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A Sinagoga Kahal Zur Israel

Quem flana pelo centro histórico de Recife e se depara com um velho sobrado de portas de madeira vermelha, na Rua do Bom Jesus (antiga Rua dos Judeus), não imagina estar diante de um local histórico, até ler uma placa de bronze fincada na calçada: “SINAGOGA KAHAL ZUR ISRAEL A primeira sinagoga das Américas mantém acesa a lembrança da presença judaica no Recife (século 17). Nela funciona o Artigo Judaico de Pernambuco”. Um irresistível convite a adentrá-la domina os historiadores transeuntes. O prédio, que abrigou a sinagoga no século XVII, foi reinaugurado em 18/03/2002. No térreo, encontramos painéis contando a saga dos judeus lusitanos, durante o período da Santa Inquisição.

Em 1497, os judeus portugueses foram convertidos à força em cristãos-novos. Muitos cometeram suicídio e tiveram seus corpos queimados. Em 1506, ocorreu um massacre de cristãos-novos, em Lisboa, motivado por ódio religioso. Em 1532, o Brasil passou a ser uma terra promissora por causa da cana de açúcar. A partir de 1534, centenas de cristãos-novos aqui chegaram em busca de liberdade de culto. Em 1536, a Inquisição instalou-se em Portugal. No Brasil, não existia tribunal do Santo Ofício, mas havia visitadores do Santo Ofício que colhiam denúncias sobre atividades passíveis de punição, como as práticas judaizantes. Em 1593, chegou a Olinda o visitador do Santo Ofício, Heitor Furtado de Mendonça. Entre os pernambucanos perseguidos, encontrava-se Bento Teixeira, autor da Presopopeia, primeira obra literária escrita no Brasil, e a família de Branca Dias. Desde o final do século XVI, os judeus gozavam de tolerância religiosa na Holanda. O filósofo Baruch Spinoza (1632-1677), que foi gerado de uma família judaica portuguesa, nasceu na Holanda, porque seus pais tiveram que fugir das garras da Inquisição em Portugal. A tolerância religiosa holandesa estendeu-se para os territórios administrados pela Companhia das Índias, como o nordeste Brasileiro.

Em 1635, centenas de judeus vieram para o Brasil Holandês. Na Rua dos Judeus, em Recife, em 1639, foi construída a primeira sinagoga das Américas. Em 1642, chegou, ao Brasil, holandês o Rabino Isaac Aboab da Fonseca, uma das mais importantes figuras do judaísmo do século XVII e autor do primeiro texto hebraico produzido nas Américas. Em 1654, as famílias judias tiveram que deixar o Brasil após a Batalha dos Guararapes (1658/1649). Os judeus expulsos do Recife foram para Amsterdã, Caribe e Nova Amsterdã, futura Nova York, onde formaram a Congregação Shearit Israel, a primeira comunidade judaica da América do Norte. Alguns outros judeus se dispersaram pelo sertão brasileiro. Para comprovar a existência da sinagoga no local descrito, o Iphan e a Universidade Federal de Pernambuco encontraram durante as escavações realizadas, 01/2000, materiais arqueológicos como fragmentos de canos holandeses, pratos etc… A descoberta mais importante foi uma piscina com sete degraus – um “mikvê” – utilizada em rituais de banho de purificação, segundo mandamento bíblico (Levítico, 11.36). Após a restauração do prédio, o andar térreo foi ocupado pelo Centro de Documentação Judaica e uma réplica da sinagoga foi construída no segundo andar.

 

Publicado na Revista Jornal do Médico, N° 74, ano 2016

 

dra. ana

 

Atora: Dra. Ana Margarida Arruda Rosemberg, médica, historiadora, imortal da Academia Cearense de Medicina e conselheira do Jornal do Médico.

 

 

 

 

 

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