5 milhões de mortes ligadas à inatividade global

Artigo publicado na Medscape Pulmonary Medicine em 24/03/2026, onde um pesquisador alemão afirma que promover o ciclismo e a caminhada, é considerada uma alavanca importante que conecta objetivos como saúde, qualidade de vida e redução das emissões de CO₂.

Apesar dos esforços de promoção da atividade física em larga escala, pessoas em todo o mundo, não estão praticando atividade física suficiente. Cerca de 80% dos jovens adultos, se movimentam menos do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo um estudo de caso qualitativo publicado na Nature Health, um dos três estudos de uma série, realizado por uma equipe internacional de pesquisadores. O sedentarismo está associado a um risco aumentado de morte prematura, e é responsável por cerca de 5 milhões de mortes por ano, no mundo todo. Esse número é comparável ao de mortes causadas pelo tabagismo ou pelo excesso de peso.

No entanto, muitas medidas, iniciativas de promoção e estratégias para aumentar a atividade física, foram recomendadas por organizações internacionais de saúde, entre 2004 e 2023. Globalmente, porém, menos da metade dessas recomendações, foram implementadas. Andrea Ramírez Varela, médica do Departamento de Epidemiologia da Escola de Saúde Pública do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas em Houston, e seus colegas, discutem diversos fatores que podem dificultar a implementação: a falta de abordagens interdisciplinares, a discordância sobre a importância da promoção da atividade física e a falta de recursos na forma de ministérios responsáveis ​​ou estruturas institucionais.

Na Alemanha, as seguradoras de saúde públicas (os fundos de seguro de saúde do país), oferecem programas de incentivo e cursos preventivos; creches e escolas implementam programas de atividade física e a promoção da saúde no local de trabalho é apoiada por meio de incentivos fiscais. Estratégias municipais e nacionais complementam esses esforços. Mesmo assim, a Alemanha ocupa uma posição intermediária inferior na implementação de medidas de prevenção, relacionadas à atividade física no Índice de Saúde Pública, “Proteção da Saúde em Comparação Europeia 2025”.

Vigilância e Dados

“As iniciativas internacionais, certamente contribuíram para aumentar a visibilidade da promoção da atividade física”, afirmou Sven Messing, pesquisador associado do Centro Colaborador da OMS para Atividade Física e Saúde Pública da Universidade Friedrich-Alexander de Erlangen-Nuremberg, em Erlangen, Alemanha, em declarações ao Science Media Center. Muitas iniciativas para promover a atividade física estão sendo realizadas com entusiasmo, disse Messing. Mas os dados revelam um problema fundamental na Alemanha: “Existem projetos-piloto científicos que comprovadamente promovem a atividade física, mas geralmente têm um alcance limitado. Por outro lado, existem iniciativas de grande escala com amplo alcance, para as quais, devido à falta de avaliação, não está claro, em que medida promovem a atividade física”.

“O cenário da atividade física na Alemanha sempre sofreu com a fragmentação federal e com abordagens de curto prazo focadas em projetos”, disse Sven Schneider, chefe do Departamento de Pesquisa em Saúde Infantil do Instituto de Saúde Pública, Medicina Social e Preventiva de Mannheim, da Universidade de Heidelberg, Alemanha.

“Precisamos urgentemente de uma coleta nacional, padronizada e regular de indicadores confiáveis ​​de atividade física, começando pelas crianças mais novas, passando pelos adolescentes e chegando aos idosos”, enfatizou Schneider. Só assim será possível mensurar os sucessos na prevenção, detectar áreas problemáticas e remediar as deficiências regionais. Segundo ele, o atraso nos investimentos, levou alguns municípios a um estado catastrófico da infraestrutura esportiva: “Piscinas fechadas, ginásios deteriorados e cortes nos esportes escolares, enviam uma mensagem clara para nossas crianças e adolescentes: não nos importamos se vocês se exercitam ou não”.

Peter Gelius, do Instituto de Ciências do Esporte da Universidade de Lausanne, na Suíça, também descreveu os resultados como bastante preocupantes. Mas afirmou que seria prematuro considerar os esforços um fracasso. Mudanças levam tempo, disse Gelius. “Nossas condições de vida estão se tornando cada vez menos ativas, em termos de transporte, no trabalho e no lazer. Se não tivessem sido tomadas medidas políticas nos últimos 20 anos, o nível de atividade física na população poderia até ter diminuído”, observou.

Heike Köckler, PhD em Saúde Comunitária pela Universidade de Ciências Aplicadas de Bochum, na Alemanha, acredita que o potencial da mobilidade ativa na Alemanha, ainda está subutilizado. O debate sobre os preços da gasolina nos postos de combustível, demonstra que a transição do transporte individual motorizado para a mobilidade ativa, pode alcançar diversos objetivos: redução da poluição sonora e atmosférica local, uma população mais ativa, menor consumo de recursos e diminuição das emissões globais.

“Na Alemanha também existem conceitos abrangentes, mas a implementação está muito lenta”, afirmou Köckler. Ela também enfatizou que os conceitos existentes, não abordam adequadamente a desigualdade social em saúde.

Soluções de Design Urbano

A plataforma de cooperação “Esportes para Crianças e Jovens”, formulou recomendações concretas para o final de 2025. Como exemplo, Messing cita a recomendação de estabelecer atividades diárias de movimento, brincadeiras e esportes nos programas escolares de período integral, em cooperação com clubes esportivos. Outros países já demonstraram que isso funciona, disse Messing: “Na Dinamarca, 45 minutos de atividade física durante o período escolar, são obrigatórios desde 2014. Estudos científicos mostram que as escolas dinamarquesas, expandiram significativamente suas horas de educação física e que crianças e jovens estão se tornando mais fisicamente ativos.”

A Alemanha pode aprender com outros países, disse Gelius: “Eu observaria principalmente a Holanda e a Escandinávia: nesses países, houve um foco consistente em transporte ativo, atividades de lazer ativas e na promoção da atividade física nas escolas nas últimas décadas, o que a política alemã pode adotar como modelo.”

Schneider cita o Japão e a Holanda, e cidades como Copenhague e Paris, como exemplos positivos. No Japão, o tempo de aula é interrompido regularmente para pausas para movimento; Na Holanda, os semáforos são sincronizados para que os ciclistas não precisem esperar tanto tempo no sinal vermelho, quando estiver chovendo. Copenhague possui ciclovias rápidas segregadas e longas pontes no centro da cidade, exclusivas para ciclistas. Em Paris, em apenas um ano, novos espaços de lazer, a expansão das ciclovias e a redução do tráfego de carros de turistas, aumentaram o ciclismo em cerca de 40%. “Em todos os casos, o planejamento urbano e as medidas estruturais facilitaram a integração do exercício físico ao cotidiano, tornando-o uma alternativa mais simples e agradável”, explicou Schneider.

Investimento em Infraestrutura

A Alemanha agora tem o maior gasto per capita com saúde na Europa, segundo o Índice de Saúde Pública. Schneider afirmou que isso se deve, em grande parte, ao fato de a prevenção e a promoção da saúde terem sido “criminosamente negligenciadas” na Alemanha por décadas.

Pesquisas atuais indicam que as medidas são particularmente promissoras para crianças e adolescentes, enquanto a atividade física na terceira idade também é crucial, pois ajuda a preservar a independência e a qualidade de vida, disse Gelius. “De uma perspectiva social, promover o ciclismo e a caminhada, é considerada uma alavanca importante que conecta objetivos como saúde, qualidade de vida e redução das emissões de CO₂.” Para implementar a promoção da atividade física na Alemanha, é necessário integrá-la às rotinas administrativas, e promover a colaboração entre diversas partes interessadas, afirmou Köckler. Ela sugeriu vincular o Fundo Especial para Infraestrutura e Neutralidade Climática à promoção da atividade física, “investindo em ciclovias e calçadas, bem como em espaços de lazer, movimento e convívio, e em sua manutenção”.

Três áreas de prevenção na Alemanha poderiam gerar ganhos particularmente expressivos:

Expansão quantitativa e qualitativa significativa do esporte escolar

Apoio financeiro e desburocratização para clubes e associações

Investimento maciço em infraestrutura esportiva, não apenas em ginásios e piscinas, mas também em oportunidades para a prática de exercícios em espaços públicos, como parques infantis, pistas de skate, campos de futebol e instalações para ginástica.

Veja o artigo original

www.medscape.com/viewarticle/5-million-deaths-tied-global-inactivity-2026a10008vx?ecd=a2a

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
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