fbpx

Estudo mostra o papel dos dirigentes das nações sobre a COVID-19

Como antropóloga que estudou surtos de doenças no Vietnã, fiquei comovida com o contraste entre a experiência do COVID-19 lá e nos Estados Unidos. No final de abril, meus amigos em Hanói postavam fotos de comemorações e anunciavam com alegria: “O distanciamento social acabou!” Estou aliviada que as taxas de infecção no Vietnã permaneçam baixas, mas suas postagens parecem vir de um universo paralelo, já que eu, minha família e amigos nos Estados Unidos, continuamos nos isolando.

Ainda no ano passado, os Estados Unidos foram considerados um dos países mais bem equipados para enfrentar um vírus como o SARS-CoV-2. Outros incluíram o Reino Unido, o Brasil e o Chile, como outras nações bem classificadas, pelo abrangente Índice Global de Segurança de Saúde (GHS), como estando entre as mais preparadas do mundo.

No entanto, desde o início da pandemia, esses países apresentaram alguns dos piores resultados. Os Estados Unidos lideram o mundo em número total de casos e total de mortes; As fatalidades do Brasil até há pouco estavam em segundo lugar. A taxa de casos cumulativos per capita do Chile é a segunda mais alta da América Latina, e o Reino Unido tem a maior taxa de mortes por COVID-19 per capita, de todos os países do G7. O que pode explicar essas falhas surpreendentes?

Uma coisa que esses países têm em comum é o “excepcionalismo”, ou seja, que têm uma visão de si mesmos como excepcionais, de alguma forma distintos de outras nações. Suas respostas ao COVID-19, sugerem que essas visões de mundo excepcionalistas, podem estar associadas a piores resultados de saúde pública. Pesquisar essa associação pode ajudar a redefinir a preparação e permitir uma previsão mais precisa dos sucessos e fracassos da pandemia.

A decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia é uma evidência recente de que o país – ou grande parte dele – quer seguir sozinho. Nos primeiros meses da pandemia, o primeiro-ministro Boris Johnson desconsiderou o conselho de evitar o aperto de mãos, e o governo chegou a considerar a permissão da propagação do vírus, em busca de uma mais rápida imunidade coletiva. Essas ações escancaram a arrogância sobre a capacidade do país de resistir a uma crise de saúde pública.

Nos Estados Unidos, a Casa Branca projetou visões de mundo excepcionalistas de várias maneiras, inclusive saindo da Organização Mundial da Saúde e alegando que o vírus desapareceria “como um milagre”. O excesso de confiança na capacidade da nação de responder ao COVID-19, é visto em todos os níveis da sociedade, desde cortes a programas de preparação para a pandemia, até pessoas que se recusam a usar máscaras em público.

O líder populista do Brasil Jair Bolsonaro, sugeriu em março que os brasileiros eram duros o suficiente para sobreviver à infecção, então nenhuma precaução obrigatória era necessária. Uma resposta nacional caótica permitiu que a epidemia prosperasse.

O excepcionalismo chileno foi invocado para descrever as instituições democráticas estáveis ​​do país, o judiciário competente e a próspera economia de mercado, mas as infecções por COVID-19 aumentaram após atingir as comunidades de baixa renda. Embora o Chile tenha um sistema de saúde robusto, seus resultados epidemiológicos revelam níveis preocupantes de desigualdade. A imagem lisonjeira do país pode ter feito seus líderes subestimarem sua vulnerabilidade ao vírus.

A pandemia oferece um experimento natural sobre os efeitos da arrogância para a saúde pública. Uma maneira de os pesquisadores medirem e compararem visões de mundo excepcionalistas, seria estudar as atitudes do público por meio de pesquisas e entrevistas. O excepcionalismo também pode ser identificado no que os líderes de um país dizem ao público: suas mensagens enfatizam o especialismo nacional ou a filiação à comunidade internacional?

Os pesquisadores também podem examinar as respostas à pandemia, presumindo que os países excepcionalistas terão menos probabilidade de aprender com outras nações. Ainda mais evidências podem vir da análise da mídia: as notícias descrevem a experiência de um país como única ou traçam paralelos com experiências em outros lugares? Esse trabalho pode explorar se o excepcionalismo prevê pior desempenho no controle de doenças. Em vez de confiar em suposições não testadas sobre a preparação, como as classificações do Índice GHS faziam, os pesquisadores poderiam considerar os resultados reais.

A análise precisaria examinar uma variedade de possíveis fatores causadores dos resultados da pandemia, para se proteger contra a escolha seletiva. No entanto, pode tirar lições de histórias de sucesso pouco estudadas. O Índice GHS do ano passado classificou o Vietnã como o 50º de 195 países, mas em 6 de setembro o número de mortos no país era de apenas 35. Uma análise das respostas do COVID-19 de 36 países, publicada no mês passado pelo FP Group, uma organização de notícias com sede em Washington DC, classificou o Senegal – outro país de renda média baixa – em segundo lugar. Os Estados Unidos ficaram em 31º lugar.

O Vietnã nunca presumiu que teria proteção especial contra doenças. Seus líderes não se arriscaram a responder aos relatos de uma estranha pneumonia em Wuhan, China, e agiram decisivamente para colocar em quarentena, testar e rastrear os contatos dos primeiros casos. Outras nações que superaram as expectativas na resposta à pandemia incluem Cuba e Tailândia, que, até 2 de setembro, limitaram as mortes a dois dígitos.

No mito grego, a arrogância é punida pela deusa Nêmesis; no controle de doenças, uma visão de mundo arrogante arrisca uma punição por uma deusa particularmente vingativa. O excesso de confiança na excepcionalidade nacional levou à falta de preparação, impediu a colaboração com agências globais de saúde e limitou as oportunidades de aprender com a experiência de outros países. Ao identificar uma variável que falta na preparação para uma pandemia – a maneira como as nações se veem – os estudiosos podem ajudar no desenvolvimento de uma política nacional de saúde mais precisa para combater a pandemia.

 

Referente ao artigo Estudo sobre o papel da arrogância dos dirigentes das nações na resposta ao COVID-19 publicado em Nature.

 

Dylvardo Costa

 

 

Autor: 
Dr. Dylvardo Costa Lima
Pneumologista, CREMEC 3886 RQE 8927
E-mail: dylvardofilho@hotmail.com

 

 

 

Assine a NewsLetter, receba conteúdos relevantes e a revista digital do Jornal do Médico. https://bit.ly/3araYaa

 

 

Share this post


WhatsApp chat
Send this to a friend