A temporada de gripe pode começar “incrivelmente” cedo… o que os cientistas estão observando

Artigo publicado na Nature em 02/10/2026, onde pesquisadores americanos e britânicos afirmam que casos no Hemisfério Norte estão surgindo com semanas de antecedência, e são predominantemente causados ​​por um vírus com uma mutação preocupante.

Dados indicam, que a temporada de gripe no Hemisfério Norte, pode estar começando mais cedo, o que leva a uma reavaliação, de quando as pessoas devem tomar suas vacinas anuais contra o vírus influenza. A porcentagem de testes positivos para influenza, está incomumente alta para esta época do ano em locais como o Reino Unido e a Costa Oeste dos Estados Unidos. No Japão, surtos ocorridos em agosto e no início de setembro, forçaram o fechamento de algumas escolas, justamente quando elas estavam retomando as atividades após as férias de verão.

“Seria uma temporada extremamente precoce” para os Estados Unidos, se os casos observados por pesquisadores na Costa Oeste, continuassem a aumentar no ritmo atual, afirma Scott Hensley, virologista da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia.

O subtipo de influenza, responsável pela maioria dos casos nos EUA até o momento, é o H1N1, uma inversão em relação ao ano passado, quando o H3N2 predominou. Além disso, dados de sequenciamento desses casos iniciais, apontam para uma mutação emergente no H1N1, que vem causando preocupação entre os especialistas.

Essas conclusões, baseiam-se em um número relativamente pequeno de testes positivos, em comparação com os disponíveis durante o pico da temporada de gripe; portanto, é cedo demais para prever a trajetória geral do surto, afirmam os pesquisadores. “Um início precoce, não significa necessariamente uma temporada mais grave”, diz James Hay, epidemiologista da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Ainda assim, “há algo acontecendo”, escreveu a epidemiologista Caitlin Rivers, em 27 de setembro.

Isso é suficiente para fazer com que Rivers, pesquisadora da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Estados Unidos, reconsidere sua estratégia de proteção pessoal. Em um ano típico, quando a temporada de gripe atinge o pico em dezembro e janeiro nos Estados Unidos, ela esperaria até meados ou o final de outubro para tomar a vacina, visando obter a melhor proteção. Agora, ela está pensando em se vacinar o mais rápido possível.

Uma mutação emergente

A gripe sazonal, é geralmente causada por uma combinação de três vírus: dois subtipos de influenza A, H3N2 e H1N1, e o influenza B. Como os vírus influenza sofrem mutações genéticas ao longo do tempo, e a imunidade das pessoas muda conforme elas recebem vacinas e contraem infecções, o vírus dominante entre os três, varia a cada temporada de gripe. Dados dos EUA mostraram que, na semana encerrada em 26 de setembro, o H1N1 foi responsável por 96% dos casos positivos, nos quais foi realizada a subtipagem. O H3N2 representou quase 4% dos casos, e o influenza B não foi detectado.

Isso contrasta com o ano passado, quando surgiu uma nova variante do H3N2, chamada subclado K. Ela se tornou dominante globalmente, por apresentar muitas mutações que tornavam as pessoas mais vulneráveis ​​a ela.

Neste ano, a mutação do H1N1, que preocupa os pesquisadores, é a G155E. Alex Greninger, virologista da Universidade de Washington, em Seattle, afirma que seu laboratório detectou a G155E em 13 de 17 amostras de H1N1, coletadas de pessoas cujas sequências genéticas estavam completas o suficiente para identificar mutações específicas. As amostras eram provenientes de hospitais e clínicas de Seattle, e foram coletadas ao longo dos últimos meses.

Essa mutação, já havia sido identificada em uma análise liderada por Jesse Bloom, virologista do Fred Hutchinson Cancer Center, em Seattle; o estudo foi publicado no mês passado no servidor de preprints bioRxiv, antes de passar pela revisão por pares.

Bloom e seus colegas, avaliaram a capacidade de anticorpos presentes em amostras de sangue de 260 pessoas, da Austrália e dos Estados Unidos, de reconhecer e bloquear a infecção por 148 cepas do vírus influenza A, que circulavam até meados de 2026. “Observamos que várias cepas portadoras da mutação G155E são, em alguns casos, menos reconhecidas pelos anticorpos humanos preexistentes”, afirma Bloom.

Os anticorpos no soro de adolescentes e jovens adultos, mostraram-se particularmente pouco eficazes no reconhecimento dessa variante, provavelmente porque muitos indivíduos desses grupos, não haviam sido expostos anteriormente a vírus H1N1 com características semelhantes.

Segundo Bloom, a análise, somada aos dados preliminares de sequenciamento obtidos no laboratório de Greninger, sugere a possibilidade de uma temporada de H1N1 relativamente severa, com cepas capazes de escapar da imunidade de algumas pessoas.

Recomendação sobre a vacina

As vacinas contra a gripe são ajustadas anualmente, para levar em conta mutações genéticas, e proteger contra os vírus com maior probabilidade de circulação, durante aquela temporada de gripe. No entanto, as decisões sobre quais cepas servirão de base para as vacinas, são tomadas meses antes do início da temporada, e os vírus continuam a sofrer mutações. Isso significa que, quando as vacinas são administradas, nem sempre correspondem às cepas em circulação. Na temporada passada, por exemplo, a vacina contra a gripe não contemplou a variante subclado K do H3N2, que surgiu em meados de 2025, pelo menos três meses após a definição da formulação da vacina para o Hemisfério Norte.

Neste ano, tanto o componente H3N2 quanto o componente influenza B da vacina, parecem estar bem ajustados às cepas que circulam atualmente, afirma Hensley. Quanto ao H1N1, se as cepas que apresentam a mutação G155E predominarem na temporada, a vacina pode não oferecer uma correspondência ideal, diz Bloom, embora ressalte, que ainda é cedo para afirmar isso com certeza.

De qualquer forma, é importante que todos se vacinem, pois, mesmo quando a vacina não está perfeitamente alinhada ao vírus circulante, ela ainda pode proporcionar um bom nível de proteção, diz Hensley. Por exemplo, apesar da falta de correspondência ideal na vacina do ano passado, ela ainda reconhecia o vírus H3N2, mantendo certa eficácia.

“Esta é uma daquelas temporadas em que a mensagem principal é: vá se vacinar agora”, diz Greninger.

Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-03150-8

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico

Imagens: Magnific

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