Dia Mundial do Combate a Asma: um chamado à ação

Na primeira terça de maio se comemora o Dia Mundial do Combate a Asma. A discussão não deveria começar na crise, mas no intervalo entre elas. A asma não é um evento episódico que aparece e desaparece. É um processo contínuo, dinâmico, que persiste mesmo quando o paciente se sente bem. O silêncio dos sintomas não significa ausência de doença. Significa apenas que, naquele momento, a inflamação está contida, não resolvida.

Por muitos anos, treinamos pacientes e médicos para reagir ao agudo. Se há falta de ar, trata-se. Se não há, segue-se a vida. Esse modelo é intuitivo, mas incompleto. A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas, com atividade biológica mesmo fora das exacerbações. O que acontece entre as crises é o que define o risco das próximas.

Na prática, isso aparece de forma muito concreta. O paciente que “só usa a bombinha quando precisa” passa meses bem, até que uma infecção viral desorganiza o sistema e leva à emergência. Ele melhora com corticoide sistêmico, volta para casa e acredita que o problema foi resolvido. Não foi. Houve apenas um reset temporário de uma inflamação que nunca foi verdadeiramente controlada.

Existe remissão? Sim, especialmente em fenótipos mais leves ou com início na infância. Alguns pacientes atravessam longos períodos sem sintomas e sem necessidade de medicação. Mas remissão não é cura definitiva. A via aérea mantém memória inflamatória, hiperresponsividade e vulnerabilidade a gatilhos. O risco não desaparece. Ele apenas se torna menos visível, e por isso mais negligenciado.

A ideia de que a asma “vive de ciclos” carrega uma meia verdade. Infecções, alérgenos e poluição modulam a expressão clínica. Mas, na maior parte das vezes, o que parece ciclo é controle inconsistente. Quando o tratamento é guiado apenas por sintomas, a doença parece imprevisível. Quando o cuidado é contínuo, ela se torna mais estável e previsível. Não é a doença que muda. É a forma de conduzi-la.

E aqui está o ponto que redefine o valor do tratamento. Asma mal controlada não é apenas desconforto. É acúmulo de risco. Aumenta exacerbações, visitas à emergência e internações. Mantém o organismo em inflamação persistente e, ao longo do tempo, pode contribuir para dano estrutural das vias aéreas. Em alguns pacientes, especialmente os mais graves ou negligenciados, esse ambiente favorece o surgimento de Bronquiectasia, transformando uma doença funcional em uma doença também anatômica.

O impacto também ultrapassa o pulmão. A asma mal controlada se associa a maior risco de Doença cardiovascular. Inflamação sistêmica, estresse oxidativo, disfunção endotelial e uso recorrente de corticoide sistêmico criam um terreno mais vulnerável. Soma-se a isso a limitação funcional. O paciente que evita esforço por medo de sintomas se movimenta menos, condiciona menos e adoece mais. O que começa como falta de ar pode evoluir para um problema sistêmico.

Diante desse cenário, o objetivo do cuidado precisa ser mais ambicioso. Não basta aliviar sintomas. É necessário estabilizar a doença ao longo do tempo. Gerar valor clínico significa reduzir exacerbações, evitar internações e preservar função pulmonar. Mas isso, isoladamente, não sustenta adesão.

É preciso gerar também valor percebido. O paciente precisa entender o que tem, reconhecer gatilhos e identificar sinais precoces de descontrole. Precisa saber agir antes da crise. Um plano de ação escrito, uma técnica inalatória bem executada e pequenos ajustes precoces mudam completamente a trajetória. O cuidado deixa de ser reativo e passa a ser antecipatório.

Isso exige comunicação de qualidade. Explicar que tratamento contínuo não é excesso, é proteção. Traduzir a inflamação invisível em risco concreto. Quando o paciente entende o porquê, a adesão deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma decisão consciente.

No fim, tratar asma como doença crônica é abandonar a lógica da crise e assumir a lógica da trajetória. O sucesso não está apenas em evitar a próxima exacerbação, mas em impedir o acúmulo silencioso de risco. Porque controlar a asma não é apenas fazer o paciente respirar melhor hoje. É garantir que ele não pague amanhã o preço de uma doença que parecia estar em silêncio.

Dr. Ernando Sousa, colunista Jornal do Médico

Imagem: Freepik

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