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ARTIGO: Brasil e a COVID-19, Um vislumbre do que está por vir

Desde seu surto em dezembro de 2019, a pandemia da doença coronavírus 2019 (COVID-19) atingiu praticamente todos os cantos do globo. Com a taxa de crescimento mais rápida do mundo, o Brasil se tornou o país mais afetado da América Latina, com mais de 3,2 milhões de casos confirmados e mais de 100.000 mortes, ficando em segundo lugar, atrás apenas dos Estados Unidos.

Com uma população de mais de 200 milhões de habitantes, o Brasil ocupa o sexto lugar entre os países mais populosos e o nono entre as maiores economias do mundo. No entanto, o Brasil também se destaca por disparidades socioeconômicas significativas. Mais de um quinto de sua população vive na pobreza, principalmente negros e pardos. Entre os moradores de raça negra e parda, 13,5 milhões ganham apenas US $ 1,90/dia (menos de R$ 10,00), e igual proporção vive em favelas, com superlotação e precárias condições sanitárias. As taxas de analfabetismo continuam altas, chegando a 20% nos maiores de 60 anos, e virtualmente o dobro entre os indivíduos negros quando comparado aos brancos.

De maior preocupação imediata, o desemprego afetou mais de 12% da força de trabalho do país; empregos informais e licenças não remuneradas, respondem por 30% a 60% desse total. Apesar dos esquemas de transferência de dinheiro do governo, incluindo cerca de US $ 110 por mês (ou R$ 600,00 que é menos de um quarto da renda média mensal per capita do país), muitos ainda não se beneficiaram deles. Embora as questões logísticas possam parcialmente explicar isso, a fraude em vários níveis também impediu que a ajuda financeira chegasse a milhões de pessoas necessitadas. Destes, mais de 10 milhões são trabalhadores rurais que dependem em grande parte da agricultura familiar para sua subsistência. Portanto, pode-se esperar que os milhões de pobres sejam aqueles que mais sofrem o impacto da pandemia.

Embora um achatamento da curva epidêmica pareça bastante evidente em alguns dos primeiros estados acometidos do país, após medidas de distanciamento social, os casos continuam a aumentar nas cidades do interior do Brasil. Vários estados viram seus sistemas de saúde públicos e privados sendo sobrecarregados, com profissionais de saúde enfrentando opções de vida ou morte. Manaus, a capital do Amazonas (região norte do Brasil), foi a primeira a ver o seu sistema de saúde entrar em colapso total e só agora a demanda por valas comuns começou a diminuir.

Na região mais rica do Brasil, o recente levantamento das medidas de bloqueio, somado à suspeita de fraude na aquisição de material médico para a pandemia, levantou preocupações sobre se o sistema de saúde será capaz de fornecer o suporte necessário. São Paulo, com mais de 12 milhões de habitantes, já teve mais mortes do que a Alemanha sozinha, enquanto lutava para atingir uma taxa de distanciamento social de 70% e manter a ocupação da unidade de terapia intensiva inferior a 100%.

Além disso, a maior parte da força de trabalho médica do Brasil está concentrada nas principais cidades, deixando outras áreas urbanas e rurais sem assistência. De modo geral, apesar dos esforços contínuos para contornar a falta de recursos de saúde – construindo hospitais de campanha em uma velocidade sem precedentes e fazer com que as escolas de medicina dispensassem os exames de fim de curso para permitir que os recém-formados trabalhassem na linha de frente – o sistema de saúde não conseguiu acompanhar a demanda crescente.

Para piorar as coisas, o país está mergulhado em uma turbulência política cada vez pior. O presidente Jair Bolsonaro frequentemente se vê em desacordo com o seu próprio Ministério da Saúde, o que resultou na perda de 2 ministros em menos de um mês. As tensões crescentes entre o gabinete de Bolsonaro, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, geraram grande mal-estar em todo o país, alimentado por uma preocupação constante com a estabilidade das instituições democráticas do Brasil.

13 de junho, dia da festa de Santo Antônio, padroeiro dos analfabetos e dos pobres, foi marcado por fogos de artifício lançados na Suprema Corte do país por manifestantes de extrema direita, exigindo o seu fechamento e ameaçando seus juízes. Assim, o governo federal do Brasil deve navegar por um delicado equilíbrio civil-militar em meio a uma pandemia crescente e a sobrecarga do sistema de saúde, enquanto os habitantes estão um tanto confusos com as opiniões opostas mantidas pelo governo. Essa agitação política não é bem-vinda, em um momento em que esforços unidos são essenciais para enfrentar o COVID-19.

Desde que a China começou a flexibilizar suas restrições de bloqueio em 8 de abril, vários países seguiram o exemplo. Lamentavelmente, novos surtos do COVID-19 já começaram a aparecer, o que levanta questões sobre uma segunda onda de infecção. Embora alguns possam dizer que não existe uma abordagem única para a reabertura, em 12 de maio a Organização Mundial da Saúde aconselhou que antes de facilitar o bloqueio, as taxas de positividade deveriam permanecer em 5% ou menos por pelo menos 14 dias.

Não se sabe porque o Brasil, que fica aquém da imunidade de rebanho de 60% a 70% presumida para prevenir um aumento de casos, já começou a suspender as suas próprias restrições, onde a queda da transmissão, enquanto as restrições vão sendo reduzidas, exigiria uma vigilância mais agressiva por meio de testes generalizados e com rastreamento de contatos, para os quais o país ainda está mal preparado.

Diversas estratégias podem ser implementadas na tentativa de se evitar uma escassez crítica, incluindo políticas de redução de impostos, investimentos privados, isenção de taxas para encargos de serviços públicos e doações para os mais afetados financeiramente. A equidade no acesso aos recursos, poderia ser melhorada por meio de um melhor mapeamento das maiores carências, no sentido de se orientar a alocação da ajuda federal aos estados e municípios mais afetados.

O fortalecimento de entidades de liderança em nível local, com maior envolvimento da comunidade e colaboração com organizações não governamentais, também pode ajudar. Por exemplo, alimentos foram disponibilizados por meio de parcerias entre proprietários de pequenos negócios, agricultores e líderes comunitários nas favelas. A educação continuada generalizada de profissionais da saúde pode ajudar tanto na adoção de uma terapêutica baseada em evidências científicas, quanto no tempo hábil para reconhecer os pacientes de maior risco. Por sua vez, os programas públicos de aceleração da pesquisa poderiam abrir caminho para um acesso mais direto às futuras terapias e vacinas do COVID-19.

A pandemia do COVID-19 teve um grande impacto sobre uma nação já atingida por dificuldades e disparidades socioeconômicas. Infelizmente, também parece ter entrincheirado diferenças partidárias de opiniões e de comportamentos entre o seu povo. Com o colapso de saúde pública, político e econômico pairando sobre o país, é hora de unidade e de esforços combinados, deixando de lado o dogma político,

e fazendo um balanço das forças existentes para trabalhar em direção a um objetivo comum. Evitar uma pandemia parece bastante difícil; ter uma crise política adicionada a ela, está fadado a ser um desastre.

 

Referente ao artigo Brasil e a COVID-19, Um vislumbre do que está por vir publicado na JAMA.

 

Dylvardo Costa

 

 

Autor: 
Dr. Dylvardo Costa Lima
Pneumologista, CREMEC 3886 RQE 8927
E-mail: dylvardofilho@hotmail.com

 

 

 

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