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Impacto da Covid-19 na saúde reprodutiva

A COVID-19 (derivado do nome em inglês coronavirus disease 2019) é uma doença provocada por um novo tipo de coronavirus, denominado SARS-CoV-2 (Severe acute respiratory syndrome coronavirus 2). A COVID-19 foi descrita pela primeira vez na cidade de Wuhan na China, em dezembro de 2019. Rapidamente, esse novo surto viral se alastrou por todo o mundo, fazendo com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretasse estado de pandemia em 11 de março de 2020.

O SARS-CoV-2 alcança as vias aéreas através de gotículas e aerossóis, ligando-se a uma proteína chamada enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), presente nas células epiteliais do trato respiratório inferior. Clinicamente, a COVID-19 apresenta-se de diferentes formas: assintomática (1,2% dos casos), forma leve a moderada (80,9%), forma severa (13,8%) e crítica (4,7%). A faixa etária mais acometida é dos adultos jovens em idade reprodutiva. Em média, a mortalidade é de 2,3%, sendo mais elevada na população idosa e com comorbidades, tais como obesidade, hipertensão, diabetes e outras doenças crônicas.

Curiosamente, outros órgãos e tecidos também expressam ACE2, alguns em maior quantidade que o trato respiratório. O trato intestinal é o sistema que apresenta a maior expressão da ACE2, seguido pelo sistema urinário, trato reprodutivo masculino e feminino. Além do quadro respiratório da COVID-19, outras manifestações clínicas são observadas em pacientes acometidas pelo SARS-CoV-2, tais como: diarreia, dor abdominal, insuficiência renal e alterações cardiovasculares.

O impacto da COVID-19 na fertilidade e nos resultados gestacionais ainda são pouco conhecidos. Em surtos anteriores, por outros tipos de coronavirus [(Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) e síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS)], foram observados quadros de infecções testiculares e comprometimento da função reprodutiva masculina durante a fase aguda da doença. Estudos inicias demonstraram a presença do SARS-CoV-2 em amostras seminais de homens durante a fase aguda da COVID-19. Entretanto, não foi detectado a eliminação crônica do vírus em amostras de sêmen de indivíduos recuperados. O impacto a longo prazo da COVID-19 sobre a fertilidade masculina ainda é desconhecido.

O efeito da infecção pelo SARS-CoV-2 na fertilidade feminina ainda é desconhecido. Estudos animais e em mulheres acometida por outras coronoviroses demonstraram quadro de infecções nas trompas uterinas e nos ovários, durante a fase aguda da doença. Estudos recentes demonstram que gestantes acometidas por COVID-19 apresentam um risco elevado de parto prematuro, crescimento intrauterino restrito e filhos com baixo peso ao nascer, além de maior risco de morte materna, entre gestantes brasileiras. Outros estudos sugerem um aumento no risco de perda gestacional (aborto espontâneo e óbito fetal) nas grávidas com histórico de COVID-19.

O número de gestantes diagnosticadas com COVID-19 ainda é pouco conhecido, maternidades americanas encontraram uma prevalência variando entre 6 e 15% das gestantes, atendidas durante o pré-natal ou no momento do parto. A infecção pelo SARS-CoV-2 durante o período gestacional parece ser limitada a mãe e ao leito placentário. A transmissão vertical (transmissão da mãe para o feto) é um evento raro, ocorrendo em cerca de 3% das gestantes infectadas. Diferente de outros surtos virais recentes, como a infecção pelo Zika vírus, a COVID-19 não aumenta o risco de malformações fetais.

Estudos populacionais demonstram uma associação entre o histórico de baixo peso ao nascer com o risco elevado de doenças crônicas na vida adulta, como coronariopatias, hipertensão arterial, diabetes e obesidade. Outros estudos epidemiológicos sugerem que filhos de mães, com histórico de infecções virais durante a gestação, possuem risco elevado de doenças comportamentais (doenças do espectro autista e esquizofrenia). Portanto, ainda pode existir um risco de complicações a longo prazo nos filhos de mães acometidas pela COVID-19, sendo necessário um acompanhamento desses casos em serviços especializados. Atualmente, o uso de máscara, cuidados com a higiene das mãos e o distanciamento social são as únicas medidas indicadas para a prevenção da COVID-19 na gravidez.

 

Sobre o autor:

Dr. Marcelo Cavalcante é Professor Adjunto da Universidade de Fortaleza, Médico da CONCEPTUS – Medicina Reprodutiva e possui Pós-doutorado pela University of Central Florida

 

 

 

 

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