Na medicina legal repetimos uma frase antiga: os mortos ensinam os vivos. É com a morte que a perícia aprende. Nesta quinta-feira, 1º de outubro, foi diferente. Lito Sousa morreu em casa, em São Paulo, aos 59 anos, e quem saiu perdendo fomos nós.
Joselito Geraldo de Sousa nasceu em Natal, em 1967, e passou mais de 36 anos na aviação, boa parte deles no hangar, como mecânico de aeronaves. Em 2010 criou o Aviões e Músicas. Escreveu um livro, criou um curso para quem tem medo de voar. Não tinha jaleco nem toga, mas fez pela cultura pericial deste país mais do que muitos de nós, peritos, conseguimos.
Lembro de agosto de 2024, quando um ATR caiu em Vinhedo. Em poucas horas o país já tinha um culpado: o gelo, o piloto, a empresa. Lito foi na contramão. Disse que não especulava sobre causa, que isso cabia ao Cenipa, e que avião não cai por um motivo só: todo acidente é uma cadeia de eventos. Foi assim com os Mamonas, com o Gol 1907, com o Air France 447, com a Chapecoense, com Marília Mendonça. A cada tragédia, milhões iam ouvi-lo. E ele respondia sempre o mesmo: espere o relatório.
“Lito levou a câmera para dentro do Cenipa, sentou-se com os peritos e mostrou como se lê uma caixa-preta, e como se reconta a história de um voo mesmo quando ela não existe. Ensinou que a investigação não procura um culpado com rosto. Procura a verdade, para que ela não se repita.”
Isso é perícia. É o que fazemos na sala de necropsia, onde o corpo é a nossa caixa-preta. Na aviação, cada relatório existe para que o próximo voo seja mais seguro; na medicina legal, cada laudo existe para que a próxima família tenha resposta. A diferença é que ele sabia explicar. Formou um público capaz de conviver com o “ainda não sabemos”, e é desse público que a perícia precisa para trabalhar em paz. Em 2021, o próprio Cenipa o homenageou por promover a cultura de segurança de voo.
Depois veio a vez dele. Uma dormência no braço esquerdo, durante uma viagem. Semanas de investigação. Em 21 de agosto, a família anunciou o diagnóstico: doença de Creutzfeldt-Jakob, rara, rápida, sem cura. Em 4 de setembro, a Anvisa autorizou, em caráter excepcional, um medicamento que nunca havia sido usado em gente. Lito foi o primeiro ser humano a recebê-lo. Quarenta dias depois do anúncio, partiu.
E nesses quarenta dias as redes fizeram com ele o que ele nunca fez com ninguém: especularam. Noticiaram melhora que não houve, julgaram um remédio por um único paciente. A lição dele vale aqui também. Nessa doença, o diagnóstico em vida é de probabilidade, e a certeza só vem do exame do tecido. Um caso não absolve nem condena um tratamento. Cadeia de eventos, não causa única.
Por isso o título. A morte costuma entregar respostas à perícia. A de Lito nos tirou o melhor tradutor que o método já teve no Brasil. Fica a esposa, fica um menino de sete anos, e fica uma dívida nossa: continuar dizendo, com a calma dele, que a verdade tem o seu tempo. Bom voo, Lito.
Sobre o Autor
Dr. Anísio Pinheiro é presidente da seccional Ceará da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas – gestão 2024/2027. CRM/CE 13.150 | RQE 7090 (Medicina Legal e Perícia Médica).







