Entre Raízes e Asas – O difícil caminho de amar sem repetir

A matrofobia não é o medo da mãe. É algo muito mais delicado, profundo e, muitas vezes, silencioso: o medo de se tornar como ela.

O termo, popularizado pela poeta e crítica feminista Adrienne Rich, descreve um conflito vivido por inúmeras mulheres. Um conflito que nasce justamente onde existe amor. Porque amar uma mãe não significa desejar repetir sua história. Muitas vezes, significa enxergar suas dores tão de perto que surge o desejo de seguir um caminho diferente.

Muitas filhas carregam dentro de si uma pergunta que raramente é compartilhada:
“E se eu acabar vivendo a mesma vida que ela?”
Por trás dessa inquietação não existe necessariamente rejeição. Existe amor. Existe admiração. Existe gratidão. Mas existe também o desejo legítimo de construir uma história própria, com mais liberdade, mais escolhas e menos sofrimento.

Quando uma filha observa uma mãe que abriu mão de sonhos, que suportou relações dolorosas, que colocou as necessidades de todos acima das suas ou que carregou sozinha o peso da família, ela pode sentir um medo profundo de repetir esse destino. E, muitas vezes, quando pensa: “Não quero ser como minha mãe”, o que realmente está dizendo é: “Não quero sofrer o que ela sofreu”.

Entretanto, essa percepção costuma vir acompanhada de sentimentos difíceis.
Com o amadurecimento, a filha começa a perceber que sua mãe também foi uma menina um dia. Que também teve sonhos, inseguranças, medos e expectativas. Que talvez tenha enfrentado limitações impostas pelo tempo em que viveu, pela educação que recebeu ou pelas circunstâncias que não pôde escolher.

É então que surge uma profunda ambivalência emocional: ao mesmo tempo em que a mãe pode ter transmitido dores, também foi alguém que carregou suas próprias feridas. Ela deixa de ser vista apenas como mãe e passa a ser reconhecida como mulher, como ser humano, com sua história, suas fragilidades e suas batalhas invisíveis.

Essa compreensão amplia nosso olhar. Muitos conflitos entre mães e filhas não nascem apenas de diferenças de personalidade. Eles carregam marcas de gerações inteiras de mulheres que aprenderam a sobreviver através da renúncia. Mulheres que foram ensinadas a cuidar dos outros antes de cuidar de si mesmas. Mulheres que cresceram acreditando que amar era suportar, silenciar, ceder e sacrificar.

Por isso, algumas mães acabam reproduzindo com suas filhas as mesmas cobranças, exigências e padrões que receberam. Não necessariamente por falta de amor, mas porque foi assim que aprenderam a existir no mundo.
Quando olhamos para essa realidade com mais ternura, percebemos que existe uma herança invisível atravessando as gerações. Uma herança feita de medos, crenças, expectativas, dores, mas também de força, resiliência e amor.

E talvez seja justamente por isso que o perdão, quando possível, se torna um caminho de libertação.
Perdoar não significa esquecer o que machucou. Não significa justificar comportamentos que causaram sofrimento. Significa compreender a história inteira. Significa reconhecer que, por trás da figura materna, existe uma mulher real — imperfeita, vulnerável, marcada por suas próprias experiências e limitações.

Compreender não apaga as feridas, mas suaviza o peso que carregamos ao olhar para elas. Talvez uma das tarefas emocionais mais importantes da vida adulta seja aprender a enxergar a mãe com humanidade: reconhecer seus erros sem apagar seus esforços; reconhecer suas falhas sem esquecer seu amor; reconhecer suas limitações sem negar tudo o que ela conseguiu oferecer.

A matrofobia revela, em sua essência, a busca por uma identidade própria. O desejo de ser quem se é sem precisar rejeitar completamente as próprias raízes. O desafio não está em se tornar igual à mãe, nem em passar a vida inteira fugindo dela.

O verdadeiro desafio é encontrar um caminho onde seja possível honrar a história que nos trouxe até aqui sem ficar aprisionada à sua repetição. É acolher aquilo que recebemos, transformar aquilo que nos feriu e seguir adiante com mais consciência, mais liberdade e mais amor.

Porque amadurecer talvez seja exatamente isso: compreender que nossas raízes fazem parte de nós, mas não definem completamente quem somos. Podemos carregar a herança de nossas mães com respeito e gratidão, enquanto criamos, com coragem, uma história nova.

E talvez a maior cura aconteça quando percebemos que não precisamos escolher entre amar nossa mãe ou sermos nós mesmas. Podemos fazer as duas coisas.

Rossana Köpf – Psicanalista

Imagens: Freepik

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