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ARTIGO Covid-19: Onde estamos com imunidade e vacinas?

Houve uma onda de entusiasmo no mês passado, quando dois novos artigos publicados no Lancet delinearam as primeiras descobertas de dois ensaios da vacina SARS-CoV-2. O primeiro veio da Universidade de Oxford e relatou que, em um ensaio de fase I/II envolvendo pouco mais de 1000 adultos saudáveis ​​(543 com a vacina, 534 com a vacina meningocócica conjugada como controle), a vacina candidata induziu anticorpos fortes e T respostas imunes celulares (até o dia 56). Eles não relataram eventos adversos graves.

Essa vacina usa um vetor de vacina de adenovírus e a sequência genética para a proteína spike SARS-CoV-2. Depois que a vacina é administrada, a proteína spike é produzida, o que prepara o sistema imunológico para reconhecer e atacar o vírus, caso a pessoa vacinada venha a ser infectada no futuro. Os pesquisadores, liderados por Sarah Gilbert, professora na área de vacinas, se associaram à AstraZeneca e já começaram os testes de fase III na Inglaterra para determinar a eficácia, bem como na África do Sul e no Brasil. Um teste nos EUA deve começar ainda este ano.

O segundo artigo veio de pesquisadores da China, que testaram sua vacina de adenovírus tipo 5 não replicante em 382 participantes (que receberam uma dose alta ou baixa, enquanto 126 pessoas receberam um placebo). Esta vacina candidata, desenvolvida com CanSino Biologics, usa um vírus do resfriado comum humano enfraquecido para entregar material genético que codifica a proteína spike do SARS-CoV-2 para as células.

Os pesquisadores relataram que, 28 dias após a vacinação, 95% dos participantes (241/253) no grupo de alta dose e 91% (118/129) no grupo de baixa dose apresentaram células T ou respostas imunes de anticorpos. A equipe disse que, embora a proporção de reações adversas (como febre, fadiga ou dor no local da injeção) tenha sido consideravelmente maior em receptores de vacina do que em receptores de placebo (72% no grupo de alta dose, 74% no grupo de baixa dose, 37% no grupo do placebo), a maioria das reações adversas foram leves ou moderadas.

No entanto, embora ambos os artigos relatassem resultados preliminares promissores e fornecessem alguma esperança de que pelo menos uma dessas vacinas pudesse ser eficaz, ainda não sabemos qual nível de resposta imune é necessário para proteger contra o vírus. Essa informação é vital para determinar se uma dessas vacinas será eficaz.

 

A China está dando uma vacina experimental aos militares?

Sim – os militares chineses receberão a vacina Ad5-nCoV. A comissão militar da China deu à vacina uma “aprovação militar especialmente necessária para o medicamento” em 25 de junho, disse um comunicado da empresa farmacêutica CanSino, apesar de ainda não ter concluído os testes de fase III. A aprovação terá duração de um ano. Ele afirma que os dados de ensaios clínicos mostraram um bom perfil de segurança e altos níveis de resposta imune humoral e celular, e que os resultados clínicos gerais indicam que o Ad5-nCoV tem potencial para prevenir doenças causadas por SARS-CoV-2.

 

A Rússia está começando a imunização em massa em outubro?

O governo russo anunciou que iniciará a produção de uma vacina em setembro e a imunização em massa em outubro. No entanto, surgiram preocupações sobre como a vacina candidata foi testada, já que nenhum estudo russo está incluído na lista da Organização Mundial de Saúde de ensaios clínicos de fase III.

A vacina foi desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, de Moscou, e usa duas cepas de adenovírus. O instituto já causou polêmica após relatos de que testou sua vacina em soldados e que os pesquisadores também se auto administraram a vacina durante os testes em humanos. Enquanto isso, Canadá, Reino Unido e EUA acusaram a Rússia de tentar roubar pesquisas de vacinas, embora as autoridades russas tenham negado.

 

O que sabemos sobre a imunidade das células T?

Ouvimos muito sobre anticorpos nos últimos sete meses, mas eles são apenas uma parte da resposta imunológica. Os cientistas agora estão olhando para outra, as células T. Os especialistas explicaram que quatro tipos de células T são de interesse:

  • Células T helper (CD4), responsáveis ​​pela imunidade celular e por auxiliar as células B na produção de anticorpos neutralizantes;
  • Células T citotóxicas ou “matadoras” (CD8), que matam diretamente as células infectadas;
  • Outras células T (incluindo células T-17), que conduzem as respostas inflamatórias que ajudam a controlar as infecções;
  • Células T reguladoras, que ajudam a conter a resposta imune, evitando assim reações excessivas e danos aos tecidos.

Alguns pesquisadores estão esperançosos de que as células T possam fornecer proteção durável contra o vírus. Parece que o SARS-CoV-2 é um vírus que é muito estimulante para células T, que a maioria das pessoas têm respostas de células T muito boas e que são muito ativadas. Na imunologia de células B, muito do foco estava na proteína spike, mas quando as células T olham para este vírus, parece que estão olhando para pedaços de quase todo o vírus, com muitas partes diferentes reconhecidas, diz a pesquisadora.

Elas parecem bastante duráveis ​​e parecem estar sendo produzidos em praticamente todas as pessoas expostas, desde pessoas altamente infectadas e hospitalizadas, mas até mesmo em contatos domiciliares negativos de RT-PCR [reação em cadeia da polimerase em tempo real]. Assim, estudos emergentes mostraram que as células T estão sendo geradas e podem durar muito melhor do que os anticorpos. No entanto, ela disse que precisamos pensar sobre as células T trabalhando em conjunto com os anticorpos e com as células B, que produzem esses anticorpos.

Ela explicou que o sistema imunológico é um exército complexo, e essas células precisam se coordenar para produzir a melhor resposta imunológica. É importante lembrar que mesmo quantidades muito pequenas de anticorpos ainda podem ser potencialmente muito protetoras e que as células B que os formam, especialmente se estiverem recebendo a ajuda certa das células T, podem ser estimuladas novamente assim que encontrarem o vírus, e pode então começar a se expandir e produzir mais anticorpos.

Se pode pensar nos anticorpos como mísseis que são enviados como uma primeira linha de proteção, mas também se precisa das fábricas que fazem esses mísseis – as células B de plasma – e também os outros soldados – as células T – que podem ajudar na produção dos anticorpos, assim como também de algumas células T killer especializadas (CD8) que podem reconhecer e eliminar diretamente as células infectadas.

 

Devemos testar as respostas das células T?

Conclui a autora dizendo que havia uma enorme ênfase no teste de anticorpos no início da pandemia, mas que a advertência agora é que vemos que essa não é uma medida de exposição anterior tão confiável como pensávamos, porque algumas pessoas podem ter diminuído seus níveis de anticorpos em 8 ou 10 semanas após a infecção. No entanto, ela acrescentou que no momento ainda não temos os meios para lançar a análise de células T em larga escala.

E arremata dizendo que ter capacidade de usar células T como um marcador adicional para infecção anterior, é uma ideia interessante, mas está muito longe de ser realidade, e medir células T é muito mais complexo do que medir anticorpos. Existe um teste que faz isso para a tuberculose – o teste Quantiferon se baseia na reatividade das células T – e assim, já existe um precedente para desenvolver isso. Mas se precisa entender primeiro, experimentalmente, em termos de quão protetoras essas células T são, e quão viável seria usá-las como um teste adicional.

 

Referente ao artigo Covid-19: Onde estamos com imunidade e vacinas? Publicado em The bmj

 

Dylvardo Costa

 

 

Autor: 
Dr. Dylvardo Costa Lima
Pneumologista, CREMEC 3886 RQE 8927
E-mail: dylvardofilho@hotmail.com

 

 

 

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