Um número “impressionante” de pessoas acredita em alegações não comprovadas sobre vacinas, leite cru e outros assuntos

Artigo publicado na Nature em 22/04/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que os resultados da pesquisa sugerem um aumento no questionamento das evidências científicas.

Mais de dois terços do público acredita em pelo menos uma afirmação falsa ou sem comprovação científica sobre saúde, como a ideia de que tomar paracetamol durante a gravidez causa autismo, segundo uma nova pesquisa. Os resultados sugerem que um número grande e potencialmente crescente de pessoas, está questionando as evidências científicas.

A pesquisa, realizada com mais de 16.000 pessoas em 16 países, perguntou se elas acreditavam em afirmações sem respaldo científico, incluindo aquelas de que “os riscos das vacinas infantis superam os benefícios”, “o flúor na água é prejudicial” e “o leite cru é mais saudável do que o leite pasteurizado”.

Para cada afirmação, entre 25% e 32% dos entrevistados disseram acreditar nela, e outra porcentagem considerável (17% a 39%) disse não saber se era verdade. No total, 70% dos entrevistados acreditavam em pelo menos uma das afirmações. As conclusões, que ainda não foram revisadas por pares, e foram publicadas hoje pelo Edelman Trust Institute, em Nova York, foram descritas como “impressionantes”, em um artigo complementar escrito pelo diretor executivo, Richard Edelman.

O resultado “desmente a ideia” de que tais crenças são compartilhadas apenas por uma minoria de indivíduos desinformados ou ideologicamente motivados, afirma David Bersoff, chefe de pesquisa do Edelman Trust Institute. “Não se trata de um pequeno grupo problemático.”

“Definitivamente, tem havido um número crescente de pessoas, que questionam as evidências científicas amplamente aceitas”, concorda Heidi Larson, que estuda a confiança nas vacinas na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. “É importante prestar atenção nisso.”

Alegações controversas

Outros estudos recentes, destacaram a frequência com que as pessoas questionam o consenso científico ou as práticas médicas baseadas em evidências, pelo menos em certas áreas controversas, como as vacinas. Um estudo global de 2023 constatou que, durante a pandemia de COVID-19, a confiança das pessoas na importância das vacinas para crianças caiu em 52 dos 55 países analisados.

Este ano, uma pesquisa da KFF, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa em políticas de saúde em São Francisco, Califórnia, descobriu que 34% dos adultos nos Estados Unidos, acreditavam ser definitivamente ou provavelmente verdade que tomar Tylenol (paracetamol) durante a gravidez, aumenta o risco de a criança desenvolver autismo, embora as evidências científicas não sustentem essa ligação.

Essa afirmação, e algumas outras mencionadas na pesquisa da Edelman, foram apoiadas pelo secretário de saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., e pelo movimento mais amplo Make America Healthy Again. Mas os resultados do estudo sugerem, que essas crenças se estendem muito além dos Estados Unidos. Na maioria dos países pesquisados, incluindo Brasil, África do Sul, Índia, Alemanha e Reino Unido, pelo menos 50% das pessoas acreditavam em uma ou mais das declarações de saúde “divisivas”.

As pessoas que acreditavam em três ou mais das afirmações, tinham a mesma probabilidade de ter frequentado a universidade, e maior probabilidade de consumir notícias sobre saúde, do que aquelas que acreditavam em menos delas. Isso desafia a suposição de que as pessoas que sustentam tais opiniões são mal-informadas, afirma Bersoff.

O verdadeiro problema, argumenta ele, é a superabundância de informações conflitantes, provenientes das redes sociais, notícias e conversas com outras pessoas na vida real. Em uma pesquisa realizada no Reino Unido e publicada na semana passada, quase 40% dos entrevistados concordaram que “atualmente há informação demais disponível para saber o que é verdade sobre ciência”.

Redistribuição da confiança

Pesquisas sugerem que, de modo geral, a confiança pública na ciência e nos cientistas, permanece relativamente alta. Nos Estados Unidos, 77% dos adultos em 2025 afirmaram ter confiança de que os cientistas agiriam em prol do interesse público, de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, um centro de estudos de Washington. Este valor é muito superior à proporção daqueles que afirmaram ter confiança em líderes empresariais (37%) ou em funcionários eleitos (27%), embora represente uma queda em relação aos 86% registados em 2019, antes da pandemia de COVID-19.

Mas, segundo pesquisadores, as pessoas também confiam cada vez mais em informações de outras fontes. “Acho que o que estamos vendo é talvez uma redistribuição dessa confiança”, afastando-a das instituições científicas, afirma Colin Strong, que lidera a área de ciência comportamental na empresa de pesquisa de mercado Ipsos, em Londres. A pesquisa da Edelman mostrou que uma alta proporção de pessoas valoriza recomendações pessoais e influenciadores de mídias sociais como fontes de conhecimento sobre saúde, assim como pessoas com formação acadêmica.

“Houve uma proliferação de “especialistas” e de vozes confiáveis ​​e, como resultado, a expertise dos cientistas foi de certa forma diluída”, diz Bersoff. “Quanto mais especialistas existem em seu mundo, maior a probabilidade de que, em uma ou mais ocasiões, você se afaste daquilo que a ciência tradicional quer que você acredite.”

É importante não tratar com condescendência ou desconsiderar pessoas que possam estar desafiando perspectivas estabelecidas por uma ampla gama de razões legítimas, acrescenta Strong. Se os cientistas e as instituições científicas não se comunicarem de forma acessível e útil, nas redes sociais, por exemplo, “as pessoas procurarão outras fontes de informação e evidências”.

Artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01285-2

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
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