Artigo publicado na Nature em 04/05/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que o grupo de vírus de roedores pode causar doenças em humanos, mas os casos são raros.
Pesquisadores de doenças infecciosas estão ansiosos para saber mais, sobre um possível surto de hantavírus em um navio de cruzeiro no Oceano Atlântico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou, que dois passageiros testaram positivo para uma variante do hantavírus, uma família de vírus transmitida por roedores, mas que também pode infectar humanos. Entre os infectados, está uma pessoa que morreu a bordo do MV Hondius, e outro passageiro, que foi evacuado para um hospital na África do Sul.
A OMS também informou que outros cinco casos são suspeitos, incluindo os dois passageiros que morreram a bordo, dois tripulantes com sintomas respiratórios e outra pessoa. Os dois tripulantes serão evacuados por motivos médicos, segundo a operadora do navio, a empresa holandesa Oceanwide Expeditions. O MV Hondius está atualmente ancorado na costa de Cabo Verde.
A OMS afirma, que as infecções por hantavírus em humanos são raras. Elas geralmente causam febre e sintomas semelhantes aos da gripe, mas podem levar a doenças graves e à morte.
Vaithi Arumugaswami, pesquisador de doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, afirma que os hantavírus não representam um risco de pandemia, mas o incidente serve de alerta para que os vírus sejam monitorados, e para que mais pesquisas sejam necessárias para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos.
O que são hantavírus?
Existem dois grupos principais de hantavírus. O hantavírus do Velho Mundo é encontrado na África, Ásia e Europa, e causa febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR). O hantavírus do Novo Mundo foi encontrado nas Américas, e causa a síndrome pulmonar por hantavírus (SPH).
Arumugaswami acredita que os passageiros do navio, provavelmente foram infectados por uma cepa do subgrupo do Novo Mundo, chamada vírus dos Andes, que foi identificada pela primeira vez no Chile e na Argentina em 1995. Esse vírus é preocupante porque pode se espalhar entre pessoas, diz ele.
O MV Hondius iniciou sua viagem na Argentina, que enfrenta um surto contínuo do vírus dos Andes, desde o ano passado. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas pelo menos 20 mortes pelo vírus no país. O número de casos foi semelhante ao de anos anteriores, mas pesquisadores afirmam, que houve um aumento na taxa de mortalidade.
Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, 34% das pessoas infectadas pelo vírus morreram, em comparação com as médias nacionais históricas de 10 a 32% em cada ano entre 2019 e 2024, segundo o Ministério da Saúde da Argentina.
Como os hantavírus se espalham?
Os humanos geralmente contraem o vírus ao inalar gotículas aerossolizadas de fezes, urina ou saliva, de roedores contaminadas. A transmissão de pessoa para pessoa é possível, mas rara.
Qualquer surto no navio, provavelmente resultou do contato com material de um roedor infectado, e não da transmissão entre pessoas, afirma Rhys Parry, virologista molecular da Universidade de Queensland, em Brisbane, Austrália. Várias pessoas podem ter sido expostas através da mesma área contaminada, acrescenta ele.
Mais casos podem surgir nos próximos dias ou semanas, diz Parry, porque os sintomas geralmente começam entre uma semana e um mês após a exposição. Isso significa que passageiros ou tripulantes podem ter contraído a doença antes do embarque, durante viagens marítimas ou a bordo.
Arumugaswami afirma que o navio partiu de Ushuaia, no sul da Argentina, que fica a mais de 1.500 quilômetros, das áreas onde se sabe que o vírus está circulando. Isso também pode significar que os passageiros infectados contraíram a doença durante viagens pela Argentina antes do embarque, ou que o vírus está circulando sem ser detectado nas regiões mais ao sul do país, acrescenta ele.
Para identificar a fonte da infecção, as autoridades de saúde provavelmente coletarão amostras das pessoas a bordo infectadas, e sequenciarão as partículas virais detectadas, afirma Bryce Warner, virologista que estuda hantavírus na Universidade de Saskatchewan, em Saskatoon, Canadá. O sequenciamento poderá identificar a cepa presente no navio em poucos dias, diz Warner.
Existem vacinas ou tratamentos?
Não há tratamento específico para infecções por hantavírus, afirma Peng Bi, pesquisador de doenças infecciosas da Universidade de Adelaide, na Austrália. Em vez disso, os médicos tentam controlar os sintomas dos pacientes, explica ele.
Uma vacina contra o hantavírus causador da HFRS, está disponível na China e na Coreia do Sul, diz Bi, mas essas vacinas não são eficazes contra as cepas que causam a HPS.
A baixa prevalência da síndrome pulmonar por hantavírus (SPH), tem dificultado a identificação de um número suficiente de pessoas com a doença, para testar potenciais vacinas e tratamentos em ensaios clínicos, afirma Warner. A pesquisa sobre os vírus também é considerada de alto risco, e poucos laboratórios possuem as medidas de biossegurança adequadas para estudá-los com segurança.
Artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01450-7

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