O Cérebro Apaixonado

Quando a ciência encontra o Amor

Durante séculos, emoções e sentimentos foram negligenciados pelas ciências experimentais. O amor, especialmente o amor romântico, era visto como algo abstrato demais para ser estudado em laboratórios. Pertencia à poesia, à filosofia e à arte. No entanto, nas últimas décadas, a neurociência começou a investigar aquilo que milhões de pessoas experimentam diariamente: a profunda transformação emocional causada pelo amor.

O amor romântico pode ser definido como um processo biopsicossocial de apego, responsável pela formação de vínculos afetivos intensos entre adultos, semelhante ao vínculo criado entre bebês e seus pais nos primeiros anos de vida, segundo Hazan e Shaver (1987). Amar, portanto, não significa apenas desejar alguém; significa criar uma sensação de segurança emocional, pertencimento e conexão profunda.

Quando uma pessoa se apaixona, o cérebro passa por mudanças intensas. Estruturas do sistema límbico, responsáveis pelas emoções, prazer e recompensa, tornam-se altamente ativadas. Há aumento na liberação de monoaminas, como dopamina e noradrenalina, substâncias ligadas à sensação de felicidade, energia e motivação. Ao mesmo tempo, ocorre redução nos níveis de serotonina, fenômeno associado aos pensamentos obsessivos tão comuns no início das paixões.

Talvez seja por isso que o amor tenha um impacto tão avassalador sobre a vida humana.
Quem ama pensa constantemente na pessoa amada. Um simples olhar pode acelerar os batimentos cardíacos. Uma mensagem pode transformar completamente o humor do dia. Da mesma forma, a ausência, a rejeição ou o abandono provocam sofrimento profundo. Estudos mostram que a dor emocional causada pelo fim de um relacionamento ativa áreas cerebrais semelhantes às relacionadas à dor física. Ou seja, um coração partido não é apenas uma metáfora: ele realmente machuca o cérebro e o corpo.

Ainda assim, o amor permanece como uma das experiências mais gratificantes da existência humana. Segundo Marazziti et al. (2021), ele representa uma necessidade fundamental do ser humano. Mais do que companhia, buscamos conexão emocional verdadeira. Precisamos nos sentir vistos, acolhidos e compreendidos.
Do ponto de vista evolutivo, o amor também possui função essencial para a sobrevivência da espécie. Pesquisas de Zeki et al. (2007) indicam que os vínculos afetivos favoreceram a formação de famílias e o cuidado com os filhos, aumentando as chances de sobrevivência humana ao longo da evolução.

No entanto, apesar de todos os avanços científicos, o amor continua carregando algo impossível de ser totalmente explicado. A neurociência consegue identificar hormônios, neurotransmissores e circuitos neurais envolvidos na paixão, mas ainda não consegue traduzir completamente o significado emocional de um abraço sincero, da saudade ou da sensação de encontrar alguém que transforma nossa vida.
Talvez essa seja a maior descoberta da ciência moderna: o amor não é apenas emoção. O amor é parte essencial da experiência humana.

Rossana Kopf – Psicanalista

Imagem Freepik

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