A Solidão Breve

A solidão não se encontra: fabrica-se. Marguerite Duras escreve isso como quem abre uma porta para dentro de si, como quem revela que há territórios que só existem quando o sujeito, com coragem, decide habitá-los. A solidão, para ela, não era acidente nem destino, mas criação — um gesto árduo, quase artesanal. É preciso esvaziar o espaço, afastar ruídos, recolher-se da multidão e permitir que o silêncio se instale. É preciso aceitar que o vazio, quando enfim se apresenta, não vem como consolo, mas como uma matéria bruta a ser tocada com as mãos nuas.

Duras precisava dessa solidão como do ar. Não porque fosse confortável — nada nela repousa — mas porque ali se tornava possível ouvir o murmúrio mais íntimo da existência. A solidão durasiana é radical: violenta como uma droga que inquieta, uma presença densa que se cola à pele, uma duplicação de si que observa e é observada. É o lugar onde o corpo se atravessa de sentido, onde a escrita encontra raízes profundas e, simultaneamente, frágeis.

 

Na psicanálise de Lacan, esse movimento ecoa: solidão não é mero isolamento, tampouco retraimento defensivo. É a experiência de estar diante do real — esse ponto duro, nu, onde a linguagem falha e o Outro falha. Ali, desarmado, o sujeito descobre que nada externo virá completar o que falta. Não é abandono, mas trabalho. Uma escuta radical de si mesmo.

O sujeito, então, borda o furo. Faz contorno no que não tem forma. Desenha limites onde antes havia apenas o indizível. É um fazer que exige ternura e ferocidade, porque tocar a própria falta é sempre um risco. E, no entanto, é nesse risco que nasce o mais profundo gesto de amor: permitir-se ser, sem testemunhas, sem garantias, sem aplauso. Ser diante de si.

 

A solidão, quando construída, torna-se um lugar onde o coração pode finalmente respirar. Não para se proteger do mundo, mas para reencontrá-lo. Porque quem atravessa a própria noite, quem suporta o silêncio que arde, retorna mais inteiro. Retorna sabendo que a companhia alheia é escolha, não muleta; que o laço só é verdadeiramente laço quando não tenta tampar a falta, mas apenas tocar sua borda.
Assim, Duras nos ensina que fazer a solidão é também fazer espaço para o amor — o amor que nasce do encontro mais difícil: aquele consigo mesmo. É dessa travessia que surge a escrita, a voz, e até a capacidade de estar com o outro de forma verdadeira. A solidão, construída com coragem e delicadeza, não é ausência: é origem. É partir de si para poder, enfim, voltar ao mundo.

 

Rossana Köpf – psicanalista

 

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