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ARTIGO: Doença nodular da tireoide: um grande mal?

Doença nodular da tireoide é uma condição de elevada prevalência. Estudos populacionais apontam que 6,4% das mulheres e 1,5% dos homens apresentam nódulos identificados durante o exame físico, no entanto, esses números podem ser tão altos quanto 80% quando técnicas de ultrassonografia são utilizadas. É crescente seu achado incidental em imagens adquiridas durante a realização de tomografia computadorizada por emissão de pósitrons (PET-CT). Clinicamente, a doença nodular da tireoide é assintomática na maioria dos indivíduos, sendo um achado durante o exame físico ou em imagens de ultrassonografia. Duas preocupações são relevantes: a possibilidade de nódulos tireoidianos albergarem câncer de tireoide e/ou interferirem na síntese hormonal da glândula. No entanto, a maioria deles é benigna e não geram disfunção hormonal.

Estudos retrospectivos confirmam que 5% a 15% dos nódulos de tireoide são lesões malignas. A prevalência de câncer de tireoide, na maioria dos países industrializados, tem aumentado constantemente. É questionável se este aumento é real ou uma consequência do uso indiscriminado de ultrassonografias e punções que identificam lesões pequenas (microcarcinomas) e comumente indolentes.

Alguns estudos, no entanto, apontam um aumento nas formas mais avançadas de câncer, incluindo lesões maiores que 4 cm, sugerindo que outros fatores, provavelmente ambientais, além da “triagem” ultrassonográfica, possam impactar neste avanço dos casos. O fato é que, independente disto, a taxa de mortalidade atribuível ao câncer de tireoide permanece muito baixa.

Vários fatores de risco para o desenvolvimento de câncer de tireoide foram identificados, incluindo os extremos de faixa etária (crianças e idosos), gênero masculino, história familiar em parentes de primeiro grau, exposição à radiação em cabeça e pescoço e transplante de células tronco.  O tamanho do nódulo parece ser relevante, com o achado de câncer maior em lesões acima de 2 cm quando comparado aos abaixo deste tamanho.

A aspiração por agulha fina, preferencialmente realizada sob a orientação ultrassonográfica, é o método mais sensível e com melhor custo-benefício para avaliar a natureza dos nódulos tireoidianos e a necessidade de cirurgia.

Os carcinomas diferenciados da tireoide (papilífero e folicular) respondem por aproximadamente 90% de todos os cânceres da glândula, e, em geral, têm um bom prognóstico. No entanto, sua  mortalidade aumenta progressivamente com o avanço da idade, com o tamanho do tumor, subtipo histológico e presença de metástases à distância.  O tratamento consiste em remoção cirúrgica do lobo acometido ou de toda a glândula seguido de ablação com iodo radioativo de remanescentes teciduais em casos selecionados. A terapia com levotiroxina exógena ao longo da vida (com monitoramento periódico) é necessária em todos os pacientes submetidos à tireoidectomia total, bem como em muitos pacientes submetidos à lobectomia.

Não existe recomendação formal para o rastreamento universal de câncer de tireoide, ou seja, a utilização da ultrassonografia de tireoide como exame de rotina deve ser desencorajada. A detecção precoce não é associada ao aumento de sobrevida e pode, inclusive, causar dano por excesso de exames e tratamentos. Diante da falta de robustez de dados a Associação Americana de Tireoide posicionou-se contrária ao rastreamento de câncer de tireoide em indivíduos assintomáticos, tornando imperativa a divulgação e educação médica continuada para uma abordagem menos agressiva e desnecessária da doença nodular da tireoide, poupando procedimentos diagnósticos, cirurgias, reposição hormonal e danos psicológicos.

 

Fontes:

1- HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer: The American Thyroid Association Guidelines Task Force on Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, Jan 2016. ISSN 1557-907. doi

2- Ahn HS, Welch HG. South Korea’s Thyroid-Cancer “Epidemic”–Turning the Tide. N Engl J Med. 2015 Dec 10;373(24):2389-90. doi: 10.1056/NEJMc1507622

3- Cabanillas ME, McFadden DG, Durante C. Thyroid cancer. Lancet. 2016 Dec 3;388(10061):2783-2795. doi: 10.1016/S0140-6736(16)30172-6. Epub 2016 May 27.

 

 

Sobre a autora:

Thyciara Fontenele é médica endocrinologista pela Unidade de Diabetes e Endocrinologia do Hospital Agamenon Magalhães, Universidade de Pernambuco, com título de especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e mestrado em neurociências pela Universidade Federal do Pernambuco. Atualmente é professora das disciplinas de Clínica Médica e Endocrinologia na Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte, Ceará.

 

 

 

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