Janeiro Branco nos convida a refletir sobre saúde mental de forma ampliada, indo além do diagnóstico e do tratamento medicamentoso. Na prática clínica, torna-se cada vez mais evidente que cuidar da mente exige, necessariamente, olhar para o corpo, o comportamento e o estilo de vida como um todo.
Como médica psiquiatra e atleta, vivencio diariamente os efeitos da atividade física não apenas como ferramenta terapêutica, mas como pilar estruturante da saúde mental. Nós do movimento @medicos.atletas, que atuamos no combate ao sedentarismo médico, principalmente, nos intitulamos atletas só por conseguirmos a proeza de conciliar treinos com consistência e regularidade com a prática desafiadora da medicina.
O exercício regular promove mudanças neurobiológicas consistentes: aumento da neuroplasticidade, liberação de neurotransmissores como serotonina, dopamina,endorfinas, endocanabioides e redução de marcadores inflamatórios, com melhor regulação do eixo do estresse. Esses mecanismos explicam por que a atividade física está associada à redução de sintomas depressivos, ansiosos, melhora do sono, da cognição e da autoestima.
Entretanto, o impacto do movimento vai além da bioquímica cerebral. O exercício organiza a rotina, fortalece a sensação de autoeficácia, melhora a relação com o próprio corpo e favorece a construção de hábitos saudáveis. Em pacientes com depressão, ansiedade, TDAH e transtornos relacionados ao estresse, a atividade física atua como um modulador emocional potente, complementando — e em alguns casos potencializando — os efeitos da psicoterapia e da farmacoterapia.
É fundamental reforçar que não se trata de performance ou estética. Na psiquiatria do estilo de vida, o foco é constância, prazer e adequação individual. Caminhadas, dança, musculação, esportes coletivos ou práticas mente-corpo podem ser igualmente eficazes quando respeitam o momento clínico, as limitações e as preferências do paciente assim como os pequenos lanchinhos de exercícios que podemos fazer entre os atendimentos, como por exemplo, 20 agachamentos ou flexões de braços ou abdominais- com garantias de redução da mortalidade.
Janeiro Branco é um convite ao cuidado consciente. Incorporar o movimento como parte do tratamento psiquiátrico é reconhecer que saúde mental se constrói diariamente, em escolhas simples, sustentáveis e possíveis. Corpo e mente não caminham separados — e a ciência confirma aquilo que a experiência já revela: mover-se é, também, uma forma profunda de cuidar da mente.

Autora: Dra. Juliana Gomes Pereira
Médica Psiquiatra Geral, Infância e Adolescência
CRM-SP 127.410 RQE 29.339-1/2
Médica pela Faculdade de Medicina de Itajubá- MG, Especializada em Psiquiatria pela Universidade Federal do Paraná, Título de Especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Certificada para atuação em Psiquiatria da Infância e Adolescência; Psicoterapia ambas pela ABP.
Psicanalista de Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae, Embaixadora da Wecann Academy, Co-autora do Livro: 23 histórias e uma paixão: o esporte do Movimento Médicos Atletas, Pós-graduanda na Formação de Instrutores de Meditação para a Saúde pelo Hospital Sírio Libanês – 2025-26, Atuação em consultório particular em São Paulo-SP e através de telemedicina.
Instagram @psiquiatrajulianagomes
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