Muito Além da Mamografia: A visão integral do Instituto Nosso Papo Rosa

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Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

A democratização da informação em saúde exige ir além da linguagem técnica dos consultórios médicos. Nesta entrevista exclusiva ao Portal Jornal do Médico®, a Dra. Maria Júlia Calas detalha os propósitos do Instituto Nosso Papo Rosa, sediado no Rio de Janeiro. O projeto se destaca por integrar ciência, arte e acolhimento para desmistificar o rastreamento do câncer de mama, além de embasar debates essenciais para grandes fóruns voltados à saúde feminina.

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Jornal do Médico®: Como nasceu a necessidade de criar o Instituto Nosso Papo Rosa? Houve um momento decisivo em que a senhora percebeu que a linguagem técnica do consultório não era suficiente para promover a saúde de forma ampla?
Dra. Maria Júlia Calas: O Instituto Nosso Papo Rosa nasceu em 2017 a partir da inquietação de duas médicas: eu, Maria Júlia Gregório Calas, ginecologista e mastologista, e a Dra. Sabrina Chagas, oncologista clínica. A Dra. Sabrina tinha acabado de publicar um livro onde contava sua história pessoal como filha de paciente oncológico, já que seu pai, também mastologista, teve um câncer de mama. A nossa inquietação era diante de uma realidade recorrente no consultório, mesmo após consultas tecnicamente bem conduzidas. Percebemos que muitas pacientes saíam dos consultórios com medo, dúvidas e sentimentos que não cabiam em termos médicos. Dali ficou muito claro que a linguagem científica sozinha não era suficiente para promover a saúde de forma ampla. Essa percepção se aprofundou ao longo dos anos e foi ganhando contornos ainda mais claros durante a pandemia. O Instituto surge, então, como uma ponte entre a ciência e o afeto, entre a informação e o acolhimento, e entre o consultório e a vida real. Hoje consolidado, o Instituto já realizou mais de 30 eventos presenciais e muitos online, alcançando milhares de pessoas com uma proposta muito clara: democratizar o acesso à informação em saúde utilizando uma linguagem humana, inclusiva e transformadora.
Jornal do Médico®: O Instituto tem como um dos pilares ‘Câncer de mama sem mitos e tabus’. Quando falamos de promoção da saúde — e não apenas de tratamento — qual é o maior mito que o Nosso Papo Rosa ainda precisa desconstruir junto às mulheres cariocas para que elas percam o medo do rastreamento?
Dra. Maria Júlia Calas: Um dos principais mitos que ainda afastam as mulheres do rastreamento do câncer de mama é o medo. É a ideia de que a mamografia é sinônimo de dor, de risco pela radiação — por pura desinformação — ou o medo diante de um diagnóstico inevitavelmente ruim. Somamos a tudo isso o medo de descobrir algo e a falsa crença de que só é necessário investigar quando surgem sintomas. A paciente tem que ter consciência de que o rastreio do câncer de mama é feito em mulheres assintomáticas; não precisamos estar sentindo absolutamente nada para fazer a mamografia de rastreio. Esse é um grande mito e tabu que temos diante do diagnóstico precoce. O Nosso Papo Rosa trabalha para inverter essa lógica, traduzindo a ciência de forma acessível e afetiva. Rastrear não é antecipar sofrimento, é ampliar as possibilidades de cura. A detecção precoce empodera, devolve autonomia e salva vidas. A mamografia é uma ferramenta segura, eficaz e essencial, e já temos literatura robusta para embasar essa afirmação. Cuidar de si não deve ser um ato de medo, mas sim um autocuidado consciente e constante.
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Jornal do Médico®: Vemos que os eventos do Instituto integram arte, bem-estar e informação multiprofissional. Como essa abordagem holística, que ‘puxa’ a paciente para conversas sobre estilo de vida e autocuidado, impacta efetivamente na prevenção primária do câncer de mama, indo além da simples realização da mamografia?
Dra. Maria Júlia Calas: É isso mesmo. Desde a sua concepção, o Nosso Papo Rosa nasceu interdisciplinar. Especialidades como nutrição, atividade física, fisioterapia, saúde mental, psicologia, oncologia, mastologia e ginecologia dialogam com arte, cultura e rodas de conversa. Essa combinação rompe com o modelo tradicional de educação em saúde, que muitas vezes é vertical e totalmente distante da realidade das pessoas. Ao puxar a paciente para conversas sobre estilo de vida, emoções e autocuidado, a prevenção deixa de ser um ato isolado — como apenas fazer a mamografia — e passa a ser um processo contínuo. A arte e o acolhimento criam um ambiente seguro onde o tema do câncer de mama pode ser abordado sem tabus, culpa ou medo. Isso favorece mudanças reais de comportamento e uma maior adesão às práticas de prevenção primária. Por isso é tão importante realizarmos eventos multiprofissionais onde a arte vem englobada na informação.
Jornal do Médico®: Seu currículo destaca uma atenção especial ao rastreio na população transgênero e LGBTQIAPN+. Como o Instituto Nosso Papo Rosa tem trabalhado a democratização do acesso à informação para esses grupos que, muitas vezes, estão à margem das campanhas tradicionais de saúde feminina?
Dra. Maria Júlia Calas: A atuação do instituto junto à população LGBTQIAPN+ nasce de uma escuta. O pontapé inicial ocorreu em um evento online de Outubro Rosa voltado especificamente para essa população. Percebemos que o que era para ser apenas uma ação educativa transformou-se em uma experiência completamente reveladora. Surgiram relatos de dores que iam muito além do corpo: dores sociais, simbólicas e institucionais. Histórias de constrangimento, exclusão e silenciamento mostraram que falar de câncer exigia, antes de tudo, uma escuta qualificada e a tradução sensível do conhecimento científico. O projeto Nosso Papo Colorido surge justamente da percepção de que corpos dissidentes frequentemente enfrentam violências simbólicas e institucionais no cuidado oncológico. Ocorrem muitas violências, desde o uso de nomes mortos, constrangimentos em exames, até disforia de gênero agravada por procedimentos ginecológicos realizados sem empatia ou respeito. Diante disso, temos o outro lado, que é a ausência de profissionais preparados para acolher essa diversidade. Todo esse percurso culminou no nosso segundo livro. Ele não é apenas um guia técnico, mas um manifesto ético. A obra aborda a saúde de pessoas trans, o impacto da hormonização no rastreio oncológico, as diferenças entre identidade de gênero e orientação sexual. Falamos sobre o sofrimento nos exames, sempre tentando unir ciência, empatia e respeito. O Instituto amplia o cuidado oncológico para todos os corpos e vivências, reafirmando que a saúde é direito e não privilégio de gênero.
Jornal do Médico®: O projeto expandiu para o ambiente corporativo e inclusive lançou o livro ‘Nosso Papo Rosa: um guia informal’. Na sua visão, qual é o papel das empresas hoje na promoção da saúde da mulher e como o Instituto atua para transformar o ambiente de trabalho em um local de conscientização ativa?
Dra. Maria Júlia Calas: Essa expansão foi realmente muito importante. As empresas ocupam hoje um lugar estratégico na promoção da saúde, pois têm influência direta na rotina, nos hábitos e no acesso à informação. O Instituto atua no ambiente corporativo levando palestras, rodas de conversa e ações educativas que possam transformar o local de trabalho em um espaço ativo de conscientização. Quando envolvemos as empresas, ajudamos a construir uma cultura organizacional de cuidado, o que é fundamental, onde falar de saúde deixa de ser um tabu e passa a ser uma responsabilidade coletiva. Nesse contexto, nosso primeiro livro funciona como uma ferramenta acessível que desmistifica a doença, estimula o diálogo e incentiva a prevenção. Portanto, ele também faz parte das nossas ações quando levamos o projeto ao ambiente corporativo.
Dra. Maria Júlia Calas e Dra. Sabrina Rossi Perez Chagas

Conheça o Instituto e Adquira o Livro

Para saber mais sobre os projetos, eventos e iniciativas, acesse o site oficial do Instituto Nosso Papo Rosa:
🌐 nossopaporosa.com.br

Adquira o livro “Nosso Papo Rosa: um guia informal” nas principais livrarias:

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