Artigo publicado na Medscape Pulmonary Medicine em 21/03/2026,em que um pesquisador americano afirma que essa síndrome é comumente associada a enxaqueca, infecções virais e doenças neurológicas, mas ainda é pouco compreendida.
A Síndrome de Alice no País das Maravilhas (SAPM) é um fenômeno neurológico raro, caracterizado por uma série de distorções perceptivas, que podem afetar a visão, a autopercepção corporal e até a noção do tempo. Essa síndrome é comumente associada a migrânea, infecções virais e doenças neurológicas, mas ainda é pouco compreendida.
A SAPM pode se manifestar de várias maneiras, com distorções visuais, como micropsia e macropsia, na percepção do tamanho do próprio corpo e do tempo, o que faz da doença um assunto de grande complexidade para o estudo médico.
Um dos focos das pesquisas recentes sobre a doença, tem sido a investigação das suas possíveis bases neurológicas, principalmente sua correlação com a enxaqueca. Estudos demonstraram que a SAPM é frequentemente relatada entre indivíduos que sofrem de migrânea, com a literatura sugerindo um mecanismo fisiopatológico comum entre as duas. Além disso, alguns estudos de neuroimagem sugeriram alterações em regiões específicas do cérebro relacionadas ao processamento visual e sensorial, corroborando a ideia de que há uma base neural para a síndrome.
A complexidade dos sintomas da Síndrome de Alice no País das Maravilhas requer uma abordagem multidisciplinar para o diagnóstico e tratamento, integrando neurologia e psiquiatria, nas estratégias de cuidados abrangentes. Os resultados do tratamento variam amplamente entre os pacientes, com alguns respondendo bem aos medicamentos tradicionais para migrânea, enquanto outros, requerem um regime terapêutico mais personalizado. As pesquisas continuam a estudar marcadores neurofisiológicos associados à SAPM, o que pode vir a aumentar a precisão do diagnóstico e permitir novas descobertas sobre seus mecanismos subjacentes.
Apesar da ausência de critérios formalmente estabelecidos, os principais critérios diagnósticos para SAPM associada à migrânea citados na literatura, são episódios transitórios (até 60 minutos) e recorrentes, caracterizados por distorções perceptivas, como alterações na percepção espacial e de tamanho (micropsia e macropsia) e distorção do tempo. A literatura destaca que essas alterações perceptivas geralmente coincidem com episódios de migrânea, normalmente em até 60 minutos, categorizando a experiência como Síndrome de Alice no País das Maravilhas e associando-a a auras de migrânea conhecidas.
As abordagens diagnósticas tradicionais enfatizam a clareza dos sintomas, embora estudos recentes destaquem a importância da experiência subjetiva no estabelecimento do diagnóstico, com pesquisas indicando que a consciência das distorções pode variar de uma pessoa para outra; alguns estão plenamente conscientes de que suas percepções são ilusórias, enquanto outros podem não ter essa percepção, não sendo este um critério obrigatório. Essa variabilidade sugere que as experiências de Síndrome de Alice no País das Maravilhas podem ocorrer num espectro em que a percepção não é obrigatória para um diagnóstico viável, especialmente quando associada a outras características da migrânea.
A depressão cortical disseminada (DCD) é definida como uma onda de despolarização que se propaga pelo córtex cerebral, seguida por uma depressão transitória da atividade neuronal. Essa despolarização foi observada em vários fenômenos neurológicos, particularmente em distúrbios de migrânea, onde se correlaciona com o início dos sintomas de aura, e sua dinâmica espacial e temporal, se assemelha muito à observada nos distúrbios visuais relacionados à migrânea, que são características da Síndrome de Alice no País das Maravilhas, como já vimos. Assim, pesquisadores propuseram que a DCD, pode estar na base das distorções perceptivas associadas à doença, particularmente nos casos em que os pacientes também apresentam migrânea.
O mecanismo da DCD começa com a hiperexcitabilidade neuronal, observada em muitos pacientes com migrânea. A hiperexcitabilidade pode levar ao início de uma onda de despolarização, que se propaga por grandes áreas corticais, e uma fase subsequente de supressão da atividade cortical, pode resultar nos distúrbios sensoriais observados na SAPM.
A infecção pelo vírus Epstein-Barr é consistentemente associada à Síndrome de Alice no País das Maravilhas. Esse vírus pode desencadear manifestações neurológicas, incluindo distorções perceptivas, que se correlacionam com as observadas na doença. A presença do vírus foi também documentada, como causadora de complicações no sistema nervoso central, podendo afetar o processamento sensorial e resultar em anomalias perceptivas semelhantes às observadas na SAPM. Ainda, pesquisas sugerem que infecções virais, pelo vírus Epstein-Barr, por exemplo, podem provocar respostas inflamatórias no sistema nervoso central, interrompendo o funcionamento normal da conectividade e dos circuitos neurais envolvidos na percepção sensorial, podendo também ser esse um dos fatores contribuintes para SAPM.

A literatura também discute a Síndrome de Alice no País das Maravilhas como uma complicação da Covid-19. Como sabemos, a inflamação induzida pela Covid-19 pode envolver tempestades de citocinas e respostas neuroinflamatórias, que contribuem para sequelas neurológicas semelhantes às da SAPM. Casos específicos relataram indivíduos que apresentaram sintomas semelhantes após a recuperação da Covid-19, sugerindo um perfil neurológico pós-infeccioso, que pode se manifestar por meio dessas alterações perceptivas.
No contexto pediátrico, há uma associação considerável entre Síndrome de Alice no País das Maravilhas e infecções virais, particularmente influenza e Covid-19. A síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, associada ao SARS-CoV-2, exemplifica como as infecções virais podem levar a uma inflamação sistêmica significativa, que pode exacerbar patologias preexistentes, as quais por sua vez podem contribuir para os sintomas da SAPM. Nesses casos, a resposta inflamatória parece afetar as vias neuronais, possivelmente levando a distorções perceptivas.
Uma observação importante das análises eletroencefalográficas em pacientes com a Síndrome de Alice no País das Maravilhas, é a presença de atividade teta rítmica, com estudos de caso tendo documentado o achado no hemisfério cerebral direito, coincidindo com episódios de SAPM. Esse fenômeno sugere que alterações eletrofisiológicas podem refletir alterações nos processos corticais subjacentes à percepção. Os ritmos teta, normalmente associados à sonolência ou ao sono leve, podem indicar alterações na consciência ou no processamento sensorial, o que se alinha com as experiências subjetivas relatadas por indivíduos com a doença.
Além da atividade teta, algumas publicações discutem a variabilidade das correlações do eletroencefalograma em casos de Síndrome de Alice no País das Maravilhas, e que nem todos os pacientes apresentam consistentemente achados anômalos identificáveis no eletroencefalograma durante os episódios, sendo essa avaliação importante para o diagnóstico da doença em pacientes com epilepsia. Avaliações eletrofisiológicas produziram resultados inconclusivos em alguns casos, com estudos de neuroimagem revelando alterações estruturais ou funcionais. Essa variabilidade destaca a complexidade da patologia, indicando que ela pode se manifestar por meio de diferentes mecanismos neurofisiológicos.
O verapamil é reconhecido pela sua eficácia no tratamento preventivo de certos tipos de migrânea, e atua bloqueando os canais de cálcio, o que reduz a excitabilidade neuronal e pode diminuir a frequência das crises de migrânea, levando potencialmente a uma redução de até 55% na ocorrência de Síndrome de Alice no País das Maravilhas. Dado que os pacientes com a doença frequentemente relatam distorções perceptivas durante os episódios de migrânea, o controle da migrânea com medicamentos profiláticos eficazes, como o verapamil, pode reduzir a incidência e a gravidade dos sintomas da SAPM.
Além do tratamento farmacológico, as intervenções não farmacológicas são fundamentais. Terapia cognitivo-comportamental, modificações no estilo de vida e técnicas de controle do estresse, podem reduzir significativamente a frequência e a intensidade dos episódios de migrânea. Alguns estudos sugerem, que essas abordagens também podem ajudar a limitar os episódios de Síndrome de Alice no País das Maravilhas, portanto informar os pacientes sobre a doença e as medidas preventivas, é essencial para melhorar sua capacidade de controlar os episódios de enxaqueca e, potencialmente, reduzir os sintomas da SAPM.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-00856-7

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