até a especialização em Cirurgia Vascular, é marcada por uma grande dedicação. O que a levou a escolher uma área tão técnica e intervencionista?
Dra. Emília Bento — Eu queria ser médica desde os 5 anos de idade, nasci com um “sopro cardíaco” e ia regularmente ao hospital. Levava uma boneca e fazia a receita de “Novalgina e Dipirona” na agenda que a minha mãe usava. Quando entrei para a faculdade queria ser neurocirurgiã, desisti no primeiro período. Sabia que queria a área cirúrgica, mas não sabia qual. Pela afinidade com a anatomia, fui monitora da disciplina e, posteriormente, de cirurgia geral. A escolha pela vascular veio no internato, influenciada por um professor que era um cirurgião vascular muito inteligente e atencioso.
“Um desafio marcante foi não ter livros durante toda a faculdade, pois não tínhamos dinheiro. Estudava com livros da biblioteca, xerox ou livros antigos doados por colegas.”
Jornal do Médico® — Quais foram os maiores desafios que enfrentou para consolidar sua formação vindo de uma origem humilde?
Dra. Emília Bento — Meus pais sempre me deram incentivo mesmo humildes, morávamos na Favela do Arará aqui no Rio de Janeiro. Não passei no primeiro vestibular; só na terceira tentativa, quando minha mãe conseguiu pagar seis meses de um curso intensivo. Um desafio marcante foi não ter livros durante toda a faculdade, pois não tínhamos recursos. Estudava com livros da biblioteca, xerox ou livros antigos doados por colegas. Além disso, havia a logística: eu morava no Rio e estudava em Niterói, pedia carona para economizar na passagem e poder pagar as mensalidades da formatura que eu queria muito poder participar ao término da faculdade.
Jornal do Médico® — A cirurgia é um ambiente de pouca diversidade. Como foi lidar com esse ambiente sendo a única residente mulher em um serviço majoritariamente masculino?
Dra. Emília Bento — Historicamente, a área cirúrgica é prioritariamente masculina. Quando entrei na residência no Hospital dos Servidores, há 20 anos, eu era a única residente mulher entre três homens. Não havia nenhuma staff mulher no início. Ouvi frases que questionavam minha permanência ali, mas isso só reforçou minha determinação em mostrar competência técnica e me impor profissionalmente.
Jornal do Médico® — Em algum momento a senhora sentiu que precisava entregar “o dobro” para ser legitimada tecnicamente por ser mulher e negra?
Dra. Emília Bento — Com certeza percebia que tinha que entregar o dobro, o triplo, por ser mulher. No início da residência, havia uma discrepância enorme: meu colega homem tinha feito 12 cirurgias de um tipo e eu apenas 3, mesmo eu sendo tão dedicada quanto ele. Tive que afirmar que não deveria ser desta forma, mostrando porque e para que eu estava ali naquele local. Na época, eu não tinha plena consciência racial; a conscientização veio com o nascimento do meu filho.
Jornal do Médico® — Como é para a senhora ocupar esses lugares de prestígio na medicina e o que isso representa para os seus pacientes?
Dra. Emília Bento — É perceptível que necessitamos de muitas mudanças, porque ainda sou uma das únicas em muitos lugares. Ocupar esses espaços me fez crescer, especialmente no Hospital dos Servidores, que fica na Pequena África, local de grande valor histórico para o povo negro. Para os pacientes negros, é uma representatividade grande; muitas vezes eles buscam médicos negros que entendam suas condições de saúde que eram ou são negadas ou subdiagnosticadas por outros. Entrei na residência de Cirurgia Vascular em 2006 e somente em 2024 tivemos uma outra residente negra, foram 18 anos de espera.
Jornal do Médico® — A senhora participa ativamente de grupos de mulheres médicas negras. Qual a importância dessa rede de apoio no combate ao racismo estrutural?
Dra. Emília Bento — É fundamental para a saúde mental, pois é um lugar onde as pessoas entendem questões que nos agridem, mesmo que outras pessoas não achem que estão agredindo, pois passamos pelas mesmas situações. Atuamos na rede de fortalecimento profissional e na educação sobre determinantes sociais de saúde. Estudamos que o câncer de mama tem um pior prognóstico em mulheres negras, não por ser mais agressivo, mas pelo diagnóstico tardio por dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
Jornal do Médico® — Ocupar cargos de chefia aos 37 anos trouxe aprendizados valiosos. Como a senhora lidou com as resistências a essa autoridade feminina?
Dra. Emília Bento — Aprendi que o que não é uma benção é uma lição. Foi um período difícil, isso me fez ser resiliente e entender que precisamos ter e ser RESISTÊNCIA.
Jornal do Médico® — Que mensagem a senhora deixa para a jovem estudante de medicina, negra e periférica, que duvida do seu potencial?
Dra. Emília Bento — O nosso lugar é onde a gente quer estar. Não vai ser fácil; eu fui a primeira da minha família a ter nível superior. A mensagem é: não duvide da sua capacidade. Acredite no seu potencial e se cerque de pessoas que possam te ajudar. O poder passa por dedicação, foco e persistência. A minha trajetória é sobre abrir caminhos.