Era um domingo de setembro em Fortaleza, daqueles de fim de tarde morno na Aldeota. Isabelle Caracristi tinha 22 anos, estudava Direito e tinha passado parte do dia com a mãe. As câmeras do condomínio a mostram chegando com uma mala, encontrando o namorado e subindo com ele. Pouco depois, ele desce sozinho e vai embora. Ela fica. No começo da noite, manda uma mensagem para a mãe que hoje todos nós conhecemos: “Mãe, eu te amo”. Depois entra no elevador e aperta o último andar, onde fica a cobertura. Lá em cima não havia câmera. Lá em cima ela ficou sozinha com o que ninguém mais viu.
Por volta das 20h40, um morador ligou para a polícia dizendo que alguém tinha se jogado do prédio. Quem ouviu descreveu o barulho como o de uma batida de carro. A viatura chegou em minutos, mas a perícia só pôde ser acionada mais de uma hora depois, porque naquela noite não havia perito nem rabecão disponíveis na cidade. Enquanto o pátio esperava, o namorado voltou ao condomínio e encontrou o prédio cercado. Vizinhos reconheceram a jovem. Já passava da meia-noite quando o corpo de Isabelle seguiu para a Pefoce. A mãe só soube no dia seguinte, quando foi procurá-la.
E então a cidade inteira passou a opinar. Era impossível não opinar. Uma menina tão jovem, um namorado que sumiu, um apartamento supostamente limpo às pressas, um imóvel posto à venda. Nos grupos de família, nos bares, nas redes, a hipótese de que ela tivesse sido empurrada ganhou corpo com a força das coisas que parecem fazer sentido. Confesso que entendo quem pensou assim. A dor pede um culpado com rosto.
Não encontraram lesão de defesa, marca de esganadura, sinal de luta. O toxicológico veio limpo. Não havia gravidez. Setecentos arquivos de vídeo foram revisados, um a um, e estavam íntegros. E a física da queda, uma trajetória quase vertical, de cerca de três segundos, disse o que nenhuma versão disse: ninguém a lançou. Isabelle se precipitou.
Quando o perito-geral anunciou a conclusão, não houve triunfo na voz dele. Não há triunfo nesse ofício. Há o alívio discreto de quem entregou à sociedade uma resposta que ela podia confiar, porque não nasceu do achismo. As imagens e os depoimentos vieram depois e só confirmaram o que a ciência já havia escrito.
Sei que sobra uma pergunta, a mais difícil: por quê? Essa não é da perícia. Essa é do inquérito, que investiga se alguém a empurrou de outro jeito, com palavras, com controle, com medo. Cada um no seu tempo. A causa da morte está esclarecida. O luto da mãe de Isabelle, não. Mas pelo menos ninguém mais vai dizer a ela que não se sabe o que aconteceu com sua filha.
Sobre o Autor
Dr. Anísio Pinheiro é presidente da seccional Ceará da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas – gestão 2024/2027. CRM/CE 13.150 | RQE 7090 (Medicina Legal e Perícia Médica).







