Artigo publicado na Nature em 07/10/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que uma bactéria intestinal secreta uma molécula, que reduz a produção de colesterol, segundo um estudo com camundongos.
Um microrganismo intestinal comum em humanos, produz uma molécula capaz de reduzir drasticamente os níveis de colesterol, e diminuir as placas nas artérias, segundo um estudo publicado na revista Nature.
Quando administrado a camundongos, o composto derivado da bactéria intestinal, a Bacteroides uniformis, reduziu as placas arteriais dos animais, em cerca de metade. Os pesquisadores descobriram, que ele alcança esse resultado, utilizando o mesmo mecanismo biológico das estatinas, medicamentos prescritos a centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, para prevenir doenças cardiovasculares.
As descobertas destacam novas formas de aproveitar o conjunto de microrganismos intestinais, conhecido como microbioma, para proteger o coração, afirma a coautora do estudo Wenjing Zhao, microbiologista da Universidade Sun Yat-sen em Shenzhen, na China.
O estudo fornece “evidências valiosas de que o microbioma intestinal pode influenciar a saúde vascular”, indo além de uma simples associação entre doenças cardíacas e o microbioma, e avançando em direção a “evidências de um mecanismo biológico potencialmente causal”, diz Ben Chen, especialista em doenças cardiovasculares do Monash Victorian Heart Institute, em Melbourne, Austrália.
Questões do coração
As doenças causadas pela aterosclerose, o acúmulo progressivo de placas inflamatórias nas paredes das artérias, continuam sendo a principal causa de morte em todo o mundo. Embora as doses diárias de estatinas tenham reduzido o número de óbitos, esse tratamento isolado, não consegue reduzir o colesterol de forma suficiente, em quase metade das pessoas com doença cardíaca avançada. Além disso, algumas pessoas não toleram doses elevadas desses medicamentos.
Para encontrar uma alternativa, Zhao e seus colegas, analisaram a flora intestinal presente em amostras de fezes de pessoas com e sem doenças cardiovasculares. Uma espécie se destacou: a Bacteroides uniformis. Isso ocorreu porque os níveis dessa bactéria eram frequentemente mais baixos em pessoas com doença cardíaca, em comparação com indivíduos saudáveis.
Em seguida, os pesquisadores modificaram geneticamente camundongos, para que desenvolvessem aterosclerose e os alimentaram com uma dieta rica em gordura, simulando as condições observadas em algumas pessoas com doença cardíaca. Quando os cientistas administraram B. uniformis viva aos animais, houve uma redução de cerca de um terço no tamanho das placas nas artérias principais, em comparação com os camundongos não tratados. A dose bacteriana também levou a uma redução nos níveis de substâncias gordurosas no sangue, incluindo o colesterol total e a lipoproteína de baixa densidade (LDL), por vezes chamada de “colesterol ruim”. Além disso, reduziu a quantidade de células imunes inflamatórias, que infiltravam as paredes arteriais dos roedores.

Zhao e seus colegas, isolaram a molécula responsável por essa proteção: o ácido pentadecanoico. Análises adicionais mostraram, que a molécula inibe uma enzima hepática envolvida na produção de colesterol, a qual também é alvo de medicamentos da classe das estatinas. O bloqueio dessa enzima estimula o fígado a produzir mais receptores de LDL, que, por sua vez, removem o excesso de colesterol da corrente sanguínea.
Para verificar se as descobertas feitas em animais se aplicariam a humanos, a equipe de Zhao analisou amostras de sangue e fezes de mais de 200 doadores. Pessoas com concentrações anormalmente elevadas de moléculas lipídicas, como o colesterol no sangue, apresentavam níveis mais baixos de ácido pentadecanoico do que indivíduos saudáveis. As análises das fezes também revelaram, que pessoas com doença cardíaca, portavam menos genes bacterianos responsáveis pela produção dessa molécula, em comparação com o grupo de controle.
“Apenas o primeiro passo”
Pesquisas anteriores, já haviam sugerido benefícios cardiovasculares associados ao ácido pentadecanoico; por exemplo, um pequeno estudo constatou, que a administração da substância a pessoas com doença hepática metabólica, reduziu seus níveis de LDL. No entanto, as evidências clínicas permanecem inconclusivas, com outras análises indicando que a molécula não oferece proteção clara contra doenças cardíacas.
“Isso é particularmente relevante, porque o ácido pentadecanoico vem sendo cada vez mais comercializado como um suplemento para a saúde do coração, ao passo que as evidências clínicas, que sustentam um benefício cardiovascular, continuam limitadas”, afirma Chen.
Embora a pesquisa mais recente, apresente resultados promissores, ele foi realizado principalmente em camundongos e, portanto, “não reproduz fielmente a doença arterial coronariana humana”, diz Chen. Segundo ele, os modelos padrão de camundongos, raramente reproduzem as lesões nas paredes arteriais, que frequentemente causam ataques cardíacos em humanos.
Os camundongos também receberam doses de bactérias que excediam em muito o que uma pessoa poderia obter, por meio da alimentação ou de suplementos; assim, serão necessários estudos maiores em humanos, para compreender quaisquer benefícios potenciais, afirma Kazuyuki Kasahara, especialista em microbioma da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.
Para Kasahara, o trabalho representa uma prova de conceito convincente, mas ele ressalta, que se trata apenas do primeiro passo. “Este excelente artigo conta uma história fascinante, mas, no ecossistema do nosso intestino, as coisas são mais complexas”.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-03189-7

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