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ARTIGO: A cirurgia robótica no tratamento dos cânceres urológicos

A medicina caminha na direção de curar o paciente, propiciando qualidade de vida, diminuindo as sequelas do tratamento. Uma das áreas em que essa busca fica evidenciada é a urologia cirúrgica. Nos anos 1980, as cirurgias endoscópicas (feitas através de orifícios naturais) permitiram avanços na capacidade diagnóstica e possibilidades terapêuticas de pacientes com hiperplasia de próstata, tumores de bexiga superficiais e cálculos urinários sem a necessidade de qualquer incisão. Ainda na mesma década, a cirurgia laparoscópica (realizada via pequenas incisões no abdômen ou tórax e associada a microcâmeras) proporcionou a realização de procedimentos mais elaborados.

Esse novo cenário exigiu a adaptação de centros cirúrgicos, equipes médicas e de enfermagem. Em especial, a assimilação das novas técnicas demanda profunda dedicação dos cirurgiões. Procedimentos mais complexos exigem grande curva de aprendizado para a realização com segurança e efetividade. Houve necessidade de aprender a trabalhar olhando agora para uma tela bidimensional e realizar gestos cirúrgicos com um instrumental diferente e sem a mobilidade do punho. Por serem realizadas através de pequenas incisões ou vias naturais, as novas técnicas proporcionaram aos pacientes importantes vantagens: diminuição no uso de analgésicos; menor tempo de internamento hospitalar; retorno do paciente mais rapidamente à sua rotina e resultado estético mais harmonioso.

Com o tempo, o termo “cirurgia minimamente invasiva” passou a denominar as cirurgias endoscópicas e laparoscópicas. Nesse novo contexto, a cirurgia laparoscópica com assistência de robô (cirurgia robótica) se desenvolve. Na segunda metade dos anos 1990, e principalmente nos anos 2000, esse método minimamente invasivo passa a ser adotado na prática clínica e em alguns procedimentos. Com a aprovação das agências reguladoras na Europa e nos EUA da prostatectomia radical robótica (cirurgia para o tratamento do câncer de próstata), a urologia passou a ser a principal especialidade a utilizar a cirurgia robótica.

No Ceará, a primeira cirurgia urológica com instrumental robótico ocorreu em 2005. O sistema adotado foi o AESOP. Nesse equipamento, o braço que conduzia a câmera era robótico. Na época, realizamos, no Hospital Geral de Fortaleza, uma pieloplastia para tratamento de uma má-formação renal.

Em 2015, a plataforma Da Vinci, com quatro braços robóticos, foi adquirida pelo Hospital Monte Klinikum (HMK). As primeiras cirurgias realizadas em Fortaleza (CE) visavam ao tratamento do câncer de próstata. Desde então mais de 700 cirurgias robóticas já foram realizadas no HMK. O Brasil já ultrapassou a marca de 45.000 cirurgias robóticas, e 57% de todos os procedimentos foram urológicos. A técnica é utilizada principalmente para tratamento de cânceres de próstata, rim e bexiga.

A cirurgia assistida por robô manteve as vantagens da laparoscopia, como maior preservação dos tecidos e ser minimamente invasiva, pois também é feita por pequenas incisões abdominais. Porém a utilização de uma dupla câmera garante ao cirurgião a possibilidade de operar com imagens em três dimensões. Ademais o especialista conta com mais recursos para a articulação das pinças, algo importante para os gestos cirúrgicos. Além de permitir gestos similares aos que o instrumental cirúrgico realiza nas técnicas tradicionais, a cirurgia robótica desempenha movimentos que o punho humano não consegue. Na cirurgia robótica, o cirurgião controla quatro braços e opera junto a um console em posição sentada e confortável. Apesar de exigir um rigoroso treinamento, a adaptação dos cirurgiões tem sido maior, principalmente para as cirurgias mais complexas relacionadas ao tratamento dos cânceres urológicos.

Ao longo das últimas duas décadas, a prostatectomia radical robótica tornou-se o tratamento de escolha, nos locais onde há disponibilidade da plataforma robótica e equipes treinadas, para o tratamento do câncer de próstata. A retirada total da próstata tem o objetivo de curar os pacientes, mas está tradicionalmente relacionada ao risco de incontinência urinária e disfunção erétil como sequelas. A utilização da ferramenta robótica tem ajudado na precisão cirúrgica e na melhora dos resultados de continência e manutenção de função erétil.

Outro grupo beneficiado pela técnica são os pacientes com câncer de rim. Nessa doença, o risco de disseminação do câncer e a insuficiência renal, decorrente da retirada do rim, são dois pontos importantes. Diversos estudos clínicos já demonstraram que a nefrectomia parcial, com a retirada apenas do tumor e preservando grande parte do rim, é segura no contexto da cura do câncer. Além disso, há menor risco de ocorrer insuficiência renal, quando comparadas à nefrectomia radical e à retirada total do rim. A maior facilidade das suturas com o instrumental robótico torna a reconstrução mais rápida nos casos mais complexos em relação à cirurgia laparoscópica não robótica. Esse é um fator importante na manutenção da função renal no pós-operatório.

A cirurgia robótica vem sendo adotada também para o tratamento do câncer de bexiga, quando há necessidade de cistectomia radical e reconstrução urinária. A linfadenectomia retroperitoneal nos casos de tumores de testículos é outro procedimento realizado com cirurgia assistida por robô.

 

Sobre o autor:

Dr. Marcos Flávio Holanda Rocha – diretor do Departamento de Terapia Minimamente Invasiva da Sociedade Brasileira de Urologia, chefe do Serviço de Urologia do Hospital Geral de Fortaleza e coordenador de Cirurgia Robótica do Hospital Monte Klinikum

 

 

 

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