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Especialista esclarece informações sobre o uso indevido de colírios e automedicação

A automedicação, definida como o uso de medicamentos escolhidos por conta própria na ausência de prescrição por um médico ou dentista, é a mais comum forma de auto tratamento (que inclui outras medidas, tais quais massagens, aromaterapia, reflexologia etc).  Este, por sua vez, é parte do autocuidado, definido pela OMS como “atividades que indivíduos, famílias e comunidades realizam com a intenção de melhorar a saúde, prevenir e limitar doenças, e restaurar a saúde”.

O impacto da automedicação na saúde pública tem sua importância no fato de que, apesar de ser conveniente e de baixo custo por episódio, ocorre com grande prevalência (que é variável dependendo de várias condições entre as populações) e é até capaz de desafogar o sistema de saúde num momento inicial, mas também de provocar atraso no diagnóstico e tratamento adequado de doenças que podem levar a complicações graves e com tratamentos e reabilitação mais dispendiosos, além do risco ligado a hipo ou hiperdosagem, intoxicação e reações adversas, interações medicamentosas perigosas, forma de administração incorreta e dependência de drogas.

A prevalência da automedicação tem variado em estudos feitos ao redor do mundo: na Alemanha 27,7%, em Portugal 26,2%, na Espanha 12,7%, em Cuba 7,3%, por exemplo. Estudo publicado em 2016, realizado por Arrais et al. encontraram uma prevalência de automedicação na população brasileira de 16,1%, sendo mais elevada entre mulheres, pessoas entre 20 – 39 anos, pessoas autodeclaradas com indígenas ou pele amarela, escolaridade com tempo maior ou igual a 12 anos, os residentes na região Nordeste, aquelas portando entre uma ou duas ou mais doenças crônicas, e aquelas hospitalizadas uma ou mais vezes no último ano. Importante salientar que, devido a sua própria natureza, a automedicação não é tão documentada como os tratamentos ambulatoriais ou de pacientes internados.

Fatores como dificuldade financeira e também alta renda, acesso ao sistema de saúde, grau de conhecimento sobre saúde e falta de tempo influenciam os indivíduos na busca por automedicação. Normais culturais e religiosas em algumas sociedades, sendo a automedicação atrativa nestes casos por oferecer conveniência, privacidade e autonomia. A presença de fortes campanhas publicitárias e a divulgação pela mídia de informação em saúde são fatores também dignos de nota, apesar de conterem por lei a orientação de que o paciente evite a automedicação e consulte o médico.

A automedicação é a principal forma de auto tratamento, e as drogas mais utilizadas sem prescrição no mundo são os analgésicos, remédios para tosse e resfriado, antialérgicos, vitaminas e energéticos. No Brasil, Arrais et al. encontraram 33,4% para analgésicos, seguidos de relaxantes musculares (14,8%), depois anti-inflamatórios e antirreumáticos (11,7%).

Nas emergências oculares, o prognóstico visual depende bastante das medidas iniciais, e assim a automedicação, além de atrasar o acesso do indivíduo ao serviço médico, pode agravar o quadro do paciente e por em risco o prognóstico visual. Em trabalho realizado por Carvalho et al. na unidade de emergência oftalmológica da FMUSP um impressionante número de 40,5% relataram ter se automedicado antes de chegar ali. Os produtos mais usados foram ácido bórico e solução salina. Poucos relataram uso de xampu e até mesmo urina.

Um estudo realizado na Índia por Noopur Gupta et al. em 2017 sobre uso abusivo de colírios anestésicos por soldadores mostrou que 85% já tinham contraído alguma lesão por corpo estranho ocular metálico e 80% já tinham usado anestésico tópico ocular, assim como outros tratamentos. O uso abusivo deste colírio restringe a migração de células epiteliais da córnea e tem efeito tóxico direto sobre os ceratócitos estromais, levando a complicações infecciosas e ceratite ulcerativa e vascularizante, além de conjuntivite. Felizmente, a venda deste medicamento no Brasil é controlada, permitida apenas a CNPJ da área da saúde.

Os efeitos deletérios de outros colírios comumente utilizados, como AINEs (cujo uso indevido pode levar a ceratite perfurante) e corticoides (risco de elevação da pressão intraocular e catarata) são de alto impacto na saúde ocular do indivíduo, que deve sempre ser orientado pelo profissional de saúde a evitar seu uso sem prescrição.

Diante do exposto, a automedicação é assunto de grande importância para a Saúde Pública, e profissionais de saúde, assim como as autoridades governamentais, devem fazer continuado esforço para a informação do paciente e extrema responsabilidade do paciente na sua prática, a qual tem se reforçado com o aumento do acesso dos pacientes à informação em saúde.

 

 

Sobre o autor:

Dr Thiago A. Dias é médico oftalmologista graduado pela FM-UFC, especialista em Glaucoma e catarata. É membro da diretoria da Sociedade Cearense de Oftalmologia e possui especialização em Oftalmologia pela FAV / HOPE. Fellowship em Glaucoma pela UFM

 

 

 

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