Inédito no mundo: terapia para rejuvenescer células é testada em um ser humano

Artigo publicado na Nature em 09/06/2026,onde pesquisadores de diferentes países afirmam que um participante de um estudo clínico inovador, recebeu um tratamento de reprogramação celular, que visa rejuvenescer células danificadas nos olhos.

Chegou a hora da verdade: a primeira pessoa foi tratada em um aguardado ensaio clínico de terapia gênica, que visa induzir células envelhecidas, a assumirem uma identidade mais jovem.

O ensaio clínico está testando uma técnica inovadora, que envolve a ativação de três genes capazes de “reprogramar parcialmente” células antigas, permitindo que elas se comportem como se fossem jovens novamente. Alguns cientistas argumentam, que a reprogramação parcial, poderia rejuvenescer órgãos envelhecidos. Mas este ensaio clínico testará a ativação desses três genes, como uma abordagem para o tratamento de doenças, neste caso, uma forma de glaucoma, uma condição que pode causar cegueira.

A esperança é que as proteínas codificadas pelos genes possibilitem a regeneração de neurônios no nervo óptico, que conecta o olho ao cérebro, e é danificado em pessoas com glaucoma. Esses neurônios normalmente não são capazes de se regenerar. A empresa que patrocina o ensaio clínico, a Life Biosciences, de Boston, Massachusetts, anunciou que tratou seu primeiro participante.

A importância é grande. O ensaio clínico testará a segurança da abordagem de reprogramação, uma preocupação constante na área. Estudos com animais, realizados por diversos laboratórios, sugerem que a reprogramação parcial pode ser feita com segurança, mas há receios de que ela possa levar algumas células a um estado cancerígeno.

“A reprogramação tem um grande potencial, se puder ser usada com segurança em humanos”, afirma Matt Kaeberlein, cofundador da Optispan, uma empresa de medicina preventiva focada na longevidade, em Seattle, Washington. “A tecnologia ainda está em fase inicial, e o potencial para efeitos colaterais catastróficos é alto.”

Como resultado, o olho provavelmente é um bom primeiro local para testar a técnica, diz Kaeberlein, porque as chances de efeitos colaterais com risco de vida, são menores com alterações no olho, do que em outros órgãos.

Rejuvenescer

O objetivo da reprogramação parcial é rejuvenescer células adultas envelhecidas, restaurando características de células jovens, sem regredir as células antigas, a ponto de elas perderem completamente sua identidade especializada, e função. Para isso, a Life Biosciences utilizou três dos quatro genes que, em laboratório, podem ser manipulados para reprogramar células adultas, em um estado semelhante ao de células-tronco.

Em 2020, o geneticista David Sinclair, da Harvard Medical School em Boston, Massachusetts, relatou que a ativação desses três genes em camundongos, com nervos ópticos danificados, promoveu a regeneração neuronal, e reverteu a perda de visão em camundongos idosos e em camundongos com glaucoma. Desde então, a Life Biosciences estudou a abordagem em roedores e macacos, e não observou efeitos adversos graves do tratamento, afirma Sharon Rosenzweig-Lipson, diretora científica da empresa.

No ensaio clínico, a Life Biosciences pretende tratar até 12 pessoas com glaucoma e, eventualmente, incluir alguns participantes com uma condição aguda e grave, chamada neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, que também causa danos aos nervos do olho.

A empresa utiliza vírus comumente usados em terapia gênica, para transportarem os três genes de reprogramação para as células ganglionares da retina, cujos longos prolongamentos compõem o nervo óptico. Como medida de segurança adicional, o sistema é projetado para que os genes somente sejam ativados, quando o participante toma um antibiótico chamado doxiciclina. Se o antibiótico for interrompido, os genes são desativados. Essa estratégia “nos dá muito controle”, afirma Rosenzweig-Lipson, permitindo ativar e desativar os genes “e não manter a expressão ativa por mais tempo do que o necessário para rejuvenescer as células”.

Juventude verdadeira

O sucesso do ensaio clínico seria uma grande vantagem para pessoas com glaucoma e outras doenças, mas se isso significa, que as células modificadas são realmente “mais jovens” e podem ser reprogramadas para aumentar a longevidade, é uma questão ainda mais complexa, afirma Pete Williams, neurobiólogo translacional do Centro de Pesquisa Ocular da Austrália, em Melbourne.

A empresa está avançando “uma doença relacionada à idade de cada vez”, segundo Rosenzweig-Lipson. “Não estamos buscando o rejuvenescimento de todo o corpo neste momento”, diz ela. “Esperamos chegar lá algum dia, mas ainda não chegamos.” A Life Biosciences também tem estudado abordagens de reprogramação celular em modelos animais de doenças hepáticas.

Para doenças oculares, Williams vê com bons olhos uma nova estratégia para tratar danos nos nervos da retina, uma área que, em sua opinião, não recebe financiamento ou atenção suficientes. Mas a grande atenção pública voltada para o tratamento da Life Biosciences, também o preocupa. “Tem havido muita propaganda”, afirma. “Se isto correr terrivelmente mal, poderá prejudicar-nos a todos no futuro.”

Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01836-7

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico

Imagens: Freepik

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