Artigo publicado na Nature em 17/06/2026, em que um pesquisador da Austrália afirma que os esforços globais existentes, para reduzir os danos causados pelo tabagismo, têm como alvo o fumo do tabaco, mas os cigarros eletrônicos, que contêm nicotina, também são prejudiciais.
Mais de um bilhão de pessoas no mundo são dependentes de nicotina. Agora, um pequeno arquipélago no Oceano Pacífico, conhecido por seus espetaculares recifes de coral, quer mudar essa realidade.
A República de Palau, solicitou às Nações Unidas, que revisem os danos causados pela substância altamente viciante encontrada no tabaco e em produtos de vaporização. O país quer que a nicotina seja adicionada à lista de substâncias regulamentadas pela organização, que inclui narcóticos e drogas psicotrópicas como anfetaminas.
Isso tornaria ilegal a venda de produtos que contenham nicotina, e que não sejam considerados medicinais, afirma o Dr. Renee Bittoun, especialista em tratamento da dependência de nicotina no Instituto Woolcock de Pesquisa Médica em Sydney, Austrália. Mas o próprio Dr. Bittoun acredita ser improvável que a nicotina seja adicionada à lista, pois as empresas de tabaco se oporão veementemente.
Cerca de 1,2 bilhão de pessoas consomem tabaco, e pelo menos 100 milhões usam cigarros eletrônicos, também conhecidos como vapes, segundo a Organização Mundial da Saúde. Os perigos do tabagismo são bem conhecidos, aumentando o risco de uma pessoa desenvolver doenças cardíacas e AVC, além de muitos tipos de câncer. O tabagismo mata mais de 7 milhões de pessoas por ano, incluindo 1,6 milhão de não fumantes expostos à fumaça de segunda mão.
Na última década, os cigarros eletrônicos se tornaram mais populares, principalmente entre os jovens, que têm nove vezes mais probabilidade de usá-los, do que os adultos. O uso de cigarros eletrônicos é altamente viciante, e pode causar lesões pulmonares; também pode aumentar o risco de câncer.
Regras inconsistentes

Embora a nicotina em si não cause câncer, ela é altamente viciante, e representantes de Palau e pesquisadores de saúde pública argumentam, que ela deveria ser regulamentada da mesma forma que os narcóticos e as drogas psicoativas. O arquipélago afirma, que os esforços globais existentes para proteger as pessoas contra os danos associados ao vício em nicotina, visam apenas o tabaco, deixando brechas para produtos sem tabaco, como cigarros eletrônicos e sachês de nicotina.
“Trata-se das nossas crianças”, disse a primeira-dama do país, Valerie Whipps, presidente da Coalizão por um Palau Livre do Tabaco, em um comunicado à imprensa. “Uma nova geração de jovens em todo o Pacífico, está sendo alvo de produtos, que nunca foram analisados criticamente sob a lei da ONU.” Em 2023, Palau proibiu a importação, venda e uso de cigarros eletrônicos. Em 2021, 29% dos adolescentes entre 9 e 20 anos em Palau, haviam usado cigarros eletrônicos.
Atualmente, os países decidem como regulamentar cigarros, cigarros eletrônicos e outros produtos que contêm nicotina, afirma K. Michael Cummings, pesquisador de controle do tabaco no Centro de Câncer Hollings da Universidade Médica da Carolina do Sul.
Mas a maioria dos países não regulamenta a nicotina, o que significa que novas formas do composto, não abrangidas pelas regras existentes, podem ser desenvolvidas. Por exemplo, as regulamentações sobre como as bolsas de nicotina, pequenos sachês colocados entre a gengiva e o lábio que liberam nicotina, são vendidos e embalados, variam em todo o mundo. Os limites de idade para a compra desses produtos, e os avisos de saúde que eles exibem, também variam. Alguns países tratam os cigarros eletrônicos como produtos de tabaco, enquanto outros, podem considerá-los produtos de consumo ou medicinais.
Palau defende a inclusão da nicotina na Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas, uma das três convenções que visam prevenir os danos causados por narcóticos e drogas psicoativas, garantindo, ao mesmo tempo, que elas continuem disponíveis para pesquisa e uso medicinal. A inclusão da nicotina na convenção da ONU, significaria um tratamento uniforme para ela em todo o mundo.
O que vem a seguir?
Após o pedido de Palau, para incluir a nicotina na lista de substâncias controladas da ONU, a droga passará por uma avaliação médica e científica sobre seu potencial de abuso, seus efeitos negativos e sua utilidade como medicamento. Essa avaliação será realizada pelo Comitê de Especialistas em Dependência de Drogas da OMS. Em seguida, 53 Estados-membros votarão, se a nicotina deve ser incluída na lista. A votação está prevista para março de 2028.
Cummings afirma que, se a ONU atender ao pedido de Palau, também é importante garantir que a nicotina continue disponível para a terapia de reposição de nicotina, utilizada principalmente por pessoas que estão tentando parar de fumar, na forma de adesivos, gomas de mascar e pastilhas.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01903-z

Imagens: Freepink







