Dra. Carolina Mello: Liderança e protagonismo feminino na Anestesiologia

Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

“Liderar não significa ocupar um cargo, mas assumir um compromisso com o coletivo”. Com essa visão humanizada e técnica, a Dra. Carolina Mello, presidente da SAERJ, conduz sua carreira e agora a sociedade de especialidade do Rio de Janeiro. Referência na anestesiologia e na gestão hospitalar, ela é uma das vozes centrais do Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde. Nesta conversa exclusiva, Carolina relembra o início precoce na liderança — assumindo uma chefia aos 25 anos —, analisa o crescimento da presença feminina em espaços estratégicos e oferece conselhos valiosos para as médicas que buscam transformar a medicina através da competência.

Jornal do Médico® — Dra. Carolina, o que a levou a escolher a anestesiologia como profissão? Houve algum momento específico na sua graduação em que percebeu que essa seria a sua missão?

Dra. Carolina — Curiosamente, minha escolha pela anestesiologia aconteceu apenas no momento da inscrição para a prova de residência médica. Até então, eu pensava em seguir pneumologia ou terapia intensiva. Durante a graduação, alguns colegas me incentivaram a considerar a anestesiologia e observaram que eu tinha perfil para a especialidade. Quando passei a conhecer melhor a área, percebi que ela reunia características que me atraíam muito: raciocínio clínico rápido, tomada de decisão em tempo real e uma atuação essencial na segurança do paciente durante o período perioperatório. Além disso, a anestesiologia é uma especialidade extremamente diversa, que permite atuar em diferentes cenários da medicina. Essa amplitude de possibilidades foi decisiva para mim naquele momento da minha formação.

“Percebi que a área reunia características que me atraíam muito: raciocínio clínico rápido, tomada de decisão em tempo real e uma atuação essencial na segurança do paciente.”

Jornal do Médico® — A senhora chefia o Serviço de Anestesiologia de um hospital de grande importância (UNIRIO/Gaffrée e Guinle). Em que momento sentiu que sua contribuição precisava ir além da assistência e entrar no campo da gestão e da chefia?

Dra. Carolina — Minha trajetória na gestão começou muito cedo. Iniciei minha carreira na UNIRIO/Hospital Universitário Gaffrée e Guinle em outubro de 2002, ainda no período final da residência médica… Em março de 2003, o então diretor da instituição me convidou para assumir a chefia do Serviço de Anestesiologia. Eu tinha apenas 25 anos. No primeiro momento recusei o convite, mas ele me pediu que refletisse por 30 dias e afirmou que não aceitaria uma negativa definitiva. Após esse período, retornei e aceitei o desafio. Na época éramos apenas oito anestesiologistas no hospital, além de alguns contratos temporários. Foi ali que começou minha trajetória na gestão. Junto com o grupo que já atuava no hospital, iniciamos um processo de organização e fortalecimento do serviço. Em 2003 fui aprovada na prova de TSA da SBA e, no ano seguinte, em 2004, iniciamos a Residência Médica em Anestesiologia em parceria com o CET da UNIRIO, consolidando o caráter acadêmico e formador do serviço.
Hospital Universitário Gaffrée e Guinle
Fachada principal do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. Fonte: Rubim, 2017.

Jornal do Médico® — Assumir a presidência da SAERJ (biênio 2025-2026) é um marco na sua trajetória. Qual o peso e o significado de liderar a sociedade de especialidade do Rio de Janeiro neste momento da sua carreira?

Dra. Carolina — Assumir a presidência da SAERJ representa, para mim, uma grande honra e também uma enorme responsabilidade. Ao longo da minha trajetória profissional sempre estive muito ligada ao ensino, à formação de novos anestesiologistas e à organização de serviços dentro do ambiente universitário. Liderar a sociedade de especialidade do nosso estado amplia esse compromisso, pois passa a envolver toda a comunidade anestesiológica do Rio de Janeiro. A SAERJ tem um papel fundamental na promoção da educação continuada, no fortalecimento institucional da especialidade e na defesa das condições adequadas para o exercício profissional. Assumir essa função neste momento da minha carreira significa poder contribuir de forma mais ampla para o desenvolvimento da anestesiologia no estado e para a valorização da nossa especialidade.
Dra. Carolina Mello, presidente SAERJ
Dra. Carolina Mello, presidente SAERJ durante o Anest In Rio 2025

Jornal do Médico® — Além da sua liderança na SAERJ, como a senhora avalia o protagonismo feminino na saúde, onde cada vez mais as mulheres vêm ocupando espaços de destaque?

Dra. Carolina — A presença feminina em posições de liderança na saúde tem crescido de forma consistente e representa uma transformação importante na medicina. Cada vez mais vemos mulheres ocupando espaços estratégicos na assistência, na gestão, no ensino e na pesquisa. Esse movimento é extremamente positivo porque amplia perspectivas, promove diversidade de ideias e fortalece as instituições. Ainda existem desafios, mas acredito que estamos avançando em direção a um ambiente mais equilibrado, onde competência, dedicação e capacidade de liderança são os fatores que realmente definem quem ocupa esses espaços.
Dra. Carolina Mello e Dra. Andrea Cristina
Dra. Carolina Mello, presidente SAERJ e Dra. Andrea Cristina, primeira mulher e atual presidente Coopanest Rio

Jornal do Médico® — O projeto Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde valoriza trajetórias como a sua. Que conselho a senhora daria para as médicas que aspiram a cargos de liderança?

Dra. Carolina — Meu principal conselho é que construam uma trajetória sólida baseada em conhecimento, ética e consistência profissional. A liderança não surge de forma imediata; ela é resultado de credibilidade construída ao longo do tempo, por meio do trabalho, da responsabilidade e da capacidade de contribuir para além das próprias funções. Também é fundamental compreender que liderar não significa ocupar um cargo, mas assumir um compromisso com o coletivo. Bons líderes são aqueles que conseguem ouvir, agregar pessoas e criar ambientes onde todos possam crescer profissionalmente.

“Liderar não significa ocupar um cargo, mas assumir um compromisso com o coletivo. Bons líderes conseguem ouvir, agregar pessoas e criar ambientes onde todos cresçam.”

Para as mulheres, em especial, é importante não se sentirem limitadas por expectativas ou modelos tradicionais de liderança. Cada vez mais vemos médicas ocupando espaços de decisão na assistência, na gestão e nas entidades de classe, e isso fortalece toda a medicina. Acredito que quando conhecimento técnico, propósito e senso de responsabilidade caminham juntos, a liderança acontece de forma natural — e passa a ser uma ferramenta poderosa para transformar instituições e melhorar o cuidado com os pacientes.
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