A dissonância cognitiva consiste em cognições ou pensamentos antitéticos, que, portanto, estão em conflito entre si a ponto de, em casos mais extremos, gerar desconforto. A dissonância cognitiva causa uma inversão de direção que leva a uma espécie de tensão, semelhante à experimentada em situações estressantes, e a emoções negativas. A hipótese inicial é: ao mudar os pensamentos, as opiniões mudarão? Ou, ao criar dúvidas sobre a avaliação, a situação de incongruência se resolverá em direção a uma das duas atitudes resultantes?
Claramente, a resposta é sim, porque mudar as suposições altera as consequências, mas nem sempre. O resultado, em qualquer caso, depende do comportamento implementado, que não corresponde necessariamente à extinção do próprio comportamento. Por exemplo, uma dissonância sobre não fumar pode ser resolvida de várias maneiras: Eu não fumo porque isso me dará câncer; Eu continuo fumando; não há relação de causa e efeito entre fumar e câncer. Eu fumo cachimbo porque é menos perigoso.
Em conclusão, a dissonância cognitiva parece ser eficaz na mudança de atitude quando:
a pessoa realiza um ato que não é contrário à sua atitude; uma ação induzida por uma recompensa ou punição é percebida como uma escolha livre; o reconhecimento social obtido com a mudança de atitude leva a resultados positivos; ao reduzir informações inconsistentes, as suposições parecem ser altamente dissonantes cognitivamente e, portanto, modificáveis; a mudança afeta componentes cognitivos, emocionais e relacionais;
a mudança alcançada produz sucessos progressivos. Dissonância cognitiva.
Esses eventos foram descritos por três pesquisadores: Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter em seu livro “When Prophecy Fails” (Leon Festinger, Henry Riecken, Stanley Schachter, 1956). Os três pesquisadores tomaram conhecimento do grupo e das crenças de Dorothy Martin enquanto conduziam estudos sobre os efeitos de profecias que não se concretizam. Eles aproveitaram a oportunidade, juntando-se ao grupo juntamente com outros “infiltrados” especialmente recrutados.

A hipótese dos três pesquisadores era que, mesmo que as profecias não se cumprissem, seus defensores não abandonariam suas crenças. De acordo com a teoria de Festinger e seus colegas, os crentes na profecia se envolveriam em comportamentos que fortaleceriam suas convicções.
Isso se baseava no mecanismo de “dissonância cognitiva”, que foi formalizado por Leon Festinger em termos mais gerais alguns anos depois, em sua obra seminal “Teoria da Dissonância Cognitiva” (1957).
Especificamente, a dissonância existe quando há um conflito entre dois elementos cognitivos. Portanto, quanto mais “perturbador” for esse conflito para a pessoa que o vivencia, mais ela buscará uma estratégia para reduzi-lo. No caso de Dorothy, os dois elementos conflitantes eram, por um lado, a crença na profecia e, por outro, a certeza de que ela não havia se cumprido.
Deve-se notar também que o contraste entre os dois elementos é muito forte quando ações impossíveis ou difíceis de desfazer foram realizadas. No caso do grupo de Dorothy, muitos haviam deixado seus empregos e/ou doado seus pertences. De acordo com a crença, após o dilúvio, eles não precisariam mais deles.
De modo geral, existem três ações possíveis para reduzir a dissonância cognitiva:
Mudar o comportamento;
Introduzir um elemento cognitivo diferente;
Modificar o ambiente externo.
Neste caso específico, mudar o comportamento significaria abandonar a crença. Se uma profecia não se confirma, claramente não pode ser considerada verdadeira.
A introdução de um elemento cognitivo diferente poderia ser alcançada, por exemplo, por meio de uma reinterpretação da profecia original, que poderia ser antecipada em anos — ou séculos. A “tática” do elemento cognitivo diferente varia dependendo dos fatores que dão origem à dissonância. Em seu livro, por exemplo, Festinger dá o exemplo de fumantes que experimentam dissonância. Isso ocorre porque, por um lado, eles sabem que fumar é prejudicial, enquanto, por outro, continuam com o hábito. O elemento cognitivo diferente sobre o tabagismo — capaz de reduzir a dissonância — poderia ser a ideia de que não é tão prejudicial, ou uma anedota sobre fumantes inveterados que viveram até os 100 anos.
Modificar o ambiente externo consiste em encontrar apoio social para as próprias crenças. Dorothy e o resto do grupo escolheram esse último comportamento, fazendo proselitismo para tentar convencer os outros da validade da profecia.

Rossana Kopf – psicanalista
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