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cinco mistérios COVID

ARTIGO: Os 5 mistérios sobre a COVID-19

Seis meses e mais de dez milhões de casos confirmados, a pandemia do COVID-19 se tornou a pior crise de saúde pública em um século. Mais de 500.000 pessoas morreram em todo o mundo. Também catalisou uma revolução na pesquisa, pois cientistas, médicos e outros estudiosos trabalharam a uma velocidade vertiginosa para entender o COVID-19 e o vírus que o causa: SARS-CoV-2.

Nesse tempo se aprendeu como o vírus entra e sequestra as células, como algumas pessoas o combatem e como ele acaba matando outras. Se identificaram medicamentos que beneficiam os pacientes mais doentes e muitos outros tratamentos em potencial estão em andamento. Foram desenvolvidas quase 200 vacinas em potencial – a primeira das quais poderia ser comprovada até o final do ano.

Mas, para cada visão do COVID-19, surgem mais perguntas e outras permanecem. É assim que a ciência funciona.

 

1-      Por que as pessoas respondem de maneira tão diferente?

 Um dos aspectos mais marcantes do COVID-19 são as grandes diferenças nas experiências da doença. Algumas pessoas nunca desenvolvem sintomas, enquanto outras, aparentemente saudáveis, têm pneumonia grave ou até fatal. As diferenças no resultado clínico são dramáticas, e cientistas estão procurando variantes genéticas humanas que possam explicar algumas dessas diferenças.

No mês passado, uma equipe internacional analisando os genomas de cerca de 4.000 pessoas da Itália e da Espanha apresentou os primeiros fortes vínculos genéticos com o grave COVID-191. As pessoas que desenvolveram insuficiência respiratória tiveram maior probabilidade de carregar uma das duas variantes genéticas específicas do que as pessoas sem a doença.

Uma variante está na região do genoma que determina o tipo sanguíneo ABO. O outro está próximo de vários genes, incluindo um que codifica uma proteína que interage com o receptor que o vírus usa para entrar nas células humanas e outros dois que codificam moléculas ligadas à resposta imune contra patógenos. As variantes identificadas até agora parecem desempenhar um papel modesto no resultado da doença. Cientistas estão procurando por mutações que tenham um papel mais substancial.

 

2-      Qual é a natureza da imunidade e quanto tempo dura?

Os imunologistas estão trabalhando febrilmente para determinar como pode ser a imunidade ao SARS-CoV-2 e quanto tempo ela pode durar. Grande parte do esforço concentra-se em “anticorpos neutralizantes”, que se ligam às proteínas virais e impedem diretamente a infecção. Estudos descobriram que os níveis de anticorpos neutralizantes contra SARS-CoV-2 permanecem altos por algumas semanas após a infecção, mas geralmente começam a diminuir.

No entanto, esses anticorpos podem permanecer em altos níveis por mais tempo em pessoas que tiveram infecções particularmente graves. Quanto mais vírus, mais anticorpos e mais eles durarão, diz o pesquisador. Padrões semelhantes foram observados com outras infecções virais, incluindo SARS (síndrome respiratória aguda grave). A maioria das pessoas que teve SARS, perdeu seus anticorpos neutralizantes após os primeiros anos. Mas aqueles que a tinham realmente gravemente ainda tinham anticorpos quando testados novamente 12 anos depois.

Os pesquisadores ainda não sabem que nível de anticorpos neutralizantes é necessário para combater a reinfecção pelo SARS-CoV-2, ou pelo menos para reduzir os sintomas do COVID-19 em uma segunda doença. E outros anticorpos podem ser importantes para a imunidade. Se estuda, por exemplo, o papel dos anticorpos que se ligam às células infectadas, e as marcam para serem executadas pelas células imunes – um processo chamado de citotoxicidade celular dependente de anticorpos – em respostas ao SARS-CoV -2.

Por fim, é provável que um quadro completo da imunidade à SARS-CoV-2 se estenda além dos anticorpos. Outras células imunes, chamadas células T, são importantes para a imunidade a longo prazo, e estudos sugerem que elas também estão sendo convocadas pelo SARS-CoV-2. O sistema imunológico é muito mais complexo do que apenas anticorpos”.

Como ainda não existe um marcador claro e mensurável no corpo que se correlacione com a imunidade a longo prazo, os pesquisadores devem reunir os retalhos das respostas imunes e compará-los com as respostas a infecções por outros vírus, para estimar o quanto a proteção pode ser durável.

 

3-      O vírus desenvolveu alguma mutação preocupante?

Todos os vírus sofrem mutação quando infectam pessoas, e o SARS-CoV-2 não é exceção. Os epidemiologistas moleculares usaram essas mutações para rastrear a disseminação global do vírus. Mas os cientistas também estão procurando mudanças que afetem suas propriedades, por exemplo, tornando algumas linhagens mais ou menos virulentas ou transmissíveis. Tais mutações também têm o potencial de diminuir a eficácia das vacinas, alterando a capacidade dos anticorpos e células T em reconhecer o patógeno. 

Mas a maioria das mutações não terá impacto, e escolher as mais preocupantes é um desafio. As versões do coronavírus identificadas no início de surtos em locais críticos como a Lombardia na Itália ou em Madri na Espanha, por exemplo, podem parecer mais mortíferas do que as encontradas em estágios posteriores ou em outros locais. Mas essas associações provavelmente são falsas.

Os pesquisadores estão debatendo se a prevalência generalizada de uma mutação na proteína Spike do vírus é o produto de um efeito fundador ou um exemplo de uma posterior mutação na biologia do vírus. A mutação parece ter surgido pela primeira vez em fevereiro na Europa, onde a maioria dos vírus circulantes a carrega, e agora é encontrada em todas as regiões do mundo. Uma série de estudos sugeriu que essa mutação torna o vírus SARS-CoV-2 mais infeccioso para células cultivadas in vitro, mas não está claro como essa propriedade se traduz em infecções em humanos.

 

4-      Quão bem uma vacina poderá funcionar?

Uma vacina eficaz pode ser a única saída da pandemia. Atualmente, existem cerca de 200 em desenvolvimento em todo o mundo, com cerca de 20 em ensaios clínicos. Os primeiros ensaios de eficácia em larga escala para descobrir se alguma vacina funcionará deve começar nos próximos meses. Estes estudos irão comparar as taxas de infecção por COVID-19 entre pessoas que recebem uma vacina e aquelas que recebem um placebo. 

Mas já existem pistas em dados de estudos com animais e testes em humanos em estágio inicial, principalmente testando a segurança. Várias equipes conduziram ‘testes de desafio’ nos quais os animais que receberam uma vacina candidata são intencionalmente expostos ao SARS-CoV-2 para ver se a inoculação pode impedir a infecção. Estudos em macacos sugerem que as vacinas podem fazer um bom trabalho na prevenção de infecções pulmonares e pneumonia resultante, mas não no bloqueio de infecções em outras partes do corpo, como nas vias aéreas superiores. Macacos que receberam uma vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, Reino Unido, e foram expostos ao vírus tinham níveis de material genético viral em seus narizes comparáveis ​​aos níveis em animais não vacinados. Resultados como esse aumentam a possibilidade de que uma vacina contra o COVID-19 previna doenças graves, mas não a disseminação do vírus.

Dados em humanos, embora escassos, sugerem que as vacinas com COVID-19 levam nosso corpo a produzir anticorpos neutralizantes potentes que podem impedir o vírus de infectar células. O que ainda não está claro, é se os níveis desses anticorpos são altos o suficiente para interromper novas infecções ou por quanto tempo essas moléculas persistem no corpo.

Com o governo e a indústria injetando bilhões no desenvolvimento, teste e fabricação de vacinas, uma vacina pode estar disponível em tempo recorde, dizem os cientistas, e ela pode não ser completamente eficaz. Podemos ter vacinas na clínica que sejam úteis em pessoas dentro de 12 ou 18 meses, dizem os pesquisadores.

 

5-      Qual é a origem do vírus? 

A maioria dos pesquisadores concorda que o coronavírus SARS-CoV-2 provavelmente se originou em morcegos, especificamente morcegos-ferradura. Este grupo hospeda dois coronavírus intimamente relacionados à SARS-CoV-2. Um deles, chamado RATG13, foi encontrado em morcegos intermediários (Rhinolophus affinis) na província de Yunnan, no sudoeste da China, em 2013. Seu genoma é 96% idêntico ao do SARS-CoV-2. A partida mais próxima é o RmYN02, um coronavírus encontrado em morcegos malaios da Malásia (Rhinolophus malayanus), que compartilha 93% de sua sequência genética com o SARS-CoV-2.

Uma análise abrangente de mais de 1.200 coronavírus coletados de morcegos na China, também aponta para morcegos-ferradura em Yunnan como a provável origem do novo coronavírus. Mas o estudo não exclui a possibilidade de o vírus vir de morcegos-ferradura em países vizinhos, como Mianmar, Laos e Vietnã. A diferença de 4% entre os genomas de RATG13 e SARS-CoV-2 representa décadas de evolução. Os pesquisadores dizem que isso sugere que o vírus pode ter passado por um hospedeiro intermediário antes de se espalhar para as pessoas, sendo o pangolim, o mais provável.

Pesquisadores isolaram coronavírus de pangolins malaios (Manis javanica). Esses vírus compartilham até 92% de seus genomas com o novo coronavírus. Os estudos confirmam que os pangolins podem hospedar coronavírus que compartilham um ancestral comum com o SARS-CoV-2, mas eles não provam que o vírus saltou de pangolins para as pessoas. Para rastrear inequivocamente a jornada do vírus para as pessoas, os cientistas precisariam encontrar um animal que hospedasse uma versão com mais de 99% de semelhança ao SARS-CoV-2, uma perspectiva complicada pelo fato de o vírus ter se espalhado tão amplamente entre as pessoas, que também o passou para outros animais, como gatos, cães e visons de criação.

 

Referente ao artigo: Six months of coronavirus: the mysteries scientists are still racing to solve. Publicado em Nature

 

Dylvardo Costa

 

 

Autor: 
Dr. Dylvardo Costa Lima
Pneumologista, CREMEC 3886 RQE 8927
E-mail: dylvardofilho@hotmail.com

 

 

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