Reportagem: Irma Lasmar, jornalista MTB/RJ 26110
Coordenação: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro Honorário SOBRAMES-CE |
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Na segunda parte desta conversa exclusiva ao Portal Jornal do Médico®, a Dra. Andressa Guimarães aborda os desafios da visão no século XXI. Da prevenção da miopia infantil em um mundo dominado por telas aos cuidados essenciais para a saúde mental dos idosos, a especialista revela como pequenos hábitos e a humanização no atendimento médico podem transformar vidas.
Jornal do Médico® Rio: Você lançou no ano passado um guia prático de pré e pós-operatório em cirurgias refrativas. Me descreva a importância desses cuidados para um melhor resultado em procedimentos dos olhos.
Dra. Andressa Guimarães: Recebo pacientes muitas vezes cheios de dúvidas e de medo, então dou o livreto, que é bem sucinto, apenas 20 páginas, bem ilustrado, mostrando o que esperar da cirurgia, e também os motivos para a escolha da técnica cirúrgica, se PRK ou Lasik. São abordagens diferentes para casos específicos. Importante que o paciente saiba que não há uma “receita de bolo” única, e que cada pessoa é tratada individualmente, com suas especificidades, e por isso merece atenção especial.
Jornal do Médico® Rio: E como esse guia auxilia o paciente no dia a dia do pós-cirúrgico?
Dra. Andressa Guimarães: O guia explica bem o que o paciente deve esperar do pós-cirúrgico imediato; o que a enfermeira costuma fazer, como por exemplo ministrar um medicamento ansiolítico e orientar sobre como lavar o rosto. Enfim, tudo o que o paciente espera daquelas luzes todas que ele vê no momento do laser. E para o pós-operatório não imediato, com o paciente já em casa, o livreto antecipa o que é normal acontecer, como ardência e uso de colírios, e detalha basicamente tudo o mais que é necessário saber: se pode assistir à TV ou lavar o rosto e os cabelos, entre outras orientações. Chamamos isso de chair time, o “tempo de cadeira”, que é o tempo em que o médico dedica à conversa com o paciente antes da cirurgia, detalhando o que vai acontecer e transmitindo tranquilidade sobre a segurança do ato cirúrgico e tudo o que o envolve.
“Chamamos de ‘chair time’ o tempo que o médico dedica à conversa com o paciente antes da cirurgia, transmitindo a tranquilidade necessária sobre a segurança do ato cirúrgico.”
Jornal do Médico® Rio: A presbiopia, a famosa “vista cansada”, é um prenúncio da necessidade de uso de óculos ou pode ser contornada?
Dra. Andressa Guimarães: A presbiopia é um prenúncio do avançar da idade. A partir dos 45 anos, e especialmente acima dos 50, todos nós indistintamente teremos cansaço visual para perto. O envelhecimento enrijece o nosso cristalino, que é a nossa “lente natural”, cuja musculatura é responsável pelo foco para perto – como o zoom da máquina fotográfica.
Jornal do Médico® Rio: E quais são as soluções modernas para a presbiopia hoje?
Dra. Andressa Guimarães: Usamos óculos ou lentes de contato, ou ambos intercalados. Para isso existem as lentes multifocais e também as cirurgias. O laser é muito utilizado, especialmente para pacientes entre 40 e 48 anos. Em alguns casos, após os 55 anos de idade, utilizamos a lente intraocular, que é semelhante à cirurgia de catarata. É quando trocamos o cristalino, mesmo transparente, por uma lente artificial multifocal ou trifocal, que devolve a visão de longe, meio e perto.
Jornal do Médico® Rio: Qual a tendência de danos em médio e longo prazo para a superexposição da visão às telas?
Dra. Andressa Guimarães: Crianças e jovens em idade escolar estão cada vez mais utilizando telas. Há uma estatística de que até o ano de 2025 metade da população mundial será míope por isso. Desta forma, alertamos para a necessidade do descanso. Oftalmologistas do mundo todo orientam pelo menos duas horas de luz natural por dia, porque a exposição à tela em um ambiente de baixa luminosidade ou escuro pode aumentar a miopia ou gerar um grau de miopia que o paciente nem tinha.
Jornal do Médico® Rio: Como funciona a “Regra 20-20-20” de descanso da vista?
Dra. Andressa Guimarães: Essa regra veio da Academia Americana de Medicina como uma regrinha de pausas: a cada 20 minutos ao computador ou ao celular, deve-se descansar a vista por 20 segundos olhando para uma distância de seis metros ou 20 pés na medida americana. Ou seja, para 20 minutos de tela, descansar 20 segundos mirando a 20 pés de distância. Hoje indicamos bastante o filtro azul nas lentes dos óculos para evitar que a luz nociva azul chegue à nossa retina, prevenindo a degeneração da mácula.
Jornal do Médico® Rio: Dra. Andressa, como podemos perceber em crianças a necessidade do uso dos óculos?
Dra. Andressa Guimarães: Crianças podem manifestar a dificuldade de visão de formas diferentes, mas existe um padrão: quando a criança começa a se aproximar muito da TV ou dos objetos que ela quer enxergar. Ela aperta os olhinhos em esforço para enxergar. Quando é bem pequena, por volta dos quatro aninhos, acaba sendo muito agitada, mas depois dos óculos se acalma. Na realidade, a agitação não advinha de nenhum transtorno de hiperatividade, e sim porque não enxergava bem. O exame para detectar problemas de visão deve ocorrer após o nascimento e anualmente a partir da fase pré-alfabetizatória.
“Muitas vezes, a agitação infantil não advém de hiperatividade, e sim do fato de a criança não enxergar bem. O acompanhamento deve ser anual.”
Jornal do Médico® Rio: E para as crianças que ainda não têm idade para operar, mas já possuem alto grau de miopia?
Dra. Andressa Guimarães: A cirurgia só pode ser feita depois dos 18 anos e se o grau estiver estável. Antes disso, na infância e adolescência, existem óculos para o controle da miopia. São lentes que focam na retina de um jeito diferente das usuais, garantindo que o aumento do comprimento do olho não seja absurdo. O controle é tão bom que os próprios fabricantes garantem dar outra lente ao paciente que tenha um aumento de mais de meio grau de um ano para outro. E agora já dispomos dela também como lente de contato.
Jornal do Médico® Rio: Existe uma relação entre a saúde ocular do idoso, a catarata e casos de demência?
Dra. Andressa Guimarães: Existem estudos que evidenciam isso. A catarata avançada, muitas vezes associada à surdez, faz com que o idoso se isole socialmente. Ele não obtém as informações externas com qualidade por meio de TV, celular ou leitura. Hoje em dia, os exercícios que os geriatras passam para os pacientes idosos realizarem, como palavras cruzadas, visam melhorar a memória, mas e se eles não estiverem enxergando, como vão interagir com o mundo? Então, operar catarata pode devolver a qualidade de vida por mais tempo e retardar processos de demência.
Jornal do Médico® Rio: Dra. Andressa, para finalizarmos, como você descobriu sua vocação e como descreve seu amor pela profissão?
Dra. Andressa Guimarães: Minha vocação não foi descoberta de uma hora para outra; foi uma crescente: gostar primeiro de medicina, depois de cirurgia, de idosos e de tecnologia. E a oftalmologia une todos esses aspectos. Eu acredito que meu amor pela profissão é o amor ao ser humano em primeiro lugar. Eu gosto de gente. Quando interagimos com pessoas, temos a oportunidade de transmitir positividade e tornar melhor o dia do outro. Para cada um, adotamos uma postura diferente: um pouco psicólogo, um pouco mãe, um pouco filha… Trazer de volta a capacidade de visão de um paciente e ver seu semblante mudar positivamente é o que me motiva.
“A oftalmologia une medicina, tecnologia e humanização. Trazer de volta a visão e ver o semblante de um paciente mudar positivamente é o que me motiva todos os dias.”