Dra. Ana Cristina Pinho: a força da liderança feminina da alta complexidade à gestão do INCA

Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 4341 e Membro SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

Primeira e única mulher a dirigir o Instituto Nacional de Câncer (INCA) em 89 anos, a anestesiologista e ex-presidente da SAERJ, Dra. Ana Cristina Pinho, reflete sobre o papel transformador do médico perioperatório na jornada do paciente oncológico. Nesta entrevista exclusiva para o Summit Jornal do Médico® Mulheres na Saúde, ela detalha como a visão multitarefa e a empatia feminina humanizam a alta gestão e fortalecem a excelência técnica na saúde pública.

Jornal do Médico® — Muitos médicos relatam um ‘chamado’ para suas especialidades. No seu caso, o plano inicial era a imunologia. Como a clínica e a terapia intensiva cruzaram o seu caminho na UFF?

Dra. Ana Cristina — O meu encontro com a Anestesiologia foi curioso. Entrei na medicina com o objetivo de atuar como pesquisadora em Imunologia, mas, a partir do terceiro ano, apaixonei-me pela disciplina de Semiologia e diferentes especialidades clínicas à medida em que me iam sendo apresentadas. Percebi, então, que preferia o cuidado direto ao paciente ao trabalho no laboratório de pesquisa experimental. No penúltimo ano da faculdade, em 1991, fui aprovada para estágio no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital do Andaraí, onde pude aprender mais sobre pacientes graves e tratamento de alta complexidade. Naquele momento, pensei que a Terapia Intensiva seria o meu caminho.

Jornal do Médico® — Mas a ‘virada de chave’ definitiva aconteceu dentro de um centro cirúrgico. Como foi esse momento que a levou de vez para a Anestesiologia?

Dra. Ana Cristina — No meu último ano, consegui outro estágio, dessa vez no CTI da Clínica São Vicente da Gávea. Em um plantão noturno, estava sob meus cuidados uma paciente que precisou de intervenção cirúrgica. Decidi acompanhá-la ao Centro Cirúrgico, quando conheci o anestesista responsável pelo caso – o saudoso Dr. Francisco Fagundes. Foi ali que a chave virou e pensei: “O que quero não é Terapia Intensiva, quero Anestesiologia, que é muito mais intensiva do que a própria Terapia Intensiva”. Aproveitei para perguntar a ele qual seria a melhor residência no Rio de Janeiro. Ele me disse, sem hesitar, que o melhor Programa de Residência Médica em Anestesiologia era o INCA, sob a coordenação de seu amigo, Dr. Paulo Lavinas.

“O que quero não é Terapia Intensiva, quero Anestesiologia, que é muito mais intensiva do que a própria Terapia Intensiva.”

Jornal do Médico® — O INCA acabou por se tornar a sua casa durante décadas. Como foi esse processo de aprovação e o início dessa jornada?

Dra. Ana Cristina — O INCA tem o perfil de paciente desafiador e de cirurgia de alta complexidade de que gosto, aliado à uma infraestrutura caracterizada por tecnologia e conhecimento de ponta. Fiz a prova, fui aprovada, matriculei-me e, ao final da Residência, casei-me com o chefe – o Dr. Paulo Lavinas. Foram 20 anos de parceria familiar e profissional, que se encerrou com seu falecimento em 2015, mas que deixou um saldo de 3 filhos, 2 enteados, e um Serviço de Anestesiologia nacionalmente conhecido pela quebra de paradigmas e estratégias inovadoras na Anestesiologia, como a anestesia sem opioides. Tenho muito orgulho de minha trajetória e não tenho dúvida de que fiz a escolha certa. Como digo a cada início de ano aos novos residentes: “Não sei por que escolheram esta especialidade, mas garanto que atiraram no que viram e acertarão no que não viram, porque a Anestesiologia é muito além do que imaginam“.

Jornal do Médico® — Olhando para o mercado atual, como a senhora enxerga o papel do anestesiologista além do centro cirúrgico, especialmente sob a ótica da Medicina Perioperatória no cuidado oncológico?

Dra. Ana Cristina — À luz do conceito da Medicina Perioperatória, a especialidade ganhou uma importância imensa, pois se mostrou modificadora de desfechos. O desafio agora é mantê-la fortalecida enquanto especialidade estritamente médica, que exige conhecimento profundo de Fisiologia e Farmacologia aplicadas, sempre em busca da melhor estratégia. No caso do paciente oncológico, até a Imunologia precisa estar no arsenal de conhecimento do anestesiologista.

Jornal do Médico® — A sua gestão à frente do INCA (2016-2022) foi um marco, sendo a primeira mulher a presidir a instituição em 89 anos. Como surgiu esse convite e qual foi a sua reação?

Dra. Ana Cristina — Foi uma experiência inesperada, pois nunca havia tido contato com o meio político. Em 2016, o Ministério da Saúde definiu, nos bastidores, critérios para a indicação ao cargo de Diretor Geral do INCA: um médico da casa, referência em sua especialidade, com experiência em vida associativa e que nunca tivesse ocupado cargo de confiança na instituição. Fui contactada e solicitada a encaminhar um CV. Fui informada depois de que, além do perfil técnico, o fato de ser a única mulher entre os nomeáveis pesou muito a favor.
Hospital do Câncer - Instituto Nacional de Câncer
Hospital do Câncer – Instituto Nacional de Câncer | FOTO Thiago Petra, via Wikimedia Commons

Jornal do Médico® — Quais foram os maiores desafios de gerir um gigante da saúde pública nacional, lidando com o peso da burocracia governamental?

Dra. Ana Cristina — Gerir um órgão público federal sob o regime jurídico de administração direta envolve burocracia pesada, leis altamente complexas que “engessam” as ações, como a Lei de Licitações e Contratos, e a necessidade de incorporação de novas tecnologias num cenário de custos crescentes e orçamento anual fixo. A gestão de pessoas no serviço público é um desafio à parte, pois o modelo tende a não priorizar o mérito individual.

Jornal do Médico® — Muitas vezes, a liderança feminina enfrenta barreiras invisíveis. Como o fato de ser mulher influenciou a sua forma de gerir o INCA e de lidar com situações de pressão ou com órgãos de controle?

Dra. Ana Cristina — O fato de ser mulher, na verdade, ajudou muito. Tenho a impressão de que níveis mais baixos de testosterona diminuem o orgulho improdutivo, que torna mais difícil ao gestor, por exemplo, assumir que não domina determinado assunto ou situação… Nunca tive dificuldade em pedir mais clareza, mais detalhes, enfim, de dizer “não sei, mas vou me informar” para a melhor tomada de decisão. E, claro, de exigir transparência máxima nos processos – o que facilitou demais a relação do INCA com os órgãos de controle. Além disso, nós, mulheres, temos um perfil naturalmente multitarefa e um olhar mais humano sobre diferentes situações. Somos treinadas pela “escola da vida”, desde cedo, a administrar simultaneamente a casa, a família e o trabalho.

Jornal do Médico® — Além da gestão hospitalar, a senhora sempre teve uma atuação política muito forte. O que a motivou a entrar para o associativismo e assumir a presidência da SAERJ?

Dra. Ana Cristina — Sempre me incomodou profundamente a postura de quem prefere ser “pedra” e nunca se propõe a ser “vidraça”. Vejo os cargos de liderança como oportunidades de implementar conceitos nos quais acredito. Considero a SAERJ e a SBA como os balizadores técnicos, científicos e éticos da nossa especialidade, e tenho muito orgulho de minha trajetória associativa, como a Presidência da SAERJ no biênio 2013/14 e a Vice-Diretoria Científica da SBA em 2019.

“Sempre me incomodou profundamente a postura de quem prefere ser ‘pedra’ e nunca se propõe a ser ‘vidraça’. Vejo os cargos de liderança como oportunidades de implementar conceitos nos quais acredito.”

Jornal do Médico® — Como a senhora avalia o cenário atual para as mulheres que desejam ocupar cargos de presidência e diretoria nessas sociedades médicas?

Dra. Ana Cristina — Avalio de forma muito positiva, não só nas sociedades médicas, mas em qualquer cargo de liderança. A mulher tende a ser mais compreensiva e flexível em diferentes situações, mas extremamente firme quando necessário. Como às vezes ainda somos subestimadas, esse “fator surpresa” pode fazer a diferença.

Jornal do Médico® — A sua paixão pelo ensino também é evidente. Como a docência e a pesquisa caminham lado a lado com a gestão na sua trajetória?

Dra. Ana Cristina — Eu sempre quis ser professora. Quando criança, dava aulas sobre o que aprendia na escola ao meu avô, num quadro negro. Hoje, fora da DG do INCA e com mais tempo disponível, venho me dedicando à minha pós-graduação em pesquisa experimental (voltando às origens!) e às atividades com os médicos residentes. A veia acadêmica sempre pulsou muito forte em mim.

Jornal do Médico® — Para finalizarmos, o projeto ‘Summit Jornal do Médico Mulheres na Saúde’ celebra justamente o protagonismo feminino. Que mensagem a senhora deixa para a jovem médica que olha para a sua trajetória e sonha em ocupar espaços de liderança?

Dra. Ana Cristina — O perfil multitarefa, aliado a uma maior capacidade de empatia, agregam muito valor à gestão institucional, especialmente na área da saúde. Não percam a oportunidade de colocar as mãos na massa e não temam ser “vidraça”. Os espaços estão aí para serem ocupados por quem tem competência, seriedade e vontade de fazer a diferença.
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