CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico
Referência na nefrologia pediátrica fluminense, a Dra. Fátima Bandeira transformou o cuidado de crianças e jovens renais crônicos no Rio de Janeiro. Trazendo na bagagem suas raízes cearenses e um olhar inovador, ela ajudou a fundar a primeira clínica satélite de hemodiálise do país. No especial Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde, a médica detalha essa jornada de pioneirismo, ética e profundo compromisso social.
Jornal do Médico® — Dra. Fátima, sua jornada na medicina começou na Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1974, mas foi no Rio de Janeiro que a senhora construiu seu imenso legado na nefrologia. Como foi essa transição e de que forma as suas raízes cearenses influenciaram a sua visão de cuidado e resiliência na medicina fluminense?
Ingressei no Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal do Ceará em 1969, em um período politicamente conturbado do país, e me formei em 1974. Ainda durante a graduação, participei de programas de extensão em saúde em áreas rurais nos municípios vizinhos a Fortaleza, como Pacatuba, com foco na assistência materno-infantil. Também atuei no CRUTAC, desenvolvendo ações voltadas às populações rurais mais desfavorecidas. Essas experiências foram determinantes para consolidar meu compromisso com uma medicina socialmente responsável.
Jornal do Médico® — E como se deu a sua chegada ao Rio de Janeiro e o encontro com os profissionais que marcariam a sua formação na especialidade?
Inserida no espírito empreendedor desse grupo e inspirada por sua extraordinária visão de futuro, acompanhei e ajudei a construir uma instituição que marcou a história da nefrologia carioca: a Clínica de Doenças Renais (CDR).
Jornal do Médico® — Esse espírito coletivo também se refletiu em lutas importantes pelo acesso à saúde na época, não é mesmo?
Lutamos para garantir o acesso amplo e não discriminatório dos pacientes renais crônicos aos tratamentos de diálise e transplante, além de viabilizar que esses tratamentos pudessem ser realizados fora do ambiente hospitalar. Foi um período de intensa mobilização, aprendizado e construção coletiva — e tenho orgulho de ter participado desse movimento transformador.
“Lutamos para garantir o acesso amplo e não discriminatório dos pacientes renais crônicos aos tratamentos de diálise e transplante fora do ambiente hospitalar. Foi um período de intensa mobilização e construção coletiva.”
Jornal do Médico® — A senhora foi pioneira na nefrologia pediátrica no Rio de Janeiro. O que a motivou a desbravar essa subespecialidade em uma época em que ela ainda estava dando os seus primeiros passos no estado?
A maioria dessas crianças era acompanhada por nefrologistas de adultos, e praticamente não havia no mercado brasileiro equipamentos e insumos adequados às especificidades neonatais e pediátricas. Em 1976, na Clínica de Doenças Renais (CDR), iniciamos a hemodiálise dos primeiros pacientes pediátricos — um passo pioneiro e desafiador para a época.
Jornal do Médico® — Diante dessa carência de recursos específicos, como a senhora buscou o aprimoramento necessário para lidar com os pacientes infantis?
O que nos movia era algo muito simples — e ao mesmo tempo muito potente: a vontade de oferecer a essas crianças acesso ao melhor tratamento possível. Em 1985, abdiquei de parte do convívio com meu marido e com minha filha, ainda bebê, para aprimorar meus conhecimentos em Boston. Foi um período de intenso aprendizado e crescimento profissional, mas também de renúncia pessoal.
Jornal do Médico® — Ajudar a fundar a primeira clínica satélite de hemodiálise do Brasil é um marco histórico não apenas para o Rio, mas para a saúde nacional. Quais foram os maiores desafios logísticos e científicos para tirar esse projeto do papel e descentralizar o atendimento renal na época?
À semelhança do que já acontecia em centros internacionais, surgiu a proposta de estruturar casas que pudessem oferecer a assistência ao tratamento dialítico fora do ambiente hospitalar. Foi assim que, em Botafogo, nasceu a primeira unidade “satélite”. Marcos Hoette e Frederico Ruzany trouxeram a experiência americana bem-sucedida e ajudaram a adaptá-la à realidade brasileira.
Jornal do Médico® — Como foi estruturar a rotina de acolhimento nessa nova unidade, garantindo que o olhar humanizado não se perdesse na complexidade do tratamento?
Nosso foco era único e muito claro: transformar sofrimento em esperança, desespero em resiliência. E as minhas crianças… estavam lá. No segundo andar, em uma sala especial, com teto colorido. Um espaço pensado para que, mesmo com a complexidade do tratamento, ainda houvesse lugar para a infância.
“Nosso foco era único e muito claro: transformar sofrimento em esperança, desespero em resiliência, sempre buscando melhorar a qualidade de vida dessas pessoas.”
Jornal do Médico® — Como Diretora da Fundação do Rim – Rio, a senhora tem um olhar privilegiado sobre o acolhimento aos pacientes. Qual é hoje o maior gargalo na assistência nefrológica e como a Fundação tem atuado para transformar essa realidade?
Ao longo dos anos, diversos projetos foram implementados, incluindo sessões de fisioterapia, atendimento psicoterápico, realização de exames pré-transplante renal e o fornecimento mensal de benefícios como cestas básicas, leite e suplementos nutricionais.
Jornal do Médico® — Mesmo com essas iniciativas estruturadas, as distâncias geográficas e as lacunas no acompanhamento precoce ainda são entraves severos para as famílias fluminenses?
Outro gargalo importante é a ausência de políticas públicas estruturadas e de assistência centralizada para pacientes com malformações do trato urinário, a principal causa de doença renal crônica na infância. Essa falha no seguimento pós-natal contribui para o aumento da incidência de doença renal crônica e até mesmo de diálise no primeiro ano de vida.







